Vários filmes de cariz religioso e espiritual foram exibidos e premiados durante as várias décadas do Festival de Cannes, mas Deus e a Igreja foram também temas muitas vezes controversos na Croisette.
Se o polémico “A Última Tentação de Cristo” escolheu Veneza para a sua estreia europeia, muitos outros filmes “complexos” para a Igreja Católica invadiram Cannes anos antes. Na verdade, são várias as histórias de filmes exibidos no festival que “moeram” os nervos a sua santidade, com o Observatório Romano, jornal oficial da cidade-estado, a servir de base para as críticas.
O início dos anos 60 deu o mote com dois filmes – entretanto transformados em clássicos absolutos – a marcarem a difícil relação de Cannes com o Vaticano.
Primeiro “La Dolce Vita” , indiscutivelmente o filme mais celebrado do lendário Federico Fellini, que logo nos seus minutos iniciais ofendeu profundamente a Igreja Católica, que se opôs à simbólica Segunda Vinda de Cristo, quando um helicóptero balança uma estátua sobre Roma onde belas mulheres meio despidas acenam dos telhados.
Na verdade, a polémica em relação ao filme começou ainda antes dele chegar a Cannes. Na sua estreia italiana, ouviram-se gritos contra o realizador de “libertinagem”, “comunista” e “moralmente inaceitável“. Várias cenas são consideradas blasfémicas e o próprio Papa queria condenar Anita Ekberg.

O Vaticano ameaça mesmo de excomunhão qualquer cristão que vá ver o filme e quando “La Dolce Vita” chega a Cannes desencadeia várias reações cegas e absurdas, com a audiência a assobiar o filme pela “vulgaridade, decadência e falta de interesse inteletual”. Críticas que esbarraram com o seu triunfo, estando reservado para o ano seguinte outra polémica, também na corrida à Palma de Ouro.
Em 1961, Cannes exibe e distingue “Viridiana” de Luis Buñuel, história de uma noviça cuja madre superior lhe indica que deve visitar o seu tio, Don Jaime, o único parente vivo que ainda tem, antes de fazer os seus votos. Muitos definiram o filme como uma violenta “chapada” no clero, tendo o Vaticano se insurgido contra ele devido a imagens “ímpias e blasfemas”, como a caricatura da Última Ceia ou uma faca em forma de crucifixo.

Na ausência do cineasta em Cannes, o diretor do instituto de cinema espanhol, José Muñoz Fontán, sobe efusivamente ao palco para recolher o troféu. Uma alegria que durou apenas dois dias, já que o escândalo chega via Vaticano com ramificações na Espanha de Franco. A licença de distribuição é retirada ao filme, Muñoz é despedido e a censura é posta em prática. Em Itália, a situação não é melhor, pois o promotor público ataca Buñuel no tribunal, conseguindo uma condenação à prisão se ele passar por Itália. Sobre tudo isto, Buñuel comentou: “Não me propus a fazer algo blasfemo, mas o Papa João XXIII é um juiz melhor para essas coisas do que eu.”
Apesar do burburinho criado, não foi o único filme polémico desse ano, com “Madre Joana dos Anjos” de Jerzy Kawalerowicz a deixar também o seu selo de controvérsia e condenação por parte do Vaticano. Ambientado num convento da Polónia do século XVII, no filme seguimos um padre que se dirige para o local para lidar com eventuais possessões demoníacas, encontrando por lá um mundo de tentações.

Jerzy Kawalerowicz faria definitivamente as pazes com o Vaticano na passagem do milénio, através do filme “Quo Vadis”, baseado na obra de Henryk Sienkiewicz. Sobre este filme, escreveu o papa João Paulo II na época: “Desejo expressar o meu mais vivo reconhecimento a quantos, nesta tarde, tornaram possível a estreia de uma obra, sob diversos aspectos, muito significativa. Em primeiro lugar felicito o cineasta, Sr. Jerzy Kawalerowicz, e o produtor, Sr. Miroslaw Slowinski, por terem realizado um trabalho de tão amplo horizonte, que demonstra a atualidade do romance de Henryk Sienkiewicz, escrito há mais de um século e que em 1905 lhe valeu o Prémio Nobel.”
A relação agora do festival com o santo pontífice e o Vaticano está bem mais cordial, tendo mesmo em 2018 Wim Wenders exibido na Croisette o seu documentário sobre o Papa Francisco.
Ámen.

