A fotografia caleidoscópica de Hiedra, assinada por Adrián Durazo, envolve a narrativa numa luz cálida, explorada em planos médios e de detalhe, conferindo intensidade a situações aparentemente banais. Uma dessas cenas mostra o jovem Julio (Francis Eddú Llumiquinga), órfão adolescente, a tentar roubar um beijo a Azucena (Simone Bucio), mulher na casa dos 30 anos que se aproxima dele e dos seus colegas de orfanato, sem nunca revelar claramente o que procura. A relação dela com todos é leve, cheia de riso e contacto físico consentido, mas com Julio a ligação é mais intensa — um “match” improvável marcado pelo abismo geracional. A reação de Azucena ao gesto do rapaz não nasce de um “não é não” direto, mas de um temor íntimo: algo no seu coração — e no seu ventre — sugere que Julio possa ser o filho que teve de abandonar.

O drama cresce a partir dessa hipótese, abrindo camadas freudianas e sociológicas que transformaram o filme numa revelação dos Horizontes Latinos de San Sebastián. Antes, em Veneza, a realizadora equatoriana Ana Cristina Barragán (n. 1987) venceu o prémio de Melhor Argumento na secção Orizzonti, sustentada pela delicadeza do olhar de Azucena e pela sua incompletude. A câmara é firme, mas abre-se pouco a pouco ao mistério, acompanhando a protagonista no desabrochar doloroso de quem enfrenta traumas de infância e a sombra da maternidade perdida.

Barragán já havia explorado temas de corpo, natureza e abismos sociais em Alba (2016) e La Piel Pulpo (2022). Em Hiedra, a sua protagonista carrega as marcas da violência sofrida em criança e busca, quase obsessivamente, resgatar a maternidade negada. A cena em que corta o cabelo de Julio, à procura de vestígios de DNA, simboliza esse desejo visceral de reparação. A montagem — a cargo de Gerard Borràs, Omar Guzmán, Iván Mora e da própria Barragán — equilibra tensão e ternura, oferecendo momentos de acolhimento que comoveram Veneza e iluminaram San Sebastián.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
hiedra-redesenha-a-linha-cinematografica-do-equadorBarragán já havia explorado temas de corpo, natureza e abismos sociais em Alba (2016) e La Piel Pulpo (2022). Em Hiedra, a sua protagonista carrega as marcas da violência sofrida em criança e busca, quase obsessivamente, resgatar a maternidade negada.