“Um Príncipe em Apuros”: bem-vindos ao mundo encantado de Michel Hazanavicius

Nos cinemas a 17 de setembro

(Fotos: Divulgação)

Quando entramos nos 50 [anos] temos de escolher muito bem os projetos que fazemos”, disse Michel Hazanavicius aquando do lançamento de “Godard, O Temível”, em 2017. Três anos depois, o realizador para sempre conhecido pelo oscarizado “O Artista” regressa às salas com “Um Príncipe em Apuros”, uma comédia de aventuras de registo familiar onde seguimos um pai (Omar Sy) que todas as noites conta uma história à sua filha na qual ele é o herói. Mas quando a pequena entra na adolescência e ingressa no liceu, começa a abdicar da história para dormir. No mundo imaginário que inventou para os dois, ele não é mais o príncipe e foi substituído por um rapaz que pode muito bem vir a ser a primeira paixoneta da sua filha.

Com a criação elaborada de um mundo de fantasia, misturado com o dia a dia de um pai viúvo com a filha, “Le prince oublié” no seu título original é um filme que se afasta do género de obras a que Hazanavicius está habituado, especialmente pelo seu tom juvenil e familiar. “Foi um guião que me enviaram e a história e o tópico tocou-me e comoveu-me muito. Mas também atraiu-me a ambição, pois temos uma parte muito intimista, real e outra de um mundo de fantasia. A forma como estes dois se entrelaçam é mostrada de uma maneira muito espetacular“, explicou o cineasta ao C7nema numa conversa em Paris em janeiro. “Não é um filme que eu geraria por mim próprio, nem é propriamente o tipo de cinema que me leva aos cinemas. Não sou humilde ou suficientemente corajoso para escrever sobre este tópico [mais sentimental]. (…)  É um filme sobre a importância em acreditar, em acreditar em histórias, em coisas que podem acontecer. É um filme muito optimista, um pouco melancólico, muito profundo, mas ligeiro e de entretenimento.

Desafios e marcas autorais

Embora reconheça que continua em termos cinemáticos a “brincar” com as formas do cinema  – como se pode ver em  “O Artista“,  “Godard, o temível” e neste “Um Príncipe em Apuros” – Hazanavicius frisa que existem ligações entre todos eles: “Por exemplo, o primeiro ‘cut’ deste filme foi apresentado a uma pequena audiência e a Berenice [Bejo] disse-me: “fizeste um remake de “O Artista”! Se pensarmos bem, tudo pode ser comparado, até o facto do príncipe deixar de o ser, como aconteceu igualmente com o George Valentin em “O Artista”.

Quanto a dificuldades, ou obstáculos, o realizador reconhece que desde que conquistou o Oscar tudo se tornou mais fácil, mas que ainda assim, um filme deste estilo nos EUA teria certamente um orçamento 10 vezes maior: “ Com CGI, temos a tecnologia, temos os talentos, mas normalmente não temos o orçamento. Se compararmos um filme americano com o nosso, ele tem normalmente 10 vezes mais orçamento. Tivemos de ser muito espertos, focar-nos na história e gastar o dinheiro no sitio certo“.

Uma mensagem de esperança

Creio que vivemos tempos complicados há 2 mil anos, mas acredito que precisamos acreditar em algo. Quando digo “acreditar”, não pensem em algo religioso. Sou ateu. Não acredito em Deus mas acredito em coisas, sejam elas a imaginação, as histórias, os heróis, ou o cinema. Coisas que me ajudem a conetar-me com outras pessoas. O que temo mais no nosso tempo é o cinismo. As pessoas hoje em dia não acreditam em nada. Não acreditam em Deus, na democracia, nas outras pessoas, e até nelas mesmas. Se fores simplesmente objetivo na forma de ver as coisas na vida será sempre algo muito deprimente. Temos de acreditar em coisas que são irreais. 

Um filme demasiado otimista para um mundo cínico?

Acho que precisamos de um filme assim. Comecei a trabalhar há mais de 20 anos e era muito irónico. A ironia era uma forma de contrapoder. O problema é que a ironia ganhou a guerra e domina hoje em dia. A ironia é o modo normal e isso traz um efeito secundário quando ela vem do topo para a base. Quando as pessoas são muito cínicas e não acreditam em nada é muito difícil trabalhar em conjunto e todos se fecham em si mesmos. Temos que ser mais ingénuos, simples (…) Eu tento ser um otimista na vida, mas talvez seja um pessimista feliz. Falo muito com a minha filha mais velha, que tem 21 anos, e descobri recentemente que essa geração acredita piamente que o mundo está a acabar. Acreditam que estamos nas últimas, que tudo acaba dentro de 40, 50 anos. Quando tinha essa idade, pensava sempre que íamos construir um mundo melhor. Hoje em dia, eles não pensam assim. Para eles, a verdade é que com as mudanças climáticas, guerras religiosas, terrorismo [em janeiro ainda não tinha surgido a pandemia] o mundo vai acabar. Isso vai afectar mesmo os hábitos deles fazerem filhos, por exemplo. Eles não acreditam mesmo no futuro e para mim isso é novo. E para eles é muito complicado explicar como nós fomos educados.

Novos projetos

Depois de misturar live-action e animação CGI 3D neste “Um Príncipe em Apuros”, o realizador vai avançar para uma animação tradicional 2D. Com o nome “La plus précieuse des marchandises”, no filme estamos na Segunda Guerra Mundial e acompanhamos uma família judia francesa que é deportada para Auschwitz. É num comboio para o campo de extermínio que um pai atira um dos seus filhos gémeos para a neve, sendo depois descoberto por um casal polaco. 2022 é o ano da sua chegada.

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