“Um efeito ricochete”, diz Todd Haynes ao definir ‘May December’ em Cannes

(Fotos: Divulgação)

Presente pela quarta vez na corrida à Palma de Ouro, apoiado na sua estrela fetiche (Julianne Moore) e numa atuação (elogiada) de Natalie Portman, Todd Haynes chegou a Cannes com “May December” com a sua habitual discrição, mas, pouco a pouco, minuto a minuto, viu o seu novo filme ser bem recebido pela plateia. Parte tem a ver com o elenco, parte com a espinhosa temática: um amor intergeracional, onde um pré-adolescente apaixona-se por uma mulher mais velha (Moore).

A instituição do casamento aparece aqui de modo bem diferente do que fiz em ‘Far From Heaven‘, criando um efeito ricochete em que todos são afetados“, disse Haynes a Cannes.

Editado pelo montador Affonso Gonçalves, “May December” transporta Natalie para um universo de segredos familiares e desejos censurados pela correção política. Ela vive uma atriz, Elizabeth, que se enfurna na casa do casal Gracie e Joe Yoo (papéis de Julianne Moore e Charles Melton) para se preparar para um projeto inspirado na vida nada comum deles. Joe tinha apenas 13 anos quando conheceu Gracie, uma mulher na casa dos 30 anos e os dois se apaixonaram com polémica à mistura. Agora um adulto, Joe segue apaixonado, mas existe uma instabilidade, que se agrava, de modo gradual com a presença de Elizabeth (Portman). Como atriz pronta a interpretar o papel de Gracie numa produção independente, Elizabeth tem interesse na rotina daquela família que, aos poucos, vai se complicando.

Fonzie, que é como chamamos Affonso, tem um conhecimento imenso da linguagem do cinema e criou uma foma de montar os meus filmes que é engraçada. Quando termino de rodar uma longa-metragem, não consigo ver nada do que filmei, só leio umas anotações que tomei ao longo das filmagem. Sento-me na minha cama e leio as notas. Só depois de ler tudo e refletir, sento-me com ele e vejo a proposta dele para a montagem“, disse Haynes ao C7. “Juntos, com as suas ideias e as minhas, criamos a narrativa“.

Segundo Haynes, “May December” passa pela questão do gap de gerações e do delicado interesse de uma adulta por um menor para fazer uma discussão moral. “Nos filmes que faço, nem tudo está explícito no roteiro. Esse roteiro veio de Natalie, que leu o script em 2020, no auge da covid-19, e enviou-me. Fiquei surpreso com a quantidade de informações que essa narrativa trazia, sobretudo ao mostrar que um casal explorado por tabloides sobreviveu“, disse Haynes, explicando que o título “May December” simboliza, em inglês, uma diferença de estações, e, portanto, de idades. “A Gracie, com a idade que tinha quando encantou o Joe, percebe mais sobre ela, graças à verdade que a Julianne dá. Trabalhámos com o Michel Legrand na banda-sonora, numa mistura com o material original que Marcelo Zarvos me ofereceu“.

O Festival de Cannes segue até o dia 27 maio.

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