Acompanhando uma tendência cada vez mais fulgurante do cinema francês recente em regressar às zonas rurais para retratar a juventude – como se viu em Vingt-Deux (“Amor e Queijo” na versão portuguesa) ou Météors –, Antoine Chevrollier estreou-se nas longas-metragens com La Pampa.
Exibido na Semana da Crítica do Festival de Cannes e programado para a Festa do Cinema Francês 2025, La Pampa mergulha no universo intenso do motocross para explorar rituais de masculinidade, códigos viris e amizades em risco.
Willy e Jojo são dois adolescentes que procuram escapar à rotina da sua aldeia através das corridas na pista local. Porém, quando Jojo decide revelar um segredo a Willy, o laço de profunda amizade entre os dois é posto à prova e a hostilidade da comunidade não tarda a emergir.
Em conversa com o cineasta em Cannes, descobrimos mais sobre as suas influências — de André Téchiné ao cinema russo e a Andrea Arnold —, o processo de escrita e ensaio com os atores, e os desafios técnicos e emocionais de dar corpo a um filme que equilibra realismo e poesia visual.

O filme fez-me lembrar algum do cinema de André Téchiné – a amizade, o coming of age. Foi uma influência?
É muito justo o que diz. Gostei muito do cinema de Téchiné, até por volta de 2001–2002. Há nele algo na luz, nas relações humanas, nos corpos, na amizade, claro. Não direi que é uma influência, mas sim um afluente. Se a minha inspiração fosse um rio com vários afluentes, certamente um viria de Téchiné.
Que influências têm para o seu cinema?
Muitas. Fui marcado, como muitos, pela escola russa – de [Mikhail] Kalatozov a [Dziga] Vertov até [Andrei] Tarkovsky. O uso dos enquadramentos, da maquinaria, do som e dos silêncios foi uma grande influência. Depois, quando descobri o cinema independente americano, também. Mais recentemente, Andrea Arnold, claro. Em França, pessoas como Claire Burger. E, paralelamente, os mangas, que irrigaram inconscientemente a minha escrita: conflitos do bem e mal, muito próximos da mitologia grega.
Qual a razão para situar o seu filme no mundo do motocross?
Por duas razões. Primeiro, filmei no meu vilarejo, onde cresci. “La Pampa” existe mesmo, é uma pista de motocross a poucos quilómetros da casa dos meus pais. Cresci a ver aquelas motos. Não sou um fã do desporto em si, mas sempre me fascinou o ambiente social que criava – homens frente a frente, códigos viris, testosterona, irresponsabilidade. Há uma expressão francesa que gosto muito, “trompe-la-mort” (“enganar a morte”). O motocross é isso: um desporto mecânico violentíssimo, com várias mortes e paralisias todos os ano. O filme nasceu dessa reflexão, há uns quatro ou cinco anos, numa conversa com um amigo meu, o realizador Cédric Ido.
E como foi o processo de escrita?
Comecei por rascunhar algumas linhas. Depois, com a Bérénice Bocquillon e a Faïza Guène, fomos desenvolvendo o guião.
E o casting? Trabalha com improvisação ou prefere tudo fechado?
O casting teve três etapas. Primeiro: casting selvagem, especialmente para o Jojo. O Sayyid El Alami (que faz de Willy) já tinha trabalhado comigo, mas fez também o casting. Depois, organizei muitos ensaios em Paris, para pôr os diálogos “na boca” deles. A seguir, levámos todos os atores aos locais das filmagens, onde reescrevemos os diálogos em função do espaço, sempre em colaboração com a equipa técnica. Só depois de tudo fixado é que não se mexe mais. No set pode haver improviso, mas sempre controlado.

E a presença do Damien Bonnard?
Queria trabalhar com ele há muito tempo. A personagem era dura, e ele hesitou. Conversámos muito, caminhámos juntos no meu vilarejo, mostrei-lhe lugares importantes. Fiz playlists para todos os atores, com músicas que as personagens poderiam ouvir. Foi um modo de entrar na psicologia deles.
Andrea Arnold foi uma referência estética?
Sim, claramente. Procurávamos realismo, uma tonalidade solar, contrastes fortes nas cores – vermelhos, verdes, amarelos. Algo próximo do cinema de Arnold, mas quisemos também uma identidade própria, uma amplitude na mise-en-scène.
La Pampa é o cinema que quer continuar a fazer – de realismo?
Sim, embora seja realismo e não naturalismo – a fronteira é porosa mas existe. Gosto de trabalhar esta realidade. Mas os meus próximos projetos serão diferentes, mesmo que ligados a uma mesma verdade.
Já trabalhou na televisão e no cinema. Tem alguma preferência?
O cinema foi sempre a minha prioridade. Quando comecei, há 15 anos, a televisão não tinha ainda o prestígio que tem hoje. A minha paixão nasceu do cinema, desde Hitchcock.
Trabalha por método ou por intuição?
Para mim, uma coisa leva à outra. Primeiro vem a intuição, depois a metodologia. Um plano, por exemplo, nasce de uma vibração que sinto. Depois, estudo onde o integrar no guião. Trabalho muito por instinto, mas com grande precisão.
Qual foi o maior desafio que encontrou pela frente em “La Pampa”?
Foram dois os grandes desafios. Um deles tem uma forma mais meta: ouvir o que o próprio filme me dizia enquanto o filmamos e manter esse diálogo vivo. O outro foi mais técnico: filmar as cenas de motocross, que foram muito complicadas de concretizar.

Exibições na Festa do Cinema Francês
Sexta, 3 de outubro 2025 – 19:00
Cinema Trindade – Porto
Sexta, 3 de outubro 2025 – 19:30
Cinema São Jorge – Lisboa
Segunda, 6 de outubro 2025 – 21:15
Cinema São Jorge – Lisboa

