A boa coordenação na comunicação do Festival de Cannes “esconde” rivalidades históricas entre as diversas secções, em especial no que diz respeito aos eventos paralelos ao certame, onde se inclui a Semana da Crítica e a Quinzena dos Realizadores, com a Un Certain Regard a ser criada diretamente nos anos 70 para concorrer com estas duas, que estavam de certa maneira a retirar o brilho ao evento.
Pelo meio temos ainda um elemento que está ligado a todo o festival, o Marché du Film, que ao longo das décadas foi cimentando a sua posição, trazendo para Cannes uma atenção mediática e público/compradores que dinamizaram o evento a transformar-se naquilo que hoje apelidamos de o maior festival de cinema do mundo.
O Marché du Film foi o primeiro a aparecer, em 1959, ganhando dinâmica primeiro nos anos 60 como uma alternativa, isso mesmo, ao Festival. Na verdade, na entrada da década sucediam-se os ataques à programação antiquada, pouco arrojada, comprometida e dependente da submissão dos institutos de cinema de cada país na competição do Festival de Cannes. Como não se queria irritar ninguém, era frequente os países pressionarem e pedirem a retirada de filmes incómodos.
Uma nova forma de pensar o cinema, um movimento de crítica cinematográfica impulsionado por Bazin e pela Cahiers du Cinema, inaugurada em 1951, levaram a uma maior contestação das escolhas de Cannes. François Truffaut, outro nome dessa linha de pensamento, perdeu mesmo a acreditação no certame em 1958 por ter criticado – na Arts – o Festival de Cannes, o seu presidente e a sua programação. Um atrito que se resolveu rapidamente em 1959, quando o comité dos filmes franceses escolheu o seu primeiro filme, “Les Quatre Cents Coups” (Os Quatrocentos Golpespt; Os Incompreendidosbr), para o festival, tendo Jean Cocteau, presidente do júri, reservado para ele o Prémio de Mise-en-scène.

Adiante na História… na primavera de 1961, durante o 14º Festival Internacional de Cinema de Cannes, por iniciativa da Association Française de la Critique de Cinéma, o evento exibe com bastante sucesso “The Connection” de Shirley Clarke (EUA), o que leva Robert Favre le Bret, Diretor Artístico do Festival de Cannes, a repetir a experiência.
Nascia a La Semaine de La Critique, independente do Festival de Cannes, apenas comunicando com ele. A comissão de seleção de filmes era fundamentalmente constituída por críticos franceses, mas também alguns internacionais que viviam no país. Oito obras foram escolhidas, entre elas filmes de Denys Arcand (Seul ou avec d’autres) e Albert & David Maysles (Showman).
Nos anos que se seguiram, a Semana da Crítica abriu a porta internacional à Nova Vaga Checa (Something Different, 1963, de Vera Chytilová), ou ao “novo” cinema alemão (The Parallel Street, 1962, de Ferdinand Khittl), iraniano (Nights of the Hunchback, 1965, de Farrokh Ghafari), e norte-americano (Goldstein, 1964, de Philip Kaufman). Bernardo Bertolucci (Antes da Revolução), Jacques Rozier (Adieu Philippine) e Jerzy Skolimowski (Walkover) passaram por lá, dando uma nova vida a Cannes e também uma nova força ao próprio Marché. Na verdade, podemos dizer que a Semana da Crítica uniu o Festival Internacional de Cannes ao famoso mercado.

Se a nascença, convivência e colaboração da Semana da Crítica com o certame principal foi saudável, o da “Cinéma en Liberté” – consequência imediata do Maio de 68 que interrompeu o festival nesse ano – não foi assim tão pacífica, estando na mente daquela que seria conhecida mais tarde como a Quinzena dos Realizadores desafiar e concorrer com o evento principal.
No centro do pensamento da Quinzena estavam os autores, os realizadores e não os produtores, as comissões nacionais que submetiam filmes ou os críticos. Essa postura de competição direta com o Festival de Cannes, carregado de militância ideológica fecundada pela política do “autor”, mostrou-se logo na primeira edição, com 70 filmes exibidos.

Progressivamente, a Quinzena foi conquistando o espaço, especialmente na vertente de cinema internacional, pois não dependendo de 1ªs ou 2ªs obras como a Semana da Crítica, e contactando diretamente com os realizadores/autores, conseguiu apresentar na sua programação inicial nomes como os brasileiros Glauber Rocha (Barravento) e Júlio Bressane (Cara a Cara); a canadiana Anne-Claire Poirier (De Mere en Fille); Nagisa Oshima (O Enforcamento); Roger Corman (The Trip); além dos franceses Philippe Garrel (Le Lit de la Vierge) e André Techiné (Pauline S’en Va).
A força da Quinzena foi crescendo até que, em 1972, para combater a perda de força da sua programação em relação às barras paralelas, apesar de simultaneamente existir um cada vez maior interesse e visitas ao certame, Robert Le Bret decide acabar com a prática de permitir que qualquer país com uma indústria prolífica pudesse escolher um filme que seria assim automaticamente aceite. Le Bret transforma-se em presidente da comissão de seleção de filmes e Maurice Bessy é escolhido para diretor do festival, dando assim ao evento um formato mais semelhante ao que tem hoje.
Em 1978, Gilles Jacob assume a liderança do festival e funde três secções numa só, a Un Certain Regard, criando o prémio Caméra D’Or, que distingue um primeiro filme transversalmente a todo o certame. O primeiro vencedor foi “Alambrista!“, de Robert M. Young.
Existe, ainda hoje, uma forte competição entre a Un Certain Regard e a Quinzena dos Realizadores, sendo o caso de “Sexo, Mentiras e Vídeo” o mais marcante. Cannes ofereceu a Un Certain Regard ao filme. Harvey Weinstein negou a pretensão e disse que nesses moldes preferia que o filme fosse exibido na Quinzena dos Realizadores. Cannes cede e a velocidade estratosférica coloca a primeira obra de um novato na competição à Palma de Ouro. O resto é o que sabemos. O filme conquista de forma surpreendente a Palma de Ouro, transformando Steven Soderbergh no mais jovem realizador (na altura com 26 anos) a conquistar a distinção.
Apesar das rivalidades que prosseguem até hoje, todas estas “marcas” construíram e cimentaram aquilo que hoje definimos como “filme de Cannes”, expressão que se tornou uma distinção por si só, além mesmo do chamado selo da “Seleção Oficial“. Uma conquista não só artística, mas também comercial, já que impulsiona muito o mercado, especialmente o de cinema independente, como o que Harvey Weinstein e a sua Miramax vendiam naqueles anos.

