Cannes e os beijos da discórdia

(Fotos: Divulgação)

O beijo sempre foi um elemento digno da memória cinematográfica, com muitos deles a marcarem a História do cinema, não apenas como atos de paixão e amor, mas igualmente de desafio.

Talvez o beijo mais memorável do Festival de Cannes na última década tenha sido o de Ryan Gosling a Nicolas Winding Refn durante um photoshoot nos tempos de “Drive” (2011), um momento captado e replicado pela imprensa mundial.

A maior parte das reações da imprensa seguiram a linha do humor e do fait divers corriqueiro vindo do Festival de Cinema mais importante do mundo, algo muito diferente do que aconteceu com a atriz iraniana Leila Hatami, que fazia parte do júri do 67º Festival de Cannes e que à sua chegada ao certame foi confrontada com um beijo no rosto pelo presidente do evento, Gilles Jacob, na época com 83 anos.

Um enorme escândalo nasceu no Irão, com o ministro da Cultura local, Hossein Noushabadi, a caracterizar o comportamento da atriz como uma “afronta”, relembrando que “a mulher iraniana é o símbolo da castidade e inocência” e a simples presença de Hatami no festival já era “inapropriada” e “não alinhada com as crenças religiosas do país”.

Famosa por “Uma Separação” (2011), de Asghar Farhadi, Hatami foi obrigada a pedir desculpas públicas, o mesmo acontecendo com Gilles Jacob, que assumiu o erro e apontou para si todas as responsabilidades. “Fui eu quem beijou a Madame Hatami. Naquele momento, ela representava para mim todo o cinema iraniano… Esta controvérsia baseada num gesto ocidental comum não tem fundamento“.

Mais tarde, no seu Dictionnaire Amoureux du Festival de Cannes (2016), Jacob voltou a pegar no tema, mencionando que durante os 15 dias em que a atriz esteve no festival, os pedidos de desculpa sucederam-se. Numa carta escrita pela própria, ela pediu a todos para desculparem o ato do presidente do festival, mencionando a sua idade avançada para o “esquecimento das regras”.

Não foi a primeira vez que um iraniano passou por problemas no seu país depois da visita a Cannes. Em 1997, quando triunfou com “O Sabor da Cereja”, semelhante gesto aconteceu entre Abbas Kiarostami, vencedor da Palma de Ouro, e Catherine Deneuve. Esta abraçou-o, mas isso aumentou ainda mais a polémica em torno do realizador no Irão, que entrou “ilegalmente” com o filme na competição.

Inicialmente, as autoridades iranianas descobriram que “O Sabor da Cereja” não foi  apresentado no Festival de Teerão (passagem obrigatória antes de qualquer distribuição no exterior). Depois, a temática do filme – um homem cuja liberdade final é cometer suicídio – não estava de acordo com a “moralidade islâmica“, nem passou pela censura. O filme fica bloqueado até que o Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano intervenha a favor do cineasta, considerando que seria lamentável ver o Irão dar um exemplo de censura dessa forma.

Derradeiramente, a fita conquista a Palma a meias com “A Enguia” de Shohei Imamura, mas ninguém fala dele no Irão em época de eleições. As únicas reações ao festival foram causadas pelo gesto de Catherine Deneuve perante Kiarostami ao entregar a Palma de Ouro.

Como nem o filme nem o festival foram discutidos no país, muitos iranianos questionaram se fui à França apenas para beijar uma mulher na frente das câmaras! “, disse o realizador.

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