Essam Zakarea e como o foco do Festival do Cairo “é sempre o valor artístico”

(Fotos: Divulgação)

Crítico de cinema, jornalista, professor de cinema e investigador já com várias obras publicadas, entre elas dez livros sobre cinema egípcio e estrangeiro, Essam Zakarea assumiu a direção artística do Festival do Cairo (13-22 novembro) para a sua edição 2024, procurando reforçar e dinamizar um dos certames mais antigos e mais frequentados do mundo árabe e de África.

Prestes a iniciar a sua 45ª edição, o evento teve que lidar com as mudanças no mundo ao longo das suas mais de quatro décadas de história, tendo cancelado a sua edição em 2023 devido ao conflito entre Israel e o Hamas. Em 2024, o evento está de volta e procura cimentar a sua posição central no mundo árabe, mas também crescer a nível internacional. Razões de sobra para falar com Essam Zakaria, que nos ofereceu um panorama sobre o que se pode esperar desta edição 2024.

Essam Zakarea na conferência de imprensa de apresentação do Festival do Cairo

Sei que tem uma ligação forte ao Festival do Cairo, mas como ela começou?

Nos anos 80, estava no exército e pedi licença para poder ir ao festival. Não consegui e fiquei na minha unidade mais uns dias. Tirei então um dia de folga, mas acabei por passar a semana toda a ver filmes no festival. Quando voltei à minha unidade, fui detido (risos). Desde então que estou retido no mundo do cinema e no Festival do Cairo (risos).

Depois disso, já nos meus tempos de jornalista, o Fellini vinha ao Cairo. Duas semanas antes do início do festival, numa conversa com o presidente do certame, Saad Eddin Wahba, perguntei se iam fazer alguma coisa especial em relação ao cineasta italiano. Ele perguntou-me se eu podia fazer alguma coisa, como um pequeno livro. Estava a começar a minha carreira de jornalista e perguntei quantos dias tinha para escrever. Ele disse-me uma semana! (risos). Aceitei, fechei-me em casa durante uma semana e esse foi o meu primeiro livro, publicado pelo evento. Depois disso, a minha conexão com o festival continuou. Estive no comité de seleção de filmes, fui júri e até publiquei mais uns livros com o festival. Agora sou diretor.

O mundo mudou muito desde que o Festival do Cairo nasceu. Como se adaptou o festival a essas mudanças?

O mundo mudou muito. Naqueles tempos, esperávamos ansiosamente um ano para ver filmes novos. Era muito difícil aceder aos filmes. Não havia plataformas, dvds, Internet. Agora, tudo está disponível, mais cedo ou mais tarde, e os festivais não são já o único local onde certos filmes podem ser exibidos. Por isso mesmo, hoje em dia a exibição de filmes não é apenas a única coisa importante.Tens de dar atenção e organizar eventos paralelos, como masterclasses e paineis de discussão, além de valorizar a secção de Indústria, que é muito importante hoje em dia.

Atualmente, existem muitos festivais em todo o mundo e no mundo árabe. Para ser sincero, não acho que no Egito existam assim tantos. Temos 7 ou 8, o que para a dimensão do país é pouco. Até precisávamos de mais mas, simultaneamente, o Festival do Cairo tem as suas datas encaixadas entre certames bem mais ricos em termos orçamentais, como o Festival de Marraquexe (Marrocos), El Gouna (Egito) e Red Sea (Arábia Saudita). Claro que esses festivais querem atrair os melhores filmes e estrelas. Isto para nós é um desafio. Como fazer um bom festival com um orçamento menor.

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Nessas circunstâncias, foi difícil conseguir Premières?

Um pouco, mas há muitos filmes bons por todo o mundo e disse à minha equipa para os procurarem além dos que saem de Berlim, Cannes e Veneza. Filmes além de distribuidores conhecidos, países tradicionalmente ricos em cinema. Queremos encontrar novos talentos. Nesta edição temos três dezenas de premières e muitos filmes que apenas foram exibidos em pequenos festivais, mas que consideramos melhores que muitos que foram exibidos em certames famosos. 

Nessas mudanças do mundo, como é atrair o público mais jovem a estes eventos quando já têm acesso a filmes em plataformas de streaming?

Não é fácil, mas com uma boa organização tudo é possível. Ao organizarmos atividades juntamente com a exibição dos filmes, como masterclasses e painéis de debate, isso atrai mais esses jovens. Além disso, oferecemos muitas acreditações a estudantes, não apenas de cinema, mas a todos. E temos grandes descontos nos bilhetes normais, que tornam a vinda ao festival consideravelmente mais barata que uma ida aos cinemas comerciais.  

Há dois anos, numa conversa com a Naomi Kawase, que era Presidente do Júri, ela expressou alguma surpresa pela falta de foco do público que assistia aos filmes no Cairo. Era permanente as pessoas estarem a mexer nos telemóveis enquanto assistiam aos filmes. Como se reconquista esse foco apenas e só no grande ecrã?

É um mau hábito que temos e, confesso, às vezes dou por mim a evitar ir às salas de cinema aqui no Egito por causa disso mesmo. Este ano vamos ter mais atenção a isso com avisos no ecrã que qualquer pessoa que use os smartphones ou outros aparelhos eletrónicos nas projeções pode ser convidado a sair. Os nossos voluntários foram também informados para agirem nessas situações.

Até agora, qual foi o seu maior desafio como Diretor Artístico do Festival do Cairo?

Como escolher filmes artisticamente relevantes que sejam apreciados por uma audiência vasta. O nosso foco e prioridade é sempre o valor artístico, mas procuramos também trazer boas histórias e emoções para a audiência. Bons dramas, filmes com suspense. Creio que conseguimos um bom balanço nesta edição.

E qual a importância do cinema egipcio para o Festival do Cairo, quer seja no seu poder de atração de novas produções para o evento, quer seja na exibição de clássicos restaurados?

Sim, é importante exibir filmes egípcios e árabes no festival, mas acho que o fundamental é trazer bons filmes internacionais para a nossa audiência. Lembro-me quando era jornalista dos meus colegas ficarem-se muito nos filmes locais. Perguntava sempre o porquê disso, pois os filmes egípcios iriam sempre estrear no país e podiam ser vistos durante o ano inteiro. Sempre achei que era mais importante ver filmes que não seriam exibidos depois. Temos também que entender que no Egipto, as pessoas só veem filmes egípcios e americanos. É muito dificil ver filmes europeus, da América Latina, África e Ásia nas salas de cinema do país. Com isto, o festival é uma boa oportunidade de apanhar filmes dessas paragens.

Paralelamente, convidamos muitos nomes da indústria egípcia, nomeadamente da distribuição e produção de cinema, para que possam trocar impressões com os seus colegas de outros países, podendo assim discutir a hipótese de coproduções. Espero um dia que a distribuição de cinema no Egito exiba mais filmes fora do mercado norte-americano. O mesmo se aplica aos filmes do mundo árabe. É muito raro encontrá-los nas nossas salas. Por isso mesmo, este ano apostamos numa secção muito forte dedicada a esse cinema. Além disso, temos um filme marroquino que foi dobrado ao dialecto do nosso país. A verdade é que não conseguimos entender outros dialetos dos países árabes.  Esta é uma forma de tentarmos expandir o mercado dos filmes árabes no nosso território. Tentamos assim convencer a audiência que podem ver filmes árabes e de outros país e ter prazer nisso.

Vittoria” é um dos filmes em destaque no Festival do Cairo

Há dois anos, um realizador Egípcio manifestou a sua preocupação de os principais técnicos ligados ao cinema estarem todos a serem contratados por plataformas de streaming, como a Netflix. Como vê esse problema?

A Netflix não é muito forte aqui, mas existem várias plataformas árabes que o são, embora se dediquem principalmente à criação televisiva. O grande problema é que grande parte da indústria do cinema que tínhamos mudou-se para a televisão. Até os produtores de cinema mais veteranos passaram para o outro lado e, cada vez mais, vemos estas pessoas a produzir conteúdos para televisão. Simultaneamente a essa mudança, as séries televisiva evoluíram e melhoram muito em qualidade. Isso também aconteceu nos EUA ou na Europa. Os grandes realizadores estão a ser contratados por essas plataformas.

Temos de admitir que as fronteiras entre cinema e televisão são cada vez menores. Não sabemos bem o que o futuro nos reserva, pois até os sistemas de exibição de filmes em casa melhoraram muito. Já podemos ter telas gigantes, colunas de som excelentes e sem a conversa e o uso dos telefones que assistimos hoje em dia em muitas salas de cinema. Eu mesmo, muitas vezes, prefiro ver os filmes em casa por causa disso.

Se tivesse de escolher um único filme, presente nesta edição do Festival do Cairo, que considera imperdível, qual seria?

Isso é muito complicado (risos). O primeiro filme que me veio à cabeça foi um que vi em Veneza, na secção Orizzonti Extra. Gostei muito,  tocou-me bastante e decidi incluí-lo no programa, na competição. É um filme italiano chamado “Vittoria”. Mistura documentário e ficção e é bastante emocional de uma forma muito humana.

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