Amor e Queijo: “O cinema francês é muito parisiense”, diz Louise Courvoisier

Com quase um milhão de espectadores em França, “Vingt-deux” (“Amor e Queijo” na versão portuguesa) foi uma das grandes surpresas do box-office gaulês, isto depois de uma passagem de sucesso no Festival de Cannes, em 2024, de onde saiu com o Prémio da Juventude Un Certain Regard.

Louise Courvoisier

Filmado na aldeia de infância da cineasta em estreia, Louise Courvoisier, na região do Jura em França, no filme seguimos Totone, um jovem de 18 anos que passa a maior parte do seu tempo a beber cerveja e a ir a bailes com o seu grupo de amigos. Quando uma tragédia acontece e a realidade bate-lhe à porta, na forma de tomar conta da sua irmã de 7 anos e arranjar uma maneira de os sustentar, este jovem propõe-se a fabricar o melhor queijo comté da região, aquele com o qual poderia ganhar a medalha de ouro no concurso agrícola e 30000 euros.

“Um dos meus objetivos era representar uma juventude que tem sido esquecida no cinema”, disse a realizadora ao C7nema no passado mês de janeiro. “Quando estudei percebi que havia um enorme fosso entre a juventude que vive no campo e a da cidade. E há muitas fantasias e clichês em relação a essa juventude, muito por culpa do cinema. Aliás, o cinema francês é muito parisiense e normalmente é esse olhar que retrata os jovens do campo”. 

Acreditando que a visão sobre o campo e os jovens que aí habitam está a mudar, muito por filmes como o dela, Louise explica que o que viveu na infância inspirou bastante o projeto, que mostra sempre um dinamismo de vida campestre que contraria o habitual. “Filmes como o meu servem como janela para esse mundo, para a minha vila, para os meus vizinhos, amigos e o ambiente em que cresci. Não queria um olhar miserabilista ou de julgamento, preferindo mostrar uma história fresca, luminosa e cómica. Foi daí que veio a ideia do queijo que vemos no filme, ajudando a criar um território de observação. Quis fazer uma ficção em personagens que são muito inspirados na realidade (…) A minha escolha de filmar este filme numa zona rural de forma dinâmica não é bucólica, mas estética. É assim que vejo o campo, sempre com coisas para fazer. Existe uma ideia de movimento permanente, mas é orgânica. A minha juventude foi assim, por isso tinha de o mostrar e não me adaptar à representação normal destas regiões no cinema”.

Rodeando-se de um elenco recheado de não-atores que escolheu a partir de um casting selvagem nas escolas da comunidade, a cineasta explica que queria “estar junto das pessoas”, sem problemas em atravessar o caminho do documentário, como quando mostra como se faz o queijo, para chegar a uma ficção com algumas influências americanas e do western. “O meu filme é muitas coisas ao mesmo tempo e é difícil catalogá-lo como apenas uma. Tudo o que filmei foi trabalhado de forma bruta. Mas um bruto estético. Estetizar o bruto, como nos westerns, dando muita importância ao território. Claro que podia fazer um outro filme. Bastava mandar chamar os serviços sociais para lidar com estes irmãos e o filme acabava ali. Mas não queria isso. Queria que as personagens seguissem uma aventura (…) É de certa forma um filme intemporal, ainda que não me coíba de mostrar telefones e outras coisas da nossa era. É verdade que eles estão pouco presentes porque não me interessam. Também não me interessa muito datar eventos, mesmo que as coisas que veja à minha frente me façam retornar à infância..

Já com um novo projeto na cabeça, mas ainda não consolidado, Louise Courvoisier garante que ainda não conseguiu mergulhar plenamente nele. “Não consigo fazer duas coisas ao mesmo tempo, porque fico obcecada com um projeto. E ainda estou na ronda de estreias do “Amor e Queijo”. Mas a nova produção será novamente passada no campo.

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