Numa conversa esta terça-feira, 17 de maio, durante o Festival de Cannes, por ocasião da Palma de Ouro Honorária recebida na noite de abertura do certame, o ator e produtor Michael Douglas afirmou que qualquer ator que tenha trabalhado com Oliver Stone durante a carreira, conseguiu certamente a sua melhor prestação na atuação: “Vejam o Tom Cruise em “Nascido a 4 de Julho”, o Kevin Costner no “JFK”, Charlie Sheen no “Wall Street” ou o Val Kilmer no “The Doors”. Todos eles e muitos mais tiveram a sua melhor interpretação no cinema num filme do Oliver Stone”.
Categorizando Stone como um cineasta muito exigente, Douglas recordou, entre risos, um episódio durante as filmagens de “Wall Street”: “O Oliver bateu à porta do meu camarim e perguntou se eu estava bem. Eu disse que sim e então ele perguntou se eu andava a usar drogas. Neguei, claro, ao que ele respondeu que parecia que nunca tinha atuado na vida antes”. Na verdade, Oliver Stone queria um Gordon Gekko mais malévolo e essa foi a forma que encontrou de extrair o melhor de Douglas. O ator disse ainda que durante anos, muitos dos que trabalhavam em Wall Street viam nele uma imagem a seguir, respondendo para terem atenção pois ele era o vilão do filme.
Já sobre Steven Soderbergh, com quem trabalhou em “Traffic”, “Solitary Man” e “Behind the Candelabria”, Douglas referiu a multidisciplinaridade do cineasta: “O Steven adora os atores e o processo. Quando filmamos o “Traffic”, que foi a minha introdução ao seu cinema, ele mostrou-me o meu camarim, disse para olhar bem para ele, e fez questão de dizer que eu não o ia ver muitas mais vezes (…) O Steven trabalha muito rápido. Além de realizador, é também cameraman, montador. Aquilo que filmamos num dia, e após chegarmos a casa, tomarmos banho e lermos a correspondência já foi montado entretanto por ele. Embora seja alguém muito reservado, é um homem encantador, daqueles com quem gostamos mesmo de trabalhar e apoiar”.
Falando bastante sobre alguns filmes que marcaram a sua carreira, Douglas recordou a primeira vez que foi a Cannes, junto com Jane Fonda, Jack Lemmon e o realizador James Bridges, para a estreia de “The China Syndrome“ (1979), um projeto onde atuava e produzia. O filme, sobre a investigação de um jornalista em torno de centrais nucleares, fê-lo temer essa forma de energia, mas hoje em dia mudou bastante a sua opinião e vê nela uma forma de combater a crise energética. Mais perigoso para ele é o trabalho que está a ser feito em torno da Inteligência Artificial, tremendo que, tal como aconteceu com as redes sociais, em que se legislou à pressa para combater alguns dos problemas que elas causaram, pode acontecer da mesma maneira com a IA, Já sobre as redes sociais, Douglas deixou indicações que não é um grande fã, afirmando que estas retiraram muita liberdade e “acabaram com os segredos”.
Abordando alguns dos filmes que marcaram a sua carreira, em especial aqueles em que se envolvia com mulheres de alguma maneira tóxicas, como “Fatal Attraction” e “Basic Instinct”, o ator lembrou que o primeiro foi observado inicialmente pelos franceses com pouco interesse, mas que se tornou um sucesso, e que o segundo, devido ao seu caracter erótico, abanou o Festival de Cannes em 1992: “A Sharon estava espetacular, isto num tempo em que ainda não tínhamos nos sets os coordenadores de intimidade”, brincou.

Como produtor, Michael Douglas relembrou várias pequenas histórias dos bastidores de “Voando sobre um ninho de cucos”, estando entre elas o facto de ter sido uma missão extremamente difícil o encontrar uma mulher que fizesse o papel da enfermeira Ratched, pois naqueles tempos, em 1978, os movimentos feministas estavam em alta e nenhuma atriz queria aceitar o papel de vilã. Já sobre o realizador desse filme, o falecido Milos Forman, Douglas relembrou que foram amigos até ao fim e, emocionando-se, soltou um “sinto muito a falta dele”.
Admitindo que gostaria de trabalhar pelo menos até aos 92 anos, idade em que o seu pai, Kirk Douglas, terminou a sua carreira de ator, Douglas deixou escapar que brevemente vamos vê-lo no cinema num filme francês de época a desempenhar o papel de Benjamin Franklin. Sobre o pai, o ator referiu que foi difícil sair da sua sombra, mas mais do que ser um ator, “quer ser um homem ao nível dele”.
O Festival de Cannes decorre até dia 27 de maio.

