«O Abismo Prateado» é o mais recente filme de Karim Aïnouz, o responsável por obras como «Madame Satã» e o «O Céu de Suely».
Neste novo filme, cujo título deriva de uma música de Chico Buarque (Olhos nos Olhos), seguimos Violeta, uma dentista casada e com um filho. É num dia como tantos outros no seu emprego que o seu mundo é abalado ao ouvir uma mensagem deixada no seu telemóvel pelo marido. Da normalidade ao desespero são meros momentos, pois o seu esposo acaba de a informar que vive sufocado e que a vai abandonar. Para além disso, ele informa-a também que já não a ama e que de maneira nenhuma Violeta o deve seguir.
Assim, é o estado de confusão e de desespero de Violeta que vamos seguir nesta fita, numa descida aos infernos interiores que a actriz Alessandra Negrini consegue reproduzir com bastante dedicação, melancolia e engenho, catapultando para o espectador uma enorme sensação de abandono onde na maioria das vezes nem é preciso surgirem palavras para sentirmos isso. E isso é uma das grandes capacidades da longa-metragem, o facto de ter bastantes momentos contemplativos onde apenas assistimos a expressões, sorrisos e momentos de tristeza sem que precisemos das legendas verbais. Veja-se a cena da discoteca, onde Violeta dança como se não houvesse amanhã (que para ela não existia sem o marido). Ou a cena em que ela parece querer atenuar a sua dor com a mesma receita que deu a uma paciente após lhe arrancar um dente. «Coma sorvete», lá dizia ela.
Outro dos pontos positivos é a fuga aos clichés do género. Ainouz, em vez de procurar saber mais sobre o que levou o marido ao tal sufoco (que não interessa nesta fase), foca-se em Violeta e nas suas emoções. O filho do casal passa completamente ao lado da história e é Violeta o grande alvo da história e é ela também a razão do seu triunfo. Mas será que ela vislumbra um futuro?
Murakami escreveu num célebre livro (O Pássaro de Corda) que por vezes temos de descer a um poço bem fundo para então as coisas iniciarem um novo ciclo. Talvez Violeta veja neste abismo o «prateado» que iluminará o resto da sua vida…
| Jorge Pereira |
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