Mare of Easttown: uma série sem maquilhagem

(Fotos: Divulgação)

Kate Winslet é Mare Sheedan, a protagonista da minissérie HBO, “Mare of Easttown”. O cenário é Eastttown, uma cidade pequena situada na Pensilvânia e Mare é a detetive responsável por um conjunto de misteriosos desaparecimentos e crimes. Mas além da turbulenta vida profissional, também a vida pessoal da agente da autoridade é caótica.

Vivemos numa época em que é difícil criar algo novo. A história desta série HBO já a vimos “n” vezes, contada em várias línguas, em vários formatos, em vários canais ou plataformas de streaming. A fórmula base – a promiscuidade entre a vida profissional e pessoal – não é novidade no pequeno ecrã. Basta, por exemplo, lembrar a complexa “Marcella” (disponível na Netflix).

Com tantas semelhanças a apontar, porque é que “Mare of Easttown” vale a pena ser vista? A diferença está nos detalhes e o maior deles está na sua protagonista, Mare – uma figura peculiar, não linear que oscila entre um ser humano extraordinário e, ao mesmo tempo, com características e opções que, apesar de justificáveis, são detestáveis.

Mare of Easttown” explora o lado mais negro de uma comunidade pequena e é um reflexo de como o conceito de família e as tragédias passadas podem definir o presente e ditar o futuro.

Quem gosta de policiais – sejam livros, séries ou filmes, identifica neste projeto HBO todas as personagens clichés. Também a vida comunitária numa cidade pequena é aquilo que se espera: todos se conhecem (ou pensam que conhecem), povoada por famílias disfuncionais que tentam existir sem que as feridas do passado sejam abertas. Segredos guardados em armários mal fechados…

Cada personagem tem uma voz única e a série consegue combinar tons sombrios com o humor bem colocado. Merecem destaque, a mãe da detetive, Helen (Jean Smart), que esconde gelados em sacos de vegetais congelados e a forma como Mare questiona irreverentemente o diácono Mark Burton (James McArdle) sobre a sua relação com Cristo.

Para ajudar na investigação, Mare recebe a colaboração de Colin Zabel (Evan Peters) a ao desvendarem o assassinato de Erin McMenamin (Cailey Spaeny) descobrem que algumas das pessoas aparentemente inócuas da cidade têm um lado negro e ao longo da investigação, a série cumpre os critérios chave de um bom mistério: surpresas inesperadas e reviravoltas constantes na história que parecem desmascarar a maioria das teorias, dando lugar a outras.

Por muito que se fale da história, dos detalhes ou das opções argumentativas, a série, criada por Brad Ingelsby e realizada por Craig Zobel é 100% Kate Winslet. Mare Sheehan é uma das personagens mais difíceis de criar empatia nesta série. É uma mulher sofrida, cansada, rabugenta, sem escrúpulos, pessimista, emocionalmente indisponível e, honestamente, a última pessoa com quem gostaríamos de fazer amizade. Não é boa mãe, é uma filha difícil, fria e quase indiferente com os seus parceiros românticos, o seu relacionamento mais consistente e confiável é com sua máquina de tabaco, no entanto, apesar de todos estes defeitos, é impossível não gostar de Mare.

Kate Winslet também assume o papel de produtora e o seu envolvimento no projeto é digno de nota: ela passou vários meses a acompanhar o trabalho dos policias da Pensilvânia, sobretudo com uma detetive, Christine Bleiler, do condado de Chester, na qual se inspirou para dar vida à personagem e que convidou para ser uma espécie de consultora da série.

Esperamos que a próxima época dos prémios não ignore o trabalho de Kate. Merece todas as nomeações pois o trabalho desta experiente ctriz é absolutamente notável. Todas as características da personalidade da personagem são alicerçadas com um sotaque impecável do condado de Delaware, com um guarda roupa singelo e peculiar e com uma não maquilhagem e um cabelo selvagem. Todos estes detalhes foram opções da própria atriz, contrariando mesmo as orientações e pareceres da HBO. Este trabalho ciclópico de Winslet criou uma personagem que, dificilmente vamos esquecer e que certamente gostaríamos de voltar a encontrar!

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