Entrevista a Gustavo Hernández (realizador de ‘La Casa Muda’)

(Fotos: Divulgação)

O cinema de terror tem destas coisas. Feito no cinematograficamente esquecido Uruguai, com uns míseros 6000 dólares e uma Canon 5D Mark II, «La Casa Muda» surpreendeu Cannes em 2010 e conquistou fãs do cinema fantástico em todo o mundo. O inevitável remake americano, «Silent House», vem a caminho com Elizabeth Olsen como protagonista (!!) e será provavelmente a única oportunidade dos espectadores portugueses descobrirem esta viagem de 86 minutos a uma casa assombrada.

Apresentado como um plano-sequência sem cortes de 78 minutos, o filme segue Laura numa visita a uma casa de família abandonada com o seu pai. Os dois vão passar lá a noite com o dono original, a fazer arranjos. Mas ruídos misteriosos indicam que algo de muito errado está escondido na casa.

Se um filme tão modesto já seria uma proeza em plano-sequência, o grande triunfo de «La Casa Muda» está na sua qualidade técnica (a fotografia é perfeita para algo feito “de uma assentada”) e narrativa (o filme é emocionante e cativante). Os elogios da imprensa foram muitos, tendo sido considerado um dos grandes calafrios cinematográficos de 2010.

O C7nema conversou com Gustavo Hernández, o realizador do filme, no rescaldo do sucesso mundial da sua estreia, que já antevia o seu futuro projeto, «El Funeral de Elbert Kurman».

De onde surgiu esta história? É verdade que é baseada num caso real?

Está inspirada numa notícia dos anos 40, em que foram encontrados dois corpos mutilados e uma série de fotografias comprometedoras numa casa de campo. A partir desses factos, construímos os possíveis 80 minutos que antecederam esses assassinatos.

O filme foi rodado num take contínuo de 78 minutos. «La Casa Muda» ser um plano-sequência foi a base do projeto, ou foi algo que surgiu mais tarde?

«La Casa Muda» nasceu como um projeto experimental de um grupo de amigos. Sempre achei que a melhor forma de contar esta história era sem cortes, numa sequência única que pudesse transmitir a atmosfera inquietante e sórdida destes eventos.

Como foi possível fazer um plano-sequência tão perfeito em termos de ritmo e fotografia?

Tivemos de ensaiar muito para que o movimento dos atores e da equipa técnica fosse natural. Também cometemos inúmeros erros que nos obrigaram a começar tudo de novo, mas esses erros ensinaram-nos a melhorar cada vez mais.

O teu diretor de fotografia, Pedro Luque, esteve por detrás da curta «Ataque de Pânico», que foi um enorme sucesso mundial no YouTube. Acreditas que existe um novo cinema uruguaio?

O cinema uruguaio é escasso, mas muito rico. Só se fazem cerca de oito filmes por ano, e a maioria está presente nos melhores festivais do mundo: Cannes, Berlim, San Sebastián e Toronto. Não acredito que esteja a surgir um “novo cinema”, apenas projetos isolados. Com o tempo e o passar das gerações podem surgir filmes mais diversificados. Mas «La Casa Muda» é uma exceção no meu país — não é nem a regra nem uma nova moda.

Qual a tua opinião relativamente ao remake americano de «La Casa Muda»?

Ainda não vi o remake, mas tenho muita curiosidade em ver uma nova visão da nossa obra.

Gostavas de realizar um filme em Hollywood?

Alguns estúdios de Hollywood abordaram-me com projetos, mas de momento estou envolvido num filme que está a ser rodado no Uruguai.

Qual é o teu próximo projeto?

O meu novo projeto chama-se «El Funeral de Elbert Kurman» e, tal como «La Casa Muda», envolverá muito risco e experimentação do ponto de vista da realização, mas de uma forma totalmente diferente do meu primeiro filme.

Qual é o teu filme de sonho?

Tenho uma ideia na cabeça que me persegue há já vários anos e que adorava concretizar. É um filme de “realismo mágico” que, quando tiver tempo, vou tentar transformar num argumento. Mas para já é só um sonho.

Que dirias a jovens realizadores que queiram fazer o seu primeiro filme?

Persigam os vossos objetivos, mesmo que pareçam loucos. Façam o que querem fazer, porque não há certo e errado, e só no risco é que se pode criar uma obra distinta e pessoal.

Como foi ver o teu filme no Festival de Cannes?

Incrível. Estamos muito agradecidos aos responsáveis do festival porque literalmente mudou as nossas vidas. Foi uma experiência surpreendente.

Esperavas este sucesso?

Não esperava, nem sequer sonhava com este sucesso.

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