“Salve Maria”: o primeiro abanão de Locarno veio da Catalunha

(Fotos: Divulgação)

Nem dois dias passaram do início da 77ª edição do Festival de Locarno e o primeiro “sismo” emocional já se deu na Competição Internacional. Mar Coll, tantas vezes descrita como a “mãe” do Novo Cinema Catalão, fez os espectadores tremerem de angústia com o seu “Salve Maria”, um thriller avassalador que parte de um assunto tabu – são todas as mulheres feitas para a maternidade?- para contar a história de uma escritora cujo nascimento de um filho a leva a embarcar numa jornada psicológica obscura.

Abandonando o modo naturalista que caracterizou os seus trabalhos anteriores (Tres dies amb la família; Tots volem el millor per a ella) e adaptando uma obra literária assinada por Katixa Agirre, Mar Coll entra pelo mundo dos filmes de género, respeitando os seus códigos e jogando com a linguagem cinematográfica.

Estivemos à conversa com a cineasta que se atreve a tocar no tema do infanticídio, sem pudores, mas que não faz dele o centro do seu filme. 

O filme desconstrói a noção social que as mulheres têm, naturalmente, um maior instinto maternal e serão boas mães. Sempre lhe interessou esse tema ou ganhou novo relevo depois de ler o livro da Katixa Agirre que inspirou este filme?

No processo de pensamento para encontrar um novo projeto – e note-se que sou alguém que demora sempre muito tempo da escrita a filmar – tinha acabado de ser mãe. A argumentista com quem trabalhei, a Valentina Viso, também era mãe. Somos muito amigas e durante muito tempo falámos do que é ser mãe, da potência e da mudança radical que isso foi para as nossas vidas. A transformação foi absoluta. O nosso universo transformou-se. E falamos, claro, das preocupações, dos medos e das angústias, ou seja, do lado obscuro da maternidade. Aquilo que lemos em diversos livros, como o da Katixa Agirre, é o caráter ambivalente da maternidade. É certo que existe ternura, amor, cuidado, etc, mas também muitos sentimentos obscuros, dos quais se fala pouco. É nesses sentimentos que o meu filme coloca o foco.

O filme está dividido em capítulos, todos com uma citação. Isso está no livro e foi replicado no cinema. Porquê essa opção?

A divisão de capítulos vem da obra original, a qual mistura géneros que vão desde o ensaio ao estilo jornalístico, passando pela ficção novelesca. Era uma obra muito difícil de adaptar, por isso tivemos de tomar liberdades e ter um ponto de partida que nos levasse ao thriller. Mantivemos os capítulos, como no livro, e creio que fazia sentido manter, pois estamos perante uma protagonista que é escritora. Podemos dizer que este filme é um manifesto, mas não gosto de pensar que seja um filme de tema, mesmo que em causa esteja um assunto controverso e tabu. Decidir fazer este filme, em si, não deixa de ser um gesto. 

Também gosto dos capítulos por uma questão de ritmo. É um filme tenso e esses capítulos parecem bóias que nos trazem à tona para respirar.

O tema do infanticídio provoca muita comoção…

Digamos que a parte mais obscura da maternidade é o infanticidio, mas este não é um filme sobre isso. Arrependimento, medo, negritude são elementos que estão na personagem e levam-na numa espécie de vórtice de sensações e pensamentos cada vez mais obscuros. Mas nunca entramos no reino do tentar entender as causas do infanticídio ou o seu contexto social. O que o filme tenta mostrar é que o ato mais extremo do lado obscuro da maternidade não é assim tão extraterrestre como isso, que não se pode resumir  tudo a pessoas reduzidas à figura de monstros. O que os escritores e autores fazem ao falar destas pessoas é aproximar-se delas, humanizá-las, vê-las como alguém com pulsões. E é no reino das pulsões que nos mantemos. 

Não consigo precisar o nome da autora de um livro que junta várias escritoras e aborda estes temas, mas nele viajávamos até aos EUA, nos anos 1970, a um local onde houve um infanticídio e posteriormente um linchamento mediático. Essas mulheres podiam não aceitar o crime, mas entendiam que o infanticídio poderia acontecer. E isto porque, nos seus processos de maternidade, passaram por momentos muito negros. Não tanto ao ponto de chegar ao extremo do infanticídio, mas passaram por momentos extremamente complexos. Houve um ataque aos meios de comunicação social da época por causa deste caso, pois estes abordaram o caso com sensacionalismo e crueldade. De certa maneira, sinto-me como elas. Antes de ser mãe, esta questão era algo que à partida me provocava uma repulsa imediata, mas depois senti que compreendia melhor os mecanismos que te podem levar a um lugar tão negro. 

De certa maneira existe no seu filme uma crítica à forma como a imprensa trata estes casos?

Sim, especialmente aqueles que tentam explorar as questões que nos dão medo, tratando os temas a partir do discurso dominante de que a maternidade é um lugar maravilhoso e os que não se enquadram nesse sentimento estão nas periferias da exceção e monstruosidade. Que estes são falhas sociais que não têm lugar no mundo da normalidade.

A maior parte dos criadores, quando se aproximam destes casos, tentam de uma forma mais honesta, empática, eficiente e lúcida sair dos tabus e tentar conhecer melhor e nomear as coisas como deve ser.

Como foi o seu diálogo com a atriz principal sobre o que pretendia dela para aquele papel?

Ensaiamos muito, mas quando escolho uma atriz é porque vejo nela a energia da personagem. Aliás, aplico sempre isso. Não gosto de converter os atores em algo que não são. Muitas vezes, no casting, adapto a personagem ao ator. A personagem da Maria era muito difícil e exigente. Teria de ser alguém com uma certa idade, catalã e conhecida. A Laura Weissmahr tinha nela já uma questão, digamos, irracional, poderosa e fotogénica. Ser fotogénica era essencial para um filme que queria bastante formal, de género e narrativo. Por isso, o meu grande trabalho com ela foi ela mesmo. A sua escolha. Ensaiamos muito, era a sua primeira longa-metragem e tentei dar-lhe muita confiança. Na hora de rodar, a investigação que ela podia ter feito não era assim tão importante. Só meter-lhe um bebé de dois anos nas mãos provocava-lhe medo. Só essa angústia e medo que o bebé caísse era ótimo para a construção da sua personagem. Acho que 50% do trabalho que tive com ela foi na sua escolha. 

Porque optou por filmar em 35mm?

Uma das mais importantes decisões que tomamos foi o de fazer um filme de género. A maternidade tem muitos elementos que têm a ver com o corpo, além da angústia, medo, culpa. No início, a maternidade é uma experiência muito irracional. Queríamos fazer um filme visceral, não de discursos. A melhor maneira para nós contarmos esta história era conseguir uma imersão, através do thriller. Escolhido esse género, teríamos que seguir certos formalismos e os seus códigos muito próprios. Seria através da linguagem cinematográfica que teríamos de mostrar toda a angústia da protagonista. E para atingir a atmosfera que queríamos, a escolha pelos 35mm era natural.

Por outro lado, sabia que a protagonista poderia gerar uma rejeição imediata por parte da audiência. Queria que as pessoas fizessem com ela a sua travessia. Não desejava um filme frio, distante, crítico e desagradável. Queria que as pessoas entendessem a mulher e até se emocionassem. Uma das formas de conseguir isso era através da beleza visual, coisa que o 35mm ajuda. 

Normalmente quando se lê um artigo sobre a Mar, vem sempre na sua descrição que é a mãe do Novo Cinema Catalão. O que acha dessa catalogação? Isso agrada-lhe? E que cinema quer continuar a fazer?

Algumas pessoas mais jovens que eu indicam-me normalmente como precursora de algo. Claro que fico feliz por esse reconhecimento. Comecei a fazer cinema muito jovem pois tive a sorte de estar numa escola de cinema e poder filmar. 

Não sei, sinceramente, que irei filmar no futuro, mas tenho o desejo de fazer Cinema. Mover-me para outros espaços dentro dele, experimentar, jogar com a linguagem. Quando existe o desejo de filmar fica mais fácil as coisas saírem melhores. Quero ir por caminhos diferentes. Não digo novos porque me parece uma palavra ridícula e não sou alguém que dê muita importância à originalidade. Sinto que tenho vontade de me mover do terreno da autoficcção e naturalismo para outros espaços, para experimentar outras coisas. Espero conseguir isso num próximo projeto, mantendo o que acho mais importante: ser sempre um projeto pessoal, que me diga algo. Encontrar a forma como se conta uma história é um dos grandes prazeres do nosso trabalho. E brincar com a linguagem.  

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