Exibido hoje na Quinzena dos Cineastas, o delirante “The Sweet East” é uma das boas surpresas do Festival de Cannes. Filme estreia na realização do diretor de fotografia norte-americano Sean Price Williams, colaborador de cineastas como Alex Ross Perry (Listen Up Philip) e a dupla Josh & Benny Safdie (Good Time), “The Sweet East” coloca a sua atenção em Lillian (Talia Ryder), uma jovem em fuga de um namorado abusivo que vai tropeçando e convivendo com algumas personagens que, de alguma maneira traçam o retrato polarizado – politicamente e mentalmente – dos EUA nos tempos de hoje.
Por isso mesmo, e sempre passando para um estado dos EUA à medida que segue o seu caminho, Lillian é uma espécie de Alice no País das Maravilhas que a cada momento salta de uma realidade para outra. E se ela começa a sua jornada junto a um bando de ativistas e artistas (ou ‘artivistas‘, como sugere uma personagem), rapidamente encontra supremacistas brancos, transportados para o grande écran através da figura de um professor universitário peculiar. Depois, a jovem que parece ingénua, mas revela-se mestre na arte da manipulação, ainda vai passar por um grupo de muçulmanos amantes de música eletrónica, acabando a sua jornada num mosteiro perante um monge ímpar.
“É o tipo de filme que nasce quando saímos a noite, bebemos uns copos e falamos do que gostaríamos de fazer” disse Sean Price Williams na Croisette. “Eu e o Nick Pinkerton (argumentista) passamos muito tempo juntos e falamos de diversos temas importantes. Foi dessas conversas, e de termos conhecido um tipo do Delaware que teve interesse em nos financiar e ver que tipo de filme conseguiamos fazer, que nasceu o filme.
Alice no País das Maravilhas, mas também “Star Wars“
“Numa estranha maneira de pensar, vi a personagem da Lillian a fazer algo que acontece no universo “Star Wars”, ou seja, em que se vai de planeta em planeta e se encontram regras ideológicas individuais muito diferentes em cada um deles”, explicou Nick Pinkerton na primeira exibição do filme em terras gaulesas. “O que o nosso filme faz é isso, passar de uma realidade para outra. Era como no passado, em alguns locais: uma pessoa era condenada em Roma, ia para o sul de Itália e era exonerada.”

Admitindo que tanto ele como Nick Pinkerton são muito patriotas, Sean não põe de lado a ironia e as críticas ao seu país, quando é preciso: “Somos duas pessoas patriotas, em tempos que esta palavra é perigosa de dizer”, disse Sean. “Sou bastante fascinado pelos EUA, mas mantenho o sentido crítico. Aliás, esse sentido crítico faz parte da América. Não mudamos muito depois do guião estar fechado, mas a primeira encarnação dele era de 2017. Nos cinco anos seguintes, as mudanças no texto não foram muitas, mas algumas tiveram de acontecer porque a realidade tornou-se tão bizarra e estranha que foi obrigatório fazer alguns reparos. Tivemos que ir mais além do que pensávamos e ser mais arrojados para acompanhar o que estava a acontecer no mundo.”
Além de Talia Ryder, que tem uma interpretação notável como Lillian, o filme conta ainda no elenco com Simon Rex no papel de supremacista branco com uma “sensibilidade” particular. Longe dos clichês a que estamos habituados a ver no cinema, o seu papel é o de um professor universitário recluso que se apaixona, de uma forma muito contida por Lillian. “Quando li o guião a minha personagem não era muito fácil de criar empatia, pois é um racista imbecil. Quando o vemos pela primeira vez, ele está num encontro dos supremacistas brancos, logo não pode ser realmente uma boa pessoa”, disse Simon Rex em Cannes.
Porém, tal como fez em “Red Rocket” de Sean Baker, o ator transformou uma personagem teoricamente execrável em alguém com quem o espectador cria uma empatia com a qual se agonia.
O Festival de Cannes termina a 27 de maio.

