A história base é muito simples: após o inesperado suicídio do irmão, um jovem talentoso e bem-sucedido chef regressa a Chicago para administrar o restaurante da família.
Lida esta singela sinopse, parece que “The Bear” é uma série sobre o fantástico mundo da cozinha, repleto de criatividade e de desfiles de iguarias, mas não é. A série criada pelo veterano produtor / realizador Christopher Storer é sobre luto, sobre depressão, sobre ansiedade, sobre toxicidade. Uma história sobre limites humanos e sobre o difícil processo de seguir a vida após a morte de alguém.
“The Bear” foi cozinhado com utensílios e acessórios dignos da precisão científica de um chef. Todos os ingredientes foram meticulosamente misturados: as personagens, a banda sonora, a fotografia, os cenários, etc.
Não há lugar à romantização da cozinha perfeita. Há sujidade, há curto-circuitos, há incêndios, há drama, tudo isto criado num paralelo direto com as pessoas / personagens que habitam a cozinha do “The Original Beef of Chicagoland“. A autenticidade da história é tal que – em vários momentos – parece que o espectador está mesmo naquele restaurante, a ouvir os sons, os gritos, a cheirar os alimentos, a sentir a ansiedade dos chef’s no alucinado ritmo da preparação das refeições.
A escrita é de alto nível e com ela performances dignas de prémios. A entrega e atuação de Jeremy Allen White é absolutamente sublime, o ator espelha todos os sentimentos de forma magistral: ao longo dos 8 episódios, mostra uma vasta gama de emoções, da raiva pura à quietude da depressão. No penúltimo episódio da temporada há lugar a um monólogo de 7 minutos que é absolutamente arrematador. Ebon Moss-Bachrach faz igualmente um trabalho fantástico, encarnando a 100% uma pessoa que, não sabendo lidar com os problemas, se transforma em toxidade pura. Outra performance de destaque é a da novata Ayo Edebiri, capaz de se manter firme ao lado destes dois atores incrivelmente talentosos.


A cinematografia contribui ainda mais para aprofundar o ambiente tenso da série, sobretudo com o recurso a um visual claustrofóbico e sujo e em contrapartida, à medida que a história avança, a um espaço cada vez mais higiénico. As opções a nível do design de som também são de uma qualidade imensa, os sons e ruídos de fundo, por vezes mais altos do que seria normal, são pormenores que fazem a diferença e intensificam a dramatização da história. Este recurso, associado à já mencionada banda-sonora aumentam ainda mais o caos que é o foco da história.

O objetivo de “The Bear” não é ser um projeto televisivo tranquilo. Repleto de personagens atraentes mas imperfeitas, com momentos de humor peculiar e intrigante, é uma série que provoca ansiedade, inquietação, é uma história sobre perda e luto, sobre alguém que no meio do nada tenta superar. Sobre sofrimento e dor, sobre a incapacidade de superar mesmo que se tente de tudo para o conseguir. É frenética e maravilhosamente caótica. Fascinante no seu todo e, sem dúvida, uma das melhores séries que 2022 nos deixou.

Em Portugal, “The Bear” está disponível na plataforma Disney+.

