Oficialmente, foram Adam Driver e Marion Cotillard a abrir a 74ª edição do Festival de Cannes, mas antes da cerimónia de abertura no Teatro Lumière, Mark Cousins apresentou no Debussy o último episódio de The Story of Film, dedicado à história do cinema mais recente, apresentando “uma nova geração” de cineastas que expandiram as fronteiras do cinema.
Uma viagem que praticamente começa com o Joker a descer a escadaria em Gotham City (filmado em Nova Iorque), passa pelas comédias (de “Booksmart” ao cinema da Índia), entra no terror (Babadook; It Follows; Midsommar) e olha para o cinema documental também com questões éticas a serem analisadas (The Act of Killing; The Look of Silence”.)
Subindo ao palco do Debussy, Cousins agradeceu a presença no festival, não se alongando em muitas explicações sobre o seu trabalho, até porque, como disse, o filme tinha 2h40 e o público poderia achar demais uma intervenção prolongada.

Chegados às 19h25, chegou então a cerimónia de abertura, noite de gala no Lumière. Aí, Jodie Foster foi agraciada com a Palma de Ouro pela carreira, prémio entregue em mãos pelo espanhol Pedro Almodóvar. Foram os dois, juntamente com Bong Joon ho (vencedor da última Palma de Ouro por “Parasitas“) e o presidente do júri da corrida à Palma de Ouro, Spike Lee, que deram oficialmente abertura ao festival, em línguas diferentes.
Depois sim veio “Annette”, que muitos definem como uma escolha “surreal” para uma abertura, um “OFNI” (Objeto Fílmico Não Identificado) que pôs logo os anglo-saxónicos e o seu puritanismo genético a falar da cena em que Adam Driver executa sexo oral a Marion Cotillard grávida, enquanto canta. Se Cousins na sua “nova geração” falou bastante de esticar os limites, que dizer de “Annette”, que não os estica propriamente, mas contorce e sacode, começando num registo meta antes de avançar para uma história de amor que termina mal.
Filme difícil, mas arrojado, especialmente na criação de segmentos musicais que fogem de qualquer ensaio académico ou habitual no género. Se superarem o chamado “vale da estranheza”, especialmente na apresentação estética da pequena Annette, o novo filme de Carax revela ser uma lufada de ar fresco que não se limita a arejar a nossa mente, mas a carregar-nos por um mar de incertezas e imprevisibilidade.
Um belo arranque para Cannes, que hoje tem nos novos filmes de Nadav Lapid, François Ozon e a estreia de Charlotte Gainsburg na realização alguns dos seus pontos mais altos, nunca esquecendo a abertura das barras paralelas: Quinzena dos Realizadores e Semana da Crítica.

