A vida de bastidadores dos artistas nunca parece muito recomendável – assimilando-se a excessos e inquietude. Mas nem sempre é o caso – como dois filmes muito diferentes demonstram.
MIMAROGLU
“Não podemos nos considerar contemporâneos. Na melhor das hipóteses somos restos do passado”.
O filme trata sobre o compositor de música concreta İlhan Mimaroğlu, turco emigrado em Nova Iorque no início dos anos 70. Ele traz consigo a esposa, saída de um mau relacionamento e desejosa de liberdade.
O codinome Robinson refere-se ao isolamento do músico – que logo no início assume ter cometido quatro suicídios – entre os quais o de enveredar pelos caminhos de Schaeffner e Stockhausen onde o público queria Mozart.
A via política não é negligenciável: nos anos 70 os idealismos ainda estavam bem vivos e Mimaroglu estava tão pouco interessado em vender a sua arte como produto que boicotou o próprio “marketing” da gravadora. Esta, ironicamente, era um braço da gigante Atlantic – selo que permitiu ao músico trabalhar e produzir grandes nomes do “jazz”, como Freddie Hubbard e Charles Mingus – para além do contribuir com a banda sonora de Satyricon, de Fellini.
Rebelde à moda antiga, chegou a criar uma “t-shirt” temática contra Mozart – não por ter problemas com a música dele, mas por existirem tantos novos compositores para divulgar e isso não ser possível porque o meio está tomado por compositores que morreram há 300 anos.
As considerações do compositor sobre a sua trajetória são algo melancólicas. Num momento ilustrativo, mencionar sentir-se como um peregrino no deserto. Ocasionalmente, um beduíno fala com ele, mas na maior parte do tempo percorre o caminho incomunicável. Essa foi uma das razões que o levou finalmente a fechar a Finnadar Records, que havia criado em 1971.
Nos últimos anos andou dedicado à fotografia. Esta serve para ilustrar aleatoriamente a história de Mimaroglu, quase toda em áudio; de resto imagens em câmera lenta, fotografias e outros registos abstratos marcam a imagem – até o ponto de perder qualquer hipótese de significado. Mas talvez não houvesse melhor maneira para ilustrar a música do artista.
Fica ainda uma frase lapidar do compositor que ainda melhor ficava para o século XXI: “Não podemos nos considerar contemporâneos. Na melhor das hipóteses somos restos do passado”.
VIERARPAD
Vieira da Silva e Arpad Szenes tiveram mais visibilidade. No caso português, a pintora, mesmo naturalizada francesa, é considerada uma das maiores artistas do país.
Vierarpad, de João Mário Grilo, inicia e encerra com as imagens de José Álvaro de Morais adquiridas pelo seu Ma Femme Chamada Bicho, de 1978. São cenas da vida quotidiana, centrada na cumplicidade. No caso de Vieirarpad, esta relação de afeto entre os dois artistas é mostrada através da distância. As cartas trocadas entre ambos, que no filme são apresentadas segundo três divisões cronológicas, documentam o processo de criação artística e a relação simbiótica entre ambos.
Um dos pontos mais importantes é o exílio no Rio de Janeiro – o qual, a despeito da relativa falta de adaptação da pintora, ao contrário do marido – deixou um importante legado não só para o Brasil como para a produção de Vieira da Silva.
João Mário Grilo e a sua equipa fogem do retrato institucional que paira implícito sobre o projeto através do dinamismo na escolha de imagens (utilizadas com efeito narrativo), sons e música – fundindo-se com os diferentes ângulos e movimentos com que os quadros são apresentados.

