Difícil falar em melhores ou piores filmes quando se faz a cobertura de um festival como o do Locarno, onde a experimentação, as narrativas pouco convencionais e uma apetência por trabalhos que cruzam diversas artes nos afastam de uma avaliação pura e dura, do branco e do preto, do 8 e do 80. Por isso mesmo, eis 12 obras exibidas no certame que nos impressionaram pelas suas características muito próprias, seja no campo da comercialidade, seja em terreno dos ensaios visuais.
Fairy Tale
O cineasta russo Alexander Sokurov, responsável pela tetralogia em torno dos efeitos corruptores do poder – “Moloch” (1999), “Taurus” (2000), “The Sun” (2004) e “Faust” (2009) –, levou a Locarno “Conto de Fadas” (Сказка), um trabalho carregado de CGI, mas sem presença da tecnologia Deep Fake, onde reúne num purgatório monocromático fantasmagórico nomes como os de Hitler, Estaline, Mussolini e Churchill, além de presenças especiais de Napoleão e Jesus Cristo. Uma “bomba” visual deste “cientista” do cinema que provavelmente saiu da Suíça sem prémios injustificadamente.

Nightsiren
Já com uma longa-metragem estreada em Roterdão, , “Spína” (Filthy), a eslovaca Tereza Nvotovà conquistou o júri da secção Cineastas do Presente na edição 75 do Festival de Locarno com “Nightsiren”, filme onde coloca uma mulher a regressar ao local onde cresceu para fechar contas com a sua infância problemática. Não é bem recebida pelos locais, que alegam que é uma bruxa. Um conto moderno poderoso e visualmente estonteante que procura dissipar mitos ultrapassados em torno da feminilidade, impondo ao espectador uma história que demonstra como as antigas superstições misóginas estão a ressurgir no mundo moderno.
Matter out of Place
Se se pode acusar Tarantino de algum embelezamento estético no tratamento da violência, que tantas vezes é confundido como glorificação, o mesmo se pode dizer deste “Matter out of Place” do veterano documentarista austríaco Nikolaus Geyrhalte, que levou para casa o prémio ambiental Pardo Verde WWF do Festival de Cinema de Locarno e do World Wildlife Fund (WWF).
O que fazemos com o lixo que produzimos? Mais que dar uma resposta, Geyrhalte acumula um grande números de frames cinematográficas de rara beleza, transformando o lixo num tema sensível e problemático, mas de inegável beleza sobre a sua lente. Apesar do enorme problema que a sobrepopulação e consumo de recursos impõe, Geyrhalte não deixa de mostrar algum fascínio na humanidade, que encontrou algumas formas para lidar com o problema, criando um novo negócio.
Nossa Senhora da Loja do Chinês
Uma das maiores surpresas do Festival de Locarno fala português (e chinês). Um conto sobre poder, fé e superstição, sempre com um cuidado estético que nos remete a cineastas como Pedro Costa ou Nicolas Winding Refn (via Wong Kar–wai ). E é um filme urbano, que mistura realismo e o Extra-Ordinário; o “mágico” não quantificável e palpável, mas que marca o seu peso no ambiente constantemente funesto. Uma pequena maravilha vinda da Geração 80 e uma primeira longa-metragem de Ery Claver que certamente fará sensação por onde quer que pare
Annie Cólere
Poder-se-á dizer que este é o filme com maiores possibilidades comerciais do certame, não só porque tem uma das atrizes francesas mais vigorosas dos últimos cinco anos, Laure Calamy, mas também um tema que ainda recentemente vimos em Berlim em moldes ainda mais exportáveis. Sim, “Annie Cólere” tem demasiadas semelhanças com “Call Jane”, de Phyllis Nagy, mudando a sua ação para França num período em que a luta pela legislação sobre o aborto ainda era intensa. O filme conquistou a audiência de Locarno, a par de “Last Dance”, mas tem um olhar mais proletário que burguês sobre o tema que “Call Jane”, conferindo-lhe unicidade.
Astrakan
Aqueles que têm pouca apetência a aceitar o miserabilismo no cinema poderão ter de fugir a 7 pés desta história de um rapaz que é recebido por uma família de acolhimento que o aceita pelos benefícios económicos inerentes a isso, mas a aspereza e negritude com que David Depesseville mostra esta história em plena ruralidade francesa conquistou o nosso coração. Um final estonteante que tanto lembra Tarkovsky como Malick na estética, poética e crueza, revoluciona todas as ideias pré-concebidas até então, mostrando o invisível e razão de tantos percalços do nosso protagonista ao longo da história.
Tengo sueños eléctricos
Depois de ser aclamada pelas curtas-metragens “Paul est là” (prémio Cinéfondation em Cannes – 2017) e “Lucia in Limbo” (selecionada para a Semana da Crítica de Cannes em 2019), a costarriquenha Valentina Maurel lançou em Locarno a sua primeira longa-metragem,”Tengo sueños eléctricos”, um coming-of-age retorcido que acompanha a dinâmica entre uma filha e o pai, onde medo, violência e empatia se fundem num objeto que prima pelo realismo, mas transcende o visível e entra no campo da psicologia. E que força e crueza tem o cinema de Valentina, que saiu de Locarno com a melhor realização.
Petites
Sim, Julie Lerat-Gersant vem do teatro e estreia-se no cinema com um daqueles filmes realistas à la irmãos Dardenne, mas o seu visual foge da crueza dos belgas ou da tradição do Kitchen sink realism. Ao invés, nota-se mais Andrea Arnold (Fish Tank), Céline Sciamma (Bande de Filles) e até Sean Baker (Florida Project) neste pequeno filme sobre uma jovem grávida de 4 meses que, impedida de abortar, é encerrada numa casa de acolhimento com outras jovens na mesma condição. Bla, bla, mais do mesmo, certamente, mas existe uma dinâmica muito própria e uma atenção muito clara em pequenos detalhes (uma camisa branca, uma barriga grávida) que contam as transformações das personagens e diversas histórias por si só.
Nação Valente
Podem dizer que é portuguesite, incluir um filme nacional na lista, mas Carlos Conceição arrisca e vai por caminhos pouco vistos no cinema português para nos falar dos fantasmas do colonialismo, usando para isso artifícios modernos que permitem até uma reviravolta dos diabos. E muitos vão certamente se queixar dessa reviravolta, mas mais que ela, o que conta são todos os passos desta história que mostra a nossa habitual apetência para a memória histórica, mas desta vez sem atropelar o espectador com contemplações, alegorias ou a tão evocada pasmaceira. Artificial, certamente, mas nunca em torno do seu próprio umbigo.
Gigi La Legge
Alessandro Comodin regressa em força a Locarno, local onde já foi feliz em 2011 com “L’estate de Giacomo” (tendo então vencido na categoria Cineastas do Presente), com uma comédia refrescante em terreno dramático onde acompanhamos um polícia muito especial (interpretado pelo tio do realizador), que poderia fazer perfeitamente parte do universo de “P’tit Quinquin”, a mini-série de Bruno Dumont.
O maior triunfo de Comodin é a forma como gere livremente tudo no seu filme: dos atores (não profissionais) ao texto (não havia guião), todo o filme é encenado com um timing cómico assinalável, levando-nos a uma pequena localidade da qual tantos desejam sair, mas por lá ficam a mostrar-nos a comicidade da vida. Delicioso e com algum potencial comercial.

Regra 34
Já com uma carreira digna de nota, entre o documentário e a ficção, onde se destacam “Histórias que Só Existem Quando Lembradas” e “Pendular”, a brasileira Julia Murat invadiu a competição principal do Festival de Locarno com “Regra 34”, um objeto provocante, não apenas por mostrar cenas sexuais que tocam nos extremos em torno da sua protagonista, Simone (Sol Miranda), mas porque embarca numa intensa discussão intelectual que, mais que dar respostas, levanta questões sobre temas como a violência doméstica, o balanço desequilibrado de poder na sociedade patriarcal capitalista, o consentimento, o feminismo interseccional, o racismo e até as novas plataformas de venda de “sexo” sobre a forma de tokens.
W
Visualmente estonteante, negro, triste e construído com raiva, a antiga vedeta pop finlandesa Anna Eriksson prossegue os seus registos visualmente impactantes com uma história alegórica a que a própria entrega o corpo ao manifesto.
Um trabalho perturbante, daqueles que constava no catálogo com o rótulo de “imagens extremamente sensíveis“, por isso cuidado, mas que mantém a linhagem do seu sonho sombrio de Marilyn Monroe, assinado em 2018, M, e que foi filmado em Portugal, mais concretamente na Nazaré.











