De Sica e Zavattini operam o milagre do neorrealismo italiano

(Fotos: Divulgação)

Vai-se tornando familiar a programação (verdadeiramente) alternativa (e não só) em salas como o Nimas (ou outras happy few em Lisboa e não só), fazendo-nos lembrar que o cinema não é só o pipeline que as grandes majors americanas vão despejando no mercado (hoje em dia cada vez mais desviado para o canal bem mais aberto do streaming), mas sobretudo o que o seu século de história nos convida a revisitar ou a descobrir em tela grande e em cópias restauradas de grande qualidade.

É o que acontece com o ciclo dos Grandes Mestres do Cinema Italiano, cuja primeira parte se inicia hoje dia 17 de Junho, precisamente com o trio de filmes que de Vittorio De Sica fez com Cesare Zavattini, considerados marcos fundamentais do movimento neorrealista italiano: “Ladrões de Bicicletas“, de 1948, e “Milagre de Milão“, de 1950, ambos alvos de um restauro em 4K pela Cineteca de Bolonha e o laboratório do L’Immagine Ritrovata. Além de Umberto D, a ser exibido em sessões especiais, a 26 de junho e 1 de julho. No mês de Julho será a vez do encontro com Valerio Zurlini, um cineasta que se afirma no final dos anos 50 e de que veremos dois dos seus filmes mais significativos: “A Rapariga da Mala(1959) e “Outono Escaldante(1972), sugerindo até uma ponte para o ciclo de Cinema Italiano Lado B proposto pela Cinemateca Portuguesa para o mês de Julho, centrado nos anos 50 e 70.

A ideia de (re)descobrir o cinema de De Sica nas condições ótimas de uma sala de cinema pode significar um prazer que seguir. Até porque nos remete também para um encontro saboroso com a narrativa moral de Cesare Zavattini, talvez o grande autor desse renascimento do cinema, empenhada em dar visibilidade aos problemas das classes desprivilegiadas.

Ladrões de Bicicletas

Em “Ladrões de Bicicletas” acercamo-nos de Antonio (encarnado pelo operário e actor amador Lamberto Maggiorani) numa deambulação pela cidade de Roma, já a esboçar o milagre italiano da reconstrução, naquele que será um fresco absoluto da poesia da realidade, narrando o dilema deste homem comum, na companhia do filho Bruno (Enzo Staiola) a quem foi roubada a sua ferramenta de trabalho, no caso, a bicicleta que teve de recuperar da loja de penhores para poder assegurar um trabalho que lhe faltava há dois anos. De Sica é mestre na composição desta história que atinge mesmo os melhores momentos quando é surpreendida pelas forças da natureza, seja quando a chuva que surpreende pai e filho e os isola ainda mais na indiferença da cidade, ou quando agrupa junto deles um grupo de sacerdotes alemães; mas também por ocorrências inesperadas, como a passagem de ciclistas diante de ambos sentados na berma da estrada – no fundo, acasos que conferem ao filme o que poderemos considerar como a poesia do realismo, acabando por se integrar de forma brilhante com o projecto de mise en scène do próprio De Sica. Elementos que apenas acentuam a brilhante sequência final em que o pai se atormenta ao equacionar a possibilidade de cometer um crime, roubando uma outra bicicleta, para poder trabalhar, configurando um dos melhores exemplos do monólogo interior do cinema clássico.

Milagre de Milão“,

Em “Milagre de Milão“, a dupla De Sica-Zavattini ganha um claro avanço narrativo em torno de uma fusão da fantasia ao extrapolar os limites desse quotidiano realista, na adaptação de um romance do próprio Zavattini, dividido em dois tempos. Aliás o filme começa introduz-nos na ficção com um muito adequado era uma vez… Não só pela introdução da personagem Totó (Francesco Golisano) a assumir uma certa paternidade  com Charles Chaplin ou Buster Keaton, mesmo sem perder a consciência de classe, ou mesmo com Fellini numa certa redição à reverie (quiçá até próxima dos ambientes oníricos de Minnelli), num carrossel de celebração com oferta de desejos. Mesmo que seja para apenas cantar “Tudo o que pedimos é um par de sapatos”, porque “é tudo o que precisamos para crer no amanhã”. Puro Zavattini.

Umberto D

Por fim, “Umberto D“, desta vez num guião sem a colaboração de De Sica, naquele filme que marcará talvez o final do neorrealismo. Desta vez, debruçando-se sobre a realidade dos pensionistas, que se afirmam no início com uma manifestação de protesto, sublinhado pela relativização do apelido D. Um filme tão singelo quando a longa e tão comentada sequência em que a câmara descreve o quotidiano da empregadita, começa por fazer café, enxota as formigas com papel a arder e acaba por revelar aquilo a sua barriga de grávida que André Bazin classificou como “revelador da miséria do mundo”. Antes da câmara se ocupar do dia de Umberto a germinar a ideia do seu próprio fim. E que fim.

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