A ideia de assumir uma carte blanche na cobertura da 55ª edição do KVIFF, Karlovy Vary International Film Festival (que decorre do dia 20-28), tornou-se clara diante do programa selecionado para a retrospetiva deste ano. Neste caso, inteiramente merecida pelo relevo da programação que faz tributo à The Film Fundation, a organização não lucrativa fundada por Martin Scorsese, em 1990 – juntamente com Francis Ford Coppola, George Lucas, Steven Spielberg, Stanley Kubrick entre outros cineastas da geração new Hollywood – e apostada em ‘salvar tesouros da cinematografia mundial’. De referir que da sua obra notável contam-se já mais de 900 filmes restaurados que abrem portas a novos horizontes e permitem recuperar, e repensar, títulos que arriscariam a perder-se.
Oportunidade então para explorar a fundo essa secção alterativa e escancarar as portas à redescoberta da memória do cinema. Recuperar assim o fôlego histórico do cinema do mundo a partir desta dezena de filmes que nos chegam de paragens tão diversas como o Sri Lanka, Taiwan, Marrocos, México, Costa do Marfim, passando, naturalmente, por uma forte e diversificada representação dos EUA. Sempre com a projeção de cópias restauradas, concretizadas com apoio dos laboratórios da Cineteca de Bolonha, UCLA, American Film Archive, bem como a The Film Foundation.
O programa vem representado pelo crítico egípcio e programador Joseph Fahim, que acompanhou todas as sessões com uma apresentação pessoal (ler entrevista). Ao longo das suas apresentações, foi-se instalando a noção, pelo menos, em relação ao quinteto de filmes americanos, de que se estaria longe do paraíso assumido pelo modelo americano de certa forma idealizado em Hollywood. De certa forma, logo desse o cinema clássico, cujo tema vem estilhaçado logo no título interrogatório do filme de Cukor “What Price Hollywood?” (1932). Seguramente, não contestado pelo contorno de rendição e ilusão propostos em “The Breaking Point” (1950), de Michael Curtiz. Robert Downey Sr. (o pai de Robert Downey Jr.), falecido no início de junho deste ano, propõe uma sátira muito ácida à sociedade americana capitalista, no explosivo “Putney Swope” (1969) – possivelmente, o filme mais arrebatador do programa – tendo como alvo o mundo branco da criatividade publicitária substituído por uma alternativa negra em tom de soul e total liberdade. Mas ainda um desencanto prolongado do mundo capitalista sublinhado a traço grosso por “The Queen of Diamonds“, de Nina Menkes, já no início dos anos 90. Isto sem esquecer, evidentemente, o fulgor interpretativo, no fio da navalha, desenhado pela dupla Gena Rowlands e Peter Falk em “A Woman Under the Influence“, no filme de John Cassavetes.
No entanto, esse desencanto (que por vezes, como aqui, encanta no cinema) acaba por servir as restantes propostas de outras paragens. Como o fantasma do colonialismo, presente no insólito e fascinante “La Femme au Couteau” (1969), do costa marfinense Timité Bassori, bem como pela inquietude realista de “Aylam, aylam” (1978), do marroquino El-Maanouni. Um ligar à parte para o trabalho monumental de Edward Yang, com o seu portentoso “Brighter Summer Day” (1991), a marcar o estilo do cinema made in Taiwan. Ou até o puro delírio de “The Treasure” (1973), de Lester James Peries, do Sri Lanka.
Talvez por isso não seja totalmente desadequado estender esse signo do desencanto aos restantes filmes, quanto mais não seja por se sentir a presença de um cinema pungente e libertador que resiste e, sobretudo, importa recuperar em todo o seu esplendor para lhe devolver a sua imortalidade.
Dez filmes capazes de mudar o cinema

What Price Hollywood?, de George Cukor (EUA, 1932)
A Meca do Cinema olha para si própria. Algo que acontece pela primeira vez, neste filme fascinante de George Cukor, ainda na primeira fase da sua carreira e alguns anos ainda antes de A Star is Born, de William Wellman (1937) – Cukor que haveria de assegurar a versão de 1954, com Judy Garland e James Mason.
Em What Price Hollywood? sente-se esse respirar narrativo, ainda durante o chamado Pre-Code era, no início do cinema sonoro, portanto antes da censura e o Código Hays (entraria em 1934), por forma a supervisionar os guiões de acordo com as indicações da censura.
O mais curioso nesta desmistificação do mito de Hollywood é precisamente esse olhar ainda virgem, portanto mais realista e duro da fabricação das vedetas, fruto da história original de Adela Rogers St. Johns que terá ainda participação (embora não creditada) no guião de Cukor de Assim Nasce Uma Estrela. Para além disso, esta é também uma viagem ao interior dos estúdios, com a inclusão de alguns planos de fundo documental.
Constance Bennett precede assim Judy Garland, tal como as outras intérpretes dos vários ‘a star is born’, aqui na transformação e ascensão de uma empregada de mesa de um restaurante frequentado por gente de Hollywood por um realizador alcoólico e desencantado (Lowell Sherman). Isto antes de conhecer o seu reverso e, claro, o preço a pagar pela fama. Um filme muito pouco visto (mesmo em Portugal).
Um trabalho de restauro concretizado pela Biblioteca do Congresso e The Film Foundation, com fundos provenientes da fundação Hobson/Lucas.
The Breaking Point, de Michael Curtiz (EUA, 1950)

Exemplo firme do cinema clássico de aventuras americano e da tremenda experiência de Michael Curtiz, mostrando nesta nova adaptação do romance de Hemingway, To Have and Have Not, de 1937, a exploração do ambiente sombrio e pessimista próprio do pós-guerra. Em todo o caso, uma aproximação mais próxima do original, do que a variante mais leve proposta de Howard Hawks, em 1944, ensaiando a dupla Humphrey Bogart e Lauren Bacall. Mesmo assim, The Breaking Point (em Portugal À Sombra do Mal) foi considerada pelo escritor como a melhor adaptação das suas obras.
Ao longo do filme sente-se a tensão permanente e o desespero de John Garfield, aqui talvez no papel mais relevante da sua carreira, marcado pelo trauma de antigo oficial da marinha de guerra e atormentado pelo dilema de manter a sua integridade e envolver-se em esquemas de contrabando. Nem mesmo diante dos constantes avanços de irresistível Patricia Neal, aqui no papel de uma pinup saltitando entre homens para sobreviver. No fundo, é essa capacidade de sobrevivência que domina todas as personagens do filme. Lá está, todos muito longe do paraíso.
É, de facto, inesquecível o elenco de secundários nesta trama muito bem urdida e servida por diálogos inesquecíveis, mesmo quando notam um ritmo próprio do trabalho de estúdio, a ilustrar uma América em transição, sedenta de luro, embora envolta em esquemas dúbios. Tal como o que tramou John Garfield diante as acusações movidas pelo McCarthismo e que acabariam por motivar um ataque cardíaco, aos 39 anos, menos de dois anos depois de concluir este filme. No fundo, é essa capacidade de sobrevivência que domina todas as personagens do filme. Lá está, longe do paraíso.
Destaca-se a suprema qualidade do restauro desta cópia exibida em 35mm, propriedade do arquivo da UCLA, graças ao trabalho de preservação da Warner em associação com a The Film Foundation e a Hollywood Foreign Press Association.

Queen of Diamonds, de Nina Menkes (EUA, 1991)
O filme de Nina Menkes poderá até ser encarado como um inesperado prolongamento da desilusão de Constance Bennett e até de John Garfield. Algo que não espanta, pois o desencanto é um elemento ferozmente inscrito na breve cinematografia que a americana Nina Menkes relatou ao longo de quatro décadas e apenas meia dúzia de filmes, onde essa visão de uma sociedade vazia combina com a condição feminina e a defesa do povo palestino.
Em Queen of Diamonds, Menkes encapsula todo o vazio nesta dama de ouros, uma soturna empregada de um casino de Las Vegas (a irmã Tinka Menkes, presença regular nos seus filmes), que cuida de um velho no seu tempo livre. O seu dia parece ser feito de movimentos maquinais, efetuados pelas suas mãos alongadas por enormes unhas vermelhas de silicone, como que para atrair sobre elas toda a atenção. A mesma indiferença reflete-se quando trata do idoso acamado e nem se altera quando ele falece. Um vazio que contrasta com planos ausentes, como o longo take de uma palmeira isolada a arder. Talvez ilustrando o fogo interior que a consome e não tolera a misoginia do seu vizinho do lado. Ou quando mostra as imagens do casamento, em que a noiva esconde as marcas da violência do noivo. No fundo, um canto surdo de resiliência que fala mais que mil palavras. Talvez por isso se diga que Queen of Diamonds poderá ser encarado como a versão americana de Jeanne Dielman.
O restauro do filme foi feito pela Academy Film Archive em parceria com The Film Foundation, com fundos provenientes da Fundação da família Hobson/Lucas.

Putney Swope, de Robert Downey Sr. (EUA, 1969)
Provavelmente, a mais saborosa das descobertas deste programa. Não só pela voragem trucidante da sátira ao meio publicitário americano movida por Robert Downey Sr. (naturalmente, o pai de Robert Downey Jr.) recentemente falecido, mas igualmente pelo arrojo de ideias e conceção que arrancou da audiência constantes exclamações de exaltação e euforia. Tudo começa com a eleição impossível de um negro para a presidência de uma agência de publicidade (pois praticamente todos só membros votaram nele pois seria a única ‘carta fora do baralho’). À frente dos destinos da companhia, Putney Swope rapidamente a transforma numa irreverente agência que cancela os contratos de publicidade a tabaco e a brinquedos bélicos. O seu lema poderia ser ‘black power’, mas estabiliza-se em truth & soul. É assim que vemos aparecer os clips publicitários mais hilariantes (as únicas imagens filmadas a cor). Um tremendo grito de revolta, embora oferecido com génio e ousadia. No fundo, uma sátira feroz sobre a exacerbação do pode branco, mas, ao mesmo tempo, sobre os perigos que rondam o seu próprio reverso. Um filme urgente, referência para um cinema que poucos ousam fazer.
Restauro concretizado pela Academy Film Archive e The Film Foundation, com apoio financeiro da Fundação da Família Hobson/Lucas.

A Woman Under the Influence, de John Cassavetes (EUA, 1974)
Que dizer sobre Uma Mulher Sob Influência, a não ser que se trata de um dos filmes mais perturbantes de John Cassavetes. Há muito para gostar deste filme sobre aquela linha estreita que divide a liberdade e o amor e entre o conformismo, a insegurança, o instinto maternal e a depressão, a loucura e a responsabilidade. Algo, tudo, combinado numa entrega (de mulher e atriz) que se torna difícil de superar.
Através dele só poderemos celebrar a insegurança de Mabel na medida em que Gena Rowlands nos oferece uma das suas personagens mais robustas e complexas. Razão pela qual foi nomeada para um óscar (tal como Cassavetes para o prémio de realização). Cassavetes absorve (e resolve) este novelo de emoções à flora da pele em cenas que temos de reter. Como (todas) as sequências à mesa, os almoços improvisados de spaghetti com Peter Falk e os seus camaradas das obras que supervisiona, os momentos de calma do casal, os stresses com todos. Tudo como diferentes níveis de emoção que se desenvolvem em confrontos onde é quase sempre o amor que está em causa. Um filme insuperável, com Gena Rowlands e John Cassavetes insuperáveis.
Provavelmente, o filme mais visto deste conjunto. Numa cópia de 35mm propriedade do arquivo da UCLA, com apoio à restauração da The Film Foundation e GUCCI.

A Brigther Summer Day, de Edward Yang (Taiwan, 1991)
Oportunidade para ver a versão integral (de quase quatro horas ou 237 minutos) do clássico de Edward Yang sobre as sementes de delinquência juvenil na sociedade de Taiwan. O filme situa-se em 1959, uma década depois da instalação de Mao Tse Tung no território chinês e empurrar a península de Taiwan para uma guerra fria, cada vez mais ao lado dos amigos americanos. É neste ambiente de tensão e transformação de crossover ocidental que emerge esta história real cujo título original se traduz por “O acidente mortal do rapaz da Rua Gullin”.
Este é também um título charneira da nova vaga do cinema made in Taiwan e que celebrizou os nomes de Hou Hsiao-hsien e Tsai Ming-liang. Curiosamente, Yang só absorveria a paixão pelo cinema depois de descobrir Aguirre, de Herzog, e, depois, o cinema de Antonioni. Infelizmente, deixar-nos-ia cedo demais, em 2007, embora com meia-dúzia de grandes filmes muito influentes. Uma viagem imensa que é imperdoável não fazer.
Trabalho de restauro concretizado em 2009 pelo The Film Foundation na Cineteca di Bologna/L’Immagine Ritrovata em associação com a Edward Yang Estate e diversos fundos privados.

El Fantasma del Conviento, de Fernando de Fuentes (México, 1934)
Interessante incursão do cinema mexicano do início dos anos 30 no género do terror, isto apenas escassos anos depois dos primeiros clássicos americanos. Sobretudo pelo trabalho e talento de um cineasta muito ligado à inovação. A Fernando de Fuentes pode associar-se a criação de géneros, como o melodrama, o filme histórico e, neste caso, o terror. Isto além da comédia ranchera, tipicamente mexicana. Mas há mais, Fuentes foi o primeiro mexicano a filmar em cor.
Sobre El Fantasma del Conviento, surpreende o uso de certos movimentos de câmara, bem como à exploração, algo surpreendente, de insinuações eróticas, como sucede neste filme, com uma suposta ménage a trois.
Assim se supera, com alguma bonomia, alguma simplicidade narrativa nesta história sobre as atribulações sobrenaturais de um casal e um amigo que se albergam num convento para escapar ao mau tempo. Mas uma ótima surpresa.
Restauro a cargo da UCLA e The Film Foundation a partir do nitrato original e do negativo. Um trabalho concretizado com fundos da fundação da família Hobson/Lucas em colaboração com a Permanencia Voluntária e Filmoteca da UNAM.

Aylam, aylam, de Ahmed El-Maanouni (Marrocos, 1978)
Do cineasta marroquino autor do musical icónico Trances (1981), recupera-se o seu primeiro filme, documentando a vida rural de um jovem que deseja partir e procurar o sonho (e melhor futuro) na capital francesa. Entre a serenidade que tanto capta a pacatez rural, como a pulsão da juventude, percebemos como se extremam as forças do realismo tribal e uma vontade que grita por modernidade. Por isso mesmo, como salientou Joseph Fahim, na sua apresentação, Aylam, aylam poderá ser encarado como um filme percussor da Primavera árabe.
Um filme tornado inacessível durante décadas que acaba por ver recuperada uma vida nova pelo trabalho de restauro garantido pela The Film Foundation’s World Cinema Project em colaboração com o próprio Ahmed El-Maanouni. A restauração foi efetuada pela Cineteca di Bologna/L’Immagine Ritrovata, com um scan em 4k pelos laboratórios Eclair.

La Femme au Couteau, de Timité Bassori (Costa do Marfim, 1969)
Neste filme – talvez o mais conhecido de Timité Bassori – regista-se um percurso talvez inverso a Aylam, aylam, em que é um jovem com estudos que regressa à Costa do Marfim, depois dos seus estudos em França. É precisamente esse choque que haverá de provocar um trauma psicológico entre o seu modernismo e as tradições locais, sob a forma de uma visão de uma mulher com uma faca que lhe aparece, primeiro no duche, no que promete ser uma saborosa piscadela de olho a Hitchcock. No entanto, em vez do terror psicológico, temos aqui a exploração de um terror que se poderá expressar em contornos políticos, mas que não recusa interferências sexuais algo arrojadas para aquela geografia.
Restauro muito recente, de 2019, pela Cineteca di Bologna/L’Immagine Ritrovata e a The Film Foundation. Integrada no African Film Heritage Project, criado pela The Film Foundation, FEPACI e UNESCO, tendo em vista a localização, preservação e disseminação do cinema africano.

Nidhanaya/The Treasure, de Lester James Peries (Sri Lanka, 1973)
Por fim, mas nunca em último, um insólito projeto do Sri Lanka, levado a cabo pelo seu autor mais reconhecido, Lester James Peries (falecido em 2018). Informa Joseph Fahim, que se trata talvez do seu filme “mais negro e controverso”. São bem evidentes os méritos estéticos e técnicos que relatam a adaptação de um conto sobre um tesouro que só se materializa pelo sacrifício de uma virgem. Um filme com um pé no desígnio amoroso e outro na evocação espiritual, tendo por perto a vincada estrutura de classe e a herança do colonialismo no antigo Ceilão, onde Portugal teve a sua presença – não é por acaso que temos algumas personagens com o apelido de Silva.
Trabalho de restauro de 2013 pela The Film Foundation World Project e Cineteca di Bologna/L’Immagine Ritrovata. Em associação com Lester James Peries e Sumitra Peries, o National Film Archive da India e o National Film Corporation do Sri Lanka.
Filmes apresentados:
Aylam, aylam, de Ahmed El-Maanouni (Marrocos, 1978)
The Breaking Point, de Michael Curtiz (EUA, 1950)
A Brigther Summer Day, de Edward Yang (Taiwan, 1991)
El Fantasma del Conviento, de Fernando de Fuentes (México, 1934)
La Femme au Couteau, de Timité Bassori (Costa do Marfim, 1969)
Nidhanaya/The Treasure, de Lester James Peries (Sri Lanka, 1973)
Putney Swope, de Robert Downey Sr. (EUA, 1969)
Queen of Diamonds, de Nina Menkes (EUA, 1991)
What Price Hollywood?, de Grorge Cukor (EUA, 1932)
A Woman Under the Influence, de John Cassavetes (EUA, 1974)

