Daughters of Abdul-Rahman: um grão de areia na tempestade de mudança dos direitos das mulheres

(Fotos: Divulgação)

Se há filme que provocou forte comoção durante a sua passagem pelo Festival do Cairo, onde concorria à Pirâmide de Ouro, ele foi “Daughters of Abdul-Rahman”, uma comédia dramática que chegou da Jordânia sob assinatura de Zaid Abu Hamdan. 

Nela acompanhamos quatro irmãs bem diferentes (interpretadas por Saba Mubarak, Hanan Hillo, Farah Bsaiso, Mariam Basha) que se juntam e terão de encontrar o pai que anda desaparecido. Uma delas desistiu dos seus sonhos para ficar em casa a cuidar do pai; a outra seguiu o rumo de um casamento religioso arranjado, usa o niqab e é profundamente infeliz devido à violência que o marido exerce nela; outra delas saiu de casa para viver com o namorado, sendo desprezada pela família e sociedade em geral; e a quarta é uma esposa-troféu de um homem rico que não se farta de ter amantes.

Comédia de emancipação e sororidade que nunca esquece questões sociais e políticas no que toca ao papel da mulher na sociedade árabe, “Daughters of Abdul-Rahman” conquistou o público e teria mesmo hipótese de ser bem sucedido em mostras internacionais orientadas para agradar o grande público. Já com o Red Sea Film Festival como próxima paragem, Zaid Abu Hamdan falou ao C7nema de como a sua mãe, irmãs e centenas de testemunhos de mulheres jordanas influenciaram a construção da história do seu filme.

O seu filme tem momentos bastante divertidos, mas outros bem dramáticos. Como conseguiu gerir essas doses de comédia e drama?

Tem muito a ver de como vejo a relação da minha mãe com as minhas irmãs. Elas têm uma relação intensa, muitas vezes caótica, mas amam-se muito. Quando discutem vão até ao fim das consequências, mas quando se amam é igual. Cresci num meio assim e sempre ficava surpreendido com a intensidade das discussões e, como minutos depois, já estavam a rir umas com as outras. Esta energia e dinâmica entrou muito no meu filme.

Sei que fez uma espécie de sondagem/questionário junto de mulheres jordanas para entender os problemas que mais afetam as suas vidas quotidianas e transitou isso depois para o filme e aquelas quatro irmãs. Como se processou essa ideia?

Foram chocantes e surpreendentes os resultados desse inquérito. Mas antes disso, a ignição para o meu filme foi a minha mãe, que me disse algo em que percebi que ela não era tão feliz como eu pensava que era. Durante a sua vida, ela foi formada e formatada a ser a irmã mais velha perfeita, depois a esposa perfeita e finalmente a mãe perfeita. Nesse caminho ela perdeu o seu sentido e nunca conquistou o que realmente queria para si. A partir daí comecei a questionar outras mulheres, cerca de 250, sobre esse tema. Todas elas tinham diferentes vidas, eram provenientes de classes sociais, e ligação à religião de forma diversificada. A maioria delas sentem-se muito zangadas e querem gritar contra as expetativas que a sociedade colocou nelas. Por isso mesmo, no meu filme tenho dois momentos em que as personagens gritam contra o mundo em que vivem. Quis no fundo ser honesto para todas as mulheres que responderam a esse inquérito e expuseram os seus problemas.

Todos os filmes são políticos, mas o seu é particularmente incisivo na questão social e na questão das mulheres. Podemos mesmo dizer que é um filme feminista…

Sim, se quiser falar da emancipação feminina e centrar-me nos problemas das minhas personagens. Honestamente, o termo feminista tornou-se um pouco como um campo de minas, mas no seu sentido original, de igualdade e equidade, sim, sem dúvida.  

Por exemplo: inicialmente iriamos fazer uma conferência de imprensa sobre o filme num local pequeno, mas devido ao grande interesse nele mudamos para uma sala maior ao ar livre. Dois jornalistas, homens, claro, disseram-me que o filme era justo para as mulheres, mas muito injusto para os homens. Perguntei-me se estas histórias nunca aconteceram, mas claro que aconteceram. No filme há bons exemplos de homens naquela família, e alguns não são verdadeiramente mais, mas apenas pressionados por uma sociedade que também os sufoca.

Alguns jornalistas também se mostraram agastados por uma das mulheres bater no marido. É uma questão complexa, pois no cinema árabe e especificamente na televisão os homens a batem nas suas esposas ou namoradas a toda a hora. É algo normalizado. Tentei contrariar essa hipocrisia.

Tendo em conta o criticismo de que está a ser alvo, acha que o seu filme vai levar outros realizadores a seguirem esse caminho e questionarem a normalização dos valores existentes entre homens e mulheres no mundo árabe?

No cinema temos a vantagem dele não ser tão lucrativo como a TV, por isso quando fazes um filme sabes a quem o vais vender. Os filmes árabes estão a ganhar mais notoriedade agora que há um grande mercado chamado Arábia Saudita, onde existem mais cinemas que, por exemplo, no Egito. Por isso mesmo estou muito entusiasmado de estar no Red Sea Film Festival na próxima semana com este filme. Se eu for um grão de areia numa tempestade de mudança dos direitos das mulheres, ficarei muito feliz.

E como se sentiu aqui no Cairo na apresentação do filme?

Ainda estou a tremer com a reacção maravilhosa que tivemos (risos). Na primeira exibição só consegui estar eu e o produtor, pois as atrizes não conseguiram por questões ligadas aos passaportes. As pessoas estavam loucas (risos), aos gritos e felizes. Alguns também choraram. O que adorei foi ver homens mais velhos e jovens, alguns dos quais não estavam bem no target do filme, a terem reações passionais. No segundo visionamento as pessoas aplaudiram, mas quando subi ao palco e disse que era o realizador elas enlouqueceram (risos). O meu coração está cheio de amor. Só esta sensação, já me faz sentir que ganhei.

Este é um filme muito motivado pela minha mãe, depois cresceu para algo mais com os depoimentos das outras mulheres, mas no meio disso tudo sinto que é também um filme sobre mim. Acima de tudo, é humano. Eu não digo que os homens arruínam a vida das mulheres, até porque a vida deles é também muito condicionada por esta cultura. Eles mesmo são pressionados a serem isto e aquilo; terem uma esposa, a serem o chefe de família. Eles não estão a limitar apenas as opções de outro ser humano, mas deles mesmo.

E vai continuar a abordar estes temas no futuro?

Bem, a minha avó sempre disse que era um problema (risos). Estava sempre a questionar-me, nas minhas curtas-metragens, porque escrevia sempre histórias sobre coisas controversas. A minha resposta sempre foi que quero filmar as coisas que amo. 

E tem já um novo projeto para o futuro?

Sim, tenho um projeto no Red Sea Festival, “The Zarqa Girl. Está no concurso de desenvolvimento.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/5d3o

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