O filme mais nomeado este ano aos Goya é uma incursão tecnicamente irrepreensível, sempre delicada e em diversos momentos emocionante, para contar a história do Gigante de Alzo: um homem que se torna um objeto circense digno de romaria, “criado” para ajudar a família a sair das dificuldades, numa época em que a instabilidade política entre carlistas e liberais levava a conflitos armados e a maiores tragédias na vida campesina espanhola.
Afundando-se no País Basco profundo e colocando em confronto vários elementos — como os ideais políticos, o campo e a cidade, o tradicional e o moderno — Handia (2017) prima pelo seu foco na desconstrução de personagens que, apesar de estarem frequentemente acompanhadas ao longo do seu trajeto, acabam por viver uma vida plena de solidão. As próprias personagens, na figura de dois irmãos, acabam por representar de certa forma as duas Espanhas existentes. Um quer emigrar para a América, abandonar a quinta e as tradições; o outro não quer mudar, prefere o campo e a religião.
Apresentado em capítulos, o primeiro foca-se em Martin, um homem com ambições de partir para a América que é levado à força para combater pelos carlistas. Ferido numa mão, é já a partir do segundo tomo que Martin — e o filme — ganham contornos de road movie, pois, acompanhado pelo gigante Joaquin, ambos vão usar a doença como forma de ultrapassar a pobreza e as limitações da sua vida campestre.
Para mostrar tudo isso, o duo de realizadores Jon Garaño e Aitor Arregi, do belíssimo Loreak (2014), usa os recursos técnicos de forma particularmente fascinante e imaculada, onde o trabalho de luz, o uso das cores e a cenografia tanto celebram o realismo da interioridade basca, a sua geografia e o seu clima, como o tom mágico, fabulista e espiritual que esse mesmo local oferece. Em qualquer dos casos há sempre um elemento em comum: uma découpage meticulosa, por vezes demasiado artificial, onde cada plano e cena parecem estudados ao pormenor. Surge assim uma abordagem que confronta o real e o mitológico, os factos e as lendas, o tradicional e o moderno — só pecando pela romantização excessiva do objeto apresentado.
Uma nota para o trabalho dos atores: Eneko Sagardoy brilha como o gigante solitário e Joseba Usabiaga convence no papel de Martin, um homem com os sonhos desfeitos após a guerra. O duo mantém uma química fraternal em toda a sua extensão, nunca caindo em facilitismos narrativos para provocar o conflito dramático que a história pede. E embora perca força algures entre o 3.º e 4.º capítulo, Handia é um dos bons exemplos do cinema espanhol contemporâneo que, sem nunca cair na genialidade, apresenta uma história tocante, com sugestivas pontas soltas capazes de instigar o espectador a querer saber mais sobre as suas personagens.


