Léa Mysius solta os seus diabos

(Fotos: Divulgação)

Entre referências explícitas a dois filmes de culto separados por 50 anos — The Night of the Hunter (1955) e A History of Violence (2005) — e um debate sobre as raízes literárias das narrativas policiais, a conferência de imprensa de Histoires de la Nuit, de Léa Mysius, acabou por evocar o maior mestre europeu do suspense, Claude Chabrol (1930-2010). O realizador francês dizia: “Um thriller torna-se moderno quando se elimina a necessidade de heroísmo.” Esse é o dispositivo adotado pela autora de Ava (2017), na longa-metragem que lhe valeu uma nomeação à Palma de Ouro de 2026.

“Fico honrada ao ouvir uma evocação de Chabrol, sobretudo por eu evitar o heroísmo para procurar pessoas reais. O que se vê são pessoas agressivas. Até no trabalho com os duplos (stunts), pedi que evitassem feitos extraordinários”, disse Léa ao C7, ao admitir que o seu thriller rural, derivado da prosa do escritor Laurent Mauvignier, é violento. “As frases do livro em que nos baseámos, e que li em dois dias, são longas e traduzem-me angústia. Na narrativa, à medida que as ações se tornam mais tensas, a força da música, na banda sonora, intensifica-se.”

Histoires de la Nuit transforma uma festa de aniversário numa espiral de violência, ressentimento e segredos familiares. “Não procurava aquele tipo de suspense em que se cortam gargantas”, disse Léa. A trama acompanha Nora, personagem de Hafsia Herzi, que vive numa quinta isolada ao lado do marido Thomas, interpretado por Bastien Bouillon, e da filha Ida. A rotina aparentemente tranquila daquele espaço esquecido do interior francês é atravessada pela preparação do 40.º aniversário de Nora. A única vizinha da família é Cristina, papel de Monica Bellucci, uma pintora italiana que vive reclusa numa casa próxima.

“É uma abordagem bem diferente do género, com uma personagem como a minha, que é uma pessoa fechada sobre si mesma”, disse Monica Bellucci em Cannes.

Em Histoires de la Nuit, o ambiente de serenidade do campo começa a deteriorar-se quando três homens surgem nos arredores da propriedade. Liderados por Franck, personagem de Benoît Magimel, os invasores transformam a celebração numa espécie de sequestro psicológico, trazendo à tona traumas e segredos enterrados há anos. Mysius conduz o suspense sem recorrer ao excesso de adrenalina: prefere construir o medo através dos silêncios, dos olhares e da sensação de isolamento absoluto.

“A Léa ofereceu-me uma figura bruta, mas movida por contradições”, disse Magimel. “Ele é um Henry Fonda, com os seus olhos azuis.”

Cannes encerrou a competição à Palma de Ouro com o filme de Léa.

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