“El mensaje”: Iván Fund e a magia do real

(Fotos: Divulgação)

Depois de ter entregue ao grande público uma fábula sobre a memória, a dor e o luto com o seu impressionante “Piedra Noche“, o argentino Iván Fund regressa ao grande ecrã com mais uma obra onde o realismo mágico serve como arma para contar a história do ritual de passagem de Anika, que tem o dom de comunicar com os animais. Essa característica dá aos seus tutores a ideia de oferecerem consultas com ela como médium animal para ganhar a vida. Os papéis estão claramente atribuídos: a mulher, Myriam, interpreta as mensagens que Anika, recebe, enquanto o companheiro de Myriam, Roger, negoceia o preço de cada transação. Sem responder diretamente se estamos perante uma fraude ou poderes sobrenaturais, é através da forma de um road movie, pelo interior da Argentina, que vamos conhecendo um pouco mais de um trio onde o empenho de Anika nas sessões com animais domésticos e selvagens é o único elemento que sabemos ser real.

Foi em Berlim, onde o filme concorre ao Urso de Ouro, que falámos com Iván Fund sobre este seu “El mensaje” (The Message).

Encontramos elementos do seu filme anterior, “Piedra Noche”, neste novo projeto, mas também diversas diferenças. Qual a origem deste “The Message”?

Uma das coisas que também encontramos no “Piedra Noche”, e aqui tem a ver com a minha crença, é o mesclar fantasia com realidade. Este filme tem um final muito concreto, mas não teve uma origem concreta. Uma das coisas que me segue é o continuar a explorar as coisas da infância, aquele momento quando deixamos de habitar o mundo da fantasia e começamos a filtrar as coisas do mundo adulto. O momento em que as crianças sentem que fazem parte do mundo e estão em conexão com os outros. Existe também um foco no despertar da curiosidade e do assombro, mas principalmente na ideia de comunidade. Daí partimos para esta menina que sabe que antes dela existiam coisas, há uma história, e que agora faz parte de um grupo onde também pode tomar decisões. Neste caso, ela pode “curar” animais ou confortar alguém. 

No início tinha também a imagem de alguém muito especial, muito místico, mas na realidade que se insere, esse dom só lhe serve para ganhar o dinheiro suficiente para pagar as despesas do mês. Neste ponto, havia esta contradição do mundo mercantilista/capitalista que também me interessava. Finalmente, queria explorar os vínculos familiares. A família como ela é.  

Iván Fund e a equipa de “El mensaje”

Tem algumas referências do realismo mágico que o inspiraram para este filme, nomeadamente da literatura?

Custa-me pensar apenas numa referência num filme como este. A mim acontece-me mais, depois de escrever uma história, fazer percurso inverso de observar o que roubei aqui e ali. É sempre um trabalho em retrospectiva e não pensado à partida, quando começo a escrever. A verdade é que se te alimentas de todos os maestros que visitas, acabas por ficar com o odor deles impregnado em ti. Na literatura, não tem a ver com o que escreve, mas com a forma, o Juan José Saer fascina-me com o seu conceito de ficção. A forma como usa pessoas reais através dos dispositivos da ficção. Depois de ver o filme, já notei a influência do cinema de Taiwan e de Tsai Ming Liang, que admiro muito.

Há algo no filme que me faz lembrar o cinema do Koreeda…

Totalmente, em relação à família que temos (e não escolhemos). Uma família formada pela nobreza dos vínculos e não necessariamente pelo sangue. E no último filme dele, a família também se move numa camioneta.

Porquê um road movie e o que descobriste sobre o teu país ao atravessá-lo?

Quase todos os meus filmes são road movies. Uns a pé, outros a dar voltas dentro da própria casa, e outros de carro. Há algo de itinerância e de estacionário que me apela. E uma melancolia com a passagem do tempo, não necessariamente com um olhar de tristeza, mas de apreciação. Também tenho a ideia que, quando uma pessoa entra num carro, queremos saber de onde vem, para onde vai e porque está ali.

É o fortalecimento dos vínculos afetivos uma espécie de road movie?

Podemos dizer que sim, pois existe um trânsito, uma construção. Uma das ideias que tinha era a de uma estrutura dramática mais clássica, mas não necessariamente seguir à superfície as ações das personagens. Antes queria que fosse o espectador que desse conta que é isso que acaba de ver. Que exista uma mudança nele de como vê as personagens e como elas se movimentam. Queria que o filme fosse, acima de tudo, um ato de descoberta.(…)

“El mensaje”

Porque escolheu o preto e branco para a fotografia do filme?

Por várias razões, uma logo pela sua expressividade do filme em estar inserido numa realidade argentina contemporânea. Por outro lado, tal como no Piedra Noche, queria que o espectador também se desse conta do mundo do cinema e que estas personagens que criei habitassem esse mundo. O preto e branco servia como um atalho, ao dar uma ideia quase distópica, de despertar a magia do cinema num movimento entre o mais místico e o mundano. Algo mais clássico e pausado, nada de muito estridente.

Este é também um filme sobre a perda de inocência, que é um tema recorrente no seu cinema. 

Sim, mas há nisso algo de real. Quando escrevo sobre as personagens, elas são próximas. A Anika [Bootz] é a minha enteada e vivo com ela desde os dois anos; a Betania [Cappato], que interpreta a mãe, é a sua mãe na vida real e minha companheira; e o Marcelo Subiotto e a Mara Bestelli são também um casal na vida real. Queria aproveitar este vínculo real e amoroso para o filme e para a história, captando o momento de passagem.

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