The Lady with the torch: uma retrospetiva memorável, um livro enriquecedor

(Fotos: Divulgação)

Numa era em que se massificou a ideia de retrospetiva (ou mais que uma), parcial ou total, nos festivais de cinema, o Festival de Locarno (que curiosamente lançou as retrospetivas em 1957, sendo depois imitado por outros certame), mais uma vez, fez cada título da sua retrospetiva em torno da Columbia Pictures, “The Lady with the torch”, valer cada minuto de exibição, não apenas pelo apurado sentido eclético na seleção dos títulos (40 no meio de centenas e centenas), mas pela diversidade que apresentou, entre filmes A e série B, de um estúdio com características muito próprias, que ascendeu da chamada Poverty Row a grande força em Hollywood, muito por culpa do infame Harry Cohn, que conseguiu triunfar numa era em que haviam mais salas de cinemas que bancos e que nenhuma pertencia ao estúdio.

Locarno77, Ehsan Khoshbakht |© Locarno Film Festival / Ti-Press

Não é de agora essa excelência de curadoria que o festival executa nas suas retrospectivas, como se viu em 2022 em torno da obra de Douglas Sirk, ou em 2023, ao redor do cinema mexicano popular, mas em 2024 esse trabalho ganhou novos adjetivos e superlativos, muito por responsabilidade de Ehsan Khoshbakht, o curador desta mostra. Se no início a ideia era focar-se nos filmes B do estúdio, rapidamente a forma mudou: “A versão atual do programa é um pouco como o próprio estúdio, composto por um quarto de clássicos canónicos, um quarto de filmes menos conhecidos de mestres, um quarto de filmes inéditos e um quarto de filmes de e sobre mulheres, à frente e atrás da câmara”, explicou Khoshbakht durante o certame, que atraiu milhares de espectadores ao cinema Gran Rex, no coração de Locarno.

Por isso mesmo, foram exibidos filmes de nomes como Frank Capra (Mr. Deeds go to Town), Howard Hawks (Twentieth Century), Fritz Lang (The Big Heat), George Stevens (The Talk of the Town), John Ford (The Whole Town’s talking), Raoul Walsh (Gun Fur), Nicholas Ray (Bitter Victory) e Dorothy Azner (Craig’s Wife), ao lado de filmes com rara ou mais difícil exposição, como “Under Age”de Edward Dmytryk, “Vanity Street” de Nicholas Grinde, “Pickup” de Hugo Haas, “Girls under 21” de Max Nosseck, “If you could only cook” de William A. Seiter, e “My Sister Eileen” de Alexander Hall. 

Nesta convocatória da História da Columbia, não podiam faltar os The Three Stooges (no Brasil, Os Três Patetas; em Portugal, Os Três Estarolas) |© Columbia Pictures Industries, Inc. All Rights Reserved

Comecei por imprimir o calendário de estreias da Columbia, 1929-1959, e a vê-las e a marcá-las como se fosse possível descobrir um código secreto para um universo paralelo. A ideia era ver: a) um mínimo de um lançamento por mês; e b) identificar tendências, séries, ciclos, e escolher os títulos mais representativos desse grupo de filmes. Penso ter visto perto de metade das longas-metragens da Columbia desse período, excluindo os lançamentos de filmes estrangeiros”, disse Khoshbakht, acrescentando que mesmo depois de o programa estar completamente fechado, não conseguiu parar de ver os filmes da Columbia do período 1929-1959. ”Não consigo parar de ver os filmes da Columbia. Preciso de ser internado num centro de reabilitação”. 

Como é também habitual, paralelamente à retrospectiva foi publicado um livro sobre a mesma, o qual reúne 19 ensaios sobre o estúdio, cineastas, produtores e atores que fizeram a história da Columbia, um estúdio que se tivesse uma descrição no livro de curso do final do liceu, em 1924, certamente diria que era aquele “com menos potencial para triunfar” na vida. Além de textos sobre múltiplos temas, o livro apresenta ainda muitas fotos raramente vistas dos arquivos da Sony/Columbia e da Cinémathèque suisse.

Rita Hayworth em “Gilda”, sobre o qual David Thompson escreve um ensaio dedicado aos tempos de Charles Vidor na Columbia | © Columbia Pictures Industries, Inc. All Rights Reserved

Contando com textos do próprio Khoshbakht, mas igualmente de Matthew H. Bernstein, Pamela Hutchinson, David Thompson, Christopher Small, Phillipe Garnier, Jeremy Arnold, Kim Newman, David Cairns, Imogen Sara Smith, Farran Smith Nehme, Haden Guest, Milan Hain, Paola Cristalli, Elena Lazic, Chris Fuhiwara e Jonathan Rosenbaum, detalham-se os escritos em torno de Edward Dmytryk, Hugo Haas, Alexander Hall, Phil Karlson e Charles Vidor, além daqueles em torno de figuras como Frank Capra, facilmente o mais famoso dos cineastas globalmente, mas aquele que mais se conecta ao próprio estúdio que trabalhou.

E há muito espaço para várias “anedotas” sobre o modo como Cohn controlava a vida do estúdio, produtores, realizadores e particularmente atores, como a que Pamela Hutchinson nos conta sobre a escolha da primeira mulher em Hollywood para o cargo de produtora executiva, Virginia Van Upp, que saída da Paramount conseguiu o lugar após um dos famosos almoços em que o “chauvinista” Cohn reunia os produtores. Diz a “lenda” que nesse almoço, 10 produtores do sexo masculino “engasgaram-se” no almoço quando foi anunciada a elevação de Upp a produtora executiva. Como se não bastasse, no final do dia, Cohn telefonou a Upp a perguntar se ela tinha sido congratulada pelos colegas. Como só um dos produtores masculinos o fez, Cohn despediu os outros nove. 

E fala-se das ligações de muitos dos que trabalhavam na Columbia à chamada esquerda norte-americana, afinal era um estúdio conhecido pela preocupação pelo “little fella”, além de se mencionar casos de whitewashing tão comuns na época, como a obsessão de Cohn em manter esbranquiçada (“Less Latina”) e até controlar o penteado de uma tal de Margarita Cansino, uma atriz e dançarina nascida no México que o mundo conheceu como Rita Hayworth.

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