“Anora” triunfa nos Oscars®

(Fotos: Divulgação)

Numa noite de festa para o audiovisual de língua portuguesa, com a estatueta de Melhor Filme Internacional dada ao Brasil por Ainda Estou Aqui, o poema indie de Sean Baker sobre a rotina de quem ganha a vida às custas do sexo consagrou-se como “O” vencedor dos Oscars 2025: Anora saiu do Dolby Theatre com cinco prémios. Consagrado pelo último Festival de Cannes com a Palma de Ouro, a comédia de tons amargos arrebatou para si, sob aplausos, o prémio de Melhor Filme de 2025, logo após assegurar a estatueta de Melhor Atriz para Mikey Madison. O cineasta por trás da sua exuberante narrativa, Sean Baker, venceu ainda em outras três categorias: Melhor Realização, Argumento Original e Montagem (ele monta seus próprios filmes).

Nascido em Summit, New Jersey, há 54 anos, Baker chegou a trabalhar como projecionista antes de se lançar no comando de sets de filmagem, em 2000, quando se estreou com Four Letter Words. O selo de autoral que carrega vem da sua linguagem nevrálgica, de planos-sequência trepidantes, e de uma recorrente imersão no dia a dia dos profissionais do sexo. Abordou a prostituição em Projeto Flórida (uma sensação da Quinzena de Cineastas de Cannes em 2017) e falou de uma estrela pornográfica na busca por um emprego em Red Rocket (2021). Agora, com a sua mais recente produção, ele faz de uma stripper de 23 anos, Anora Mikheeva (Ani para os íntimos… e clientes), a sua personagem central. A atuação de Mikey torna Ani uma figura tridimensional nos afetos, nas carências e na coragem de encerar o machismo.  

Mikey Madison leva o Oscar de Melhor Atriz pelo papel de Anora

Antes de Sean Baker subir ao palco na Meca do entretenimento, o cinema brasileiro comemorou o seu primeiro Oscar em 80 anos de tentativas (sempre frustradas) de ganhar, ao ver Walter Salles subir ao palco do Dolby Theatre, na Califórnia, por “Ainda Estou Aqui”. Fenómeno popular, quer no Brasil, quer em Portugal, a produção de Maria Carlota Bruno e Rodrigo Teixeira narra a luta da advogada e ativista Eunice Paiva (1929-2018) para devassar os crimes de estado cometidos pela ditadura a partir do desaparecimento do marido, o engenheiro Rubens Paiva, em 1971. Fernanda Torres e a mãe, a diva Fernanda Montenegro, dividem o papel de Eunice, em fases distintas. Selton Mello é o intérprete de Rubens.

Encarado como a película de ficção mais radical (na forma) deste Oscar, O Brutalista venceu em três frentes: Melhor Fotografia, Banda-Sonora e Ator, dado a Adrien Brody. Ele já havia sido contemplado antes, com O Pianista, em 2003, e venceu agora por uma interpretação visceral como um arquiteto húngaro que tenta se reinventar na América do pós-Guerra, tendo um milionário (Guy Pearce) como mecenas.

O termo “radical” supracitado aplica-se ainda ao body horror “A Substância”, de Coralie Fargeat, que teve de se contentar com o Oscar de Maquilhagem e Penteados. Demi Moore, que brilha à frente do enredo no papel de uma estrela em fase de mutação física, foi ignorada pelos Oscars.

Americana de ascendência dominicana, popularizada pelas franquias “Avatar” (2009-2022) e “Guardiões da Galáxia” (2014-2023), Zoë Yadira Saldaña Nazario assegurou um dos 13 Oscars aos quais Emilia Pérez concorria. A produção francesa ambientada no México ganhou a forma de repúdio após as declarações infelizes da sua protagonista, a espanhola Karka Sofía Gascón, virem à tona nas redes sociais. Sucesso de bilheteiras em França, onde recebeu o César de Melhor Filme no fim de semana, o filme acompanha o processo de transição de um narcotraficante, Manitas (papel de Karla), a fim de assumir uma identidade social feminina, com a ajuda de uma advogada, Rita (vivida por Zoe). A produção recebeu ainda o Oscar de Melhor Canção, por “El Mal”.

“Ainda Estou Aqui” conquista o Oscar de Melhor Filme Internacional

Numa margem oposta a recorrentes consagrações da Disney/Pixar, o Oscar de melhor longa-metragem de animação de 2025 foi entregue a uma pequena produção da Letónia: Flow, contemplada antes com o Globo de Ouro. O cineasta por trás dessa saga sem palavras, Gints Zilbalodis lançou o filme em Cannes, em maio, na mostra Un Certain Regard. Desde então, só angariou fãs. Na trama sem diálogos, uma nova Arca de Noé – mas sem elementos místicos – salva um bando de animais de um dilúvio, num futuro distópico sem humanos. Um gato, o protagonista, terá que lidar com o resto da bicharada para chegar a um lugar seguro… em paz.

No mapeamento do que o cinema de não ficção fez de melhor de 2024 para cá, a Academia optou por ampliar a visibilidade dos conflitos do Médio Oriente ao premiar No Other Land, um dos filmes que estreou na Berlinale de 2024. A sua edição febril alinhava os feitos de um coletivo palestino-israelita para mostrar a destruição de Masafer Yatta, numa Cisjordânia ocupada, num registo da aliança que se desenvolve entre um ativista palestino e um jornalista de Israel.

Terminado o circo dos Oscars, as atenções da indústria do audiovisual voltam-se agora para o Festival de Cannes, que inaugura a sua edição 78 no dia 13 de maio, com Juliette Binoche a presidir o júri.

Filme: “Anora”, de Sean Baker
Realização:
Sean Baker (“Anora”)
Atriz: Mikey Madison (“Anora”)
Ator: Adrien Brody (“O Brutalista”)
Atriz Secundária: Zoe Saldaña (“Emilia Pérez”)
Ator Secundário: Kieran Culkin (“Real Pain”)
Argumento original: Sean Baker (“Anora”)
Argumento Adaptado: Peter Straughan (“Conclave”)
Montagem: Sean Baker (“Anora”)
Fotografia: Lol Crawley (“O Brutalista”)
Direção de Arte: Nathan Crowley e Lee Sandales (“Wicked”)
Maquilhagem e Penteados: Pierre-Olivier Persin, Stéphanie Guillon e Marilyne Scarselli (“A Substância”)
Guarda-Roupa: Paul Tazewell (“Wicked”)
Melhor Filme Internacional: “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles (Brasil)
Curta-metragem documental: “The Only Girl in the Orchestra”, de Molly O’Brien e Lisa Remington
Curta-metragem animado: “In the Shadow of the Cypress”, de Shirin Sohani e Hossein Molayemi
Curta-metragem de ficção live action:
“I’m Not a Robot”, de Victoria Warmerdam e Trent
Canção: “El Mal”, de Clément Ducol, Camille e Jacques Audiard (“Emilia Pérez”)
Banda sonora: Daniel Blumberg(“O Brutalista”)
Som: Gareth John, Richard King, Ron Bartlett e Doug Hemphill (“Dune: Parte Dois”)
Efeitos visuais: Paul Lambert, Stephen James, Rhys Salcombe e Gerd Nefzer (“Duna: Parte Dois”)
Documentário: “No Other Land”, de Yuval Abraham, Basel Adra e Hamdan Ballal
Animação: “Flow”, de Gints Zilbalodis

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