Nanni Moretti: “As batalhas que valem a pena são aquelas que à partida estão perdidas”

“O Sol do Futuro” chega aos cinemas nacionais a 28 de setembro

(Fotos: Divulgação)

Depois de “Três Andares”, um intenso drama lançado em 2021, o italiano Nanni Moretti regressou a Cannes este ano com uma obra bem mais ligeira, mas não menos relevante. Em “O Sol do Futuro” (Il Sol dell’Avvenire), o realizador de clássicos como “Querido Diário” e “O Quarto do Filho” cria uma realidade paralela, na forma de um filme dentro do filme, no qual o Partido Comunista Italiano questiona as ações da URSS na Hungria. 

Pelo meio, ao contar a história de um realizador (interpretado pelo próprio Moretti) a rodar uma obra passada em 1956, Moretti aproveita para falar do peso do ego nas relações e também do mercantilismo cinematográfico atual, com a Netflix e outras plataformas de streaming em destaque.

Foi em Cannes que nos encontrámos com o cineasta e falámos deste “O Sol do Futuro”, que chega esta semana às salas portuguesas.

Quando acabou o visionamento, muitos críticos apontaram a inspiração em Fellini para o seu filme. Essa inspiração foi consciente?

Não pensei em Fellini quando comecei a trabalhar no meu filme, mas quando amas tanto um autor, inconscientemente saltam à superfície os seus tópicos e atmosferas.

O título do seu filme vem de uma canção. Qual a importância dessa música?

É uma música de resistência. A sua escolha tem contornos de ironia e mesmo sarcasmo.

E esse sarcasmo aponta também às plataformas de streaming e à história política italiana, em particular ao passado do Partido Comunista Italiano. Qual foi o ponto de partida para o seu filme?

O ponto de partida era o facto de desejar fazer um filme passado em 1956. Como não me agradou o que estávamos a conseguir, disse a mim mesmo para não nos limitarmos a contar a história do Partido Comunista Italiano neste ano, mas a adicionar a história de um realizador contemporâneo em filmagens.

No que concerne à questão das plataformas de streaming, elas têm uma forma de trabalho diferente da minha. Eu escrevo um filme de maneira totalmente livre, enquanto eles seguem algoritmos. Isso para mim é um problema.

E ao ser um filme sobre fazer um filme, isso leva-nos a “Mia Madre”.

Frequentemente, nos meus filmes não mostro apenas a realidade, mas faço um olhar dela através do cinema – de um realizador que faz um filme – ou  até teatro, como no “Habemus Papa”, onde Tchekhov é chamado..

A personagem do produtor francês que vemos no seu filme, interpretado pelo Mathieu Amalric, era inspirado em alguém real?

(risos) Espero que não seja o meu produtor francês, já que ele sai detido pela polícia das finanças (risos). Na verdade, era apenas a minha forma de mostrar um entusiasmo muito particular que encontramos num certo tipo de produtores franceses. 

Moretti como Giovanni

Olhando para a História e para o Partido Comunista Italiano,  nota-se uma quebra, até pela chegada de Meloni ao poder. Como vê essa transformação da esfera política italiana?

O partido de direita que temos atualmente no poder atua como um partido de direita. Por isso, espero que os partidos de esquerda voltem a atuar como partidos de esquerda. Talvez o facto de estarem uns anos na oposição lhes faça bem para reencontrarem a identidade que perderam.

Nos últimos anos, a esquerda esteve no poder, mesmo que não tenha ganho eleições. Tenho a sensação que essa estadia afastou-os dos mais frágeis e dos mais pobres da sociedade, ao contrário do que acontecia antigamente. Por isso, foram perdendo identidade e vão ter de a encontrar novamente. 

No seu filme vemos os tanques soviéticos a invadirem a Hungria e hoje em dia vemos os tanques russos a invadirem a Ucrânia. Existe algum tipo de mensagem aqui sobre essa situação?

Tenho que dizer que a escrita do meu filme ocorreu antes da agressão russa à Ucrânia, por isso não podia antever que aquelas imagens do passado podiam ser tão contemporâneas. Uma coisa que realmente não entendo, em 2023, é como existe alguém pró-Putin.

Escolhi o tópico de 1956 porque sinto que uma oportunidade perdida da esquerda ocidental se afastar do comunismo da URSS. Foi uma oportunidade perdida. Em 1989, fiz um documentário, após a queda do muro de Berlim, sobre a morte do Partido Comunista Italiano. Nessa altura fiquei muito surpreendido em descobrir que muita gente comunista tinha nela uma ideia completamente irracional sobre o bloco de leste.

O seu filme também é crítico em relação à violência no cinema e existe uma cena em que o realizador que interpreta tenta convencer outro realizador, mais novo, a não embarcar na violência como força estética. É um tipo de discussão que costuma a ter com realizadores mais jovens?

É um filme. Claro que não entro pelo set de filmagens de jovens realizadores para travar as suas filmagens. Este é um filme, uma fantasia, a criação de um realizador e de três argumentistas. A cena era uma paródia de uma forma estúpida de elaborar e consumar a violência. E nisso, todos somos responsáveis, não apenas os realizadores e argumentistas. Também os jornalistas e críticos de cinema são culpados por não se apercebem criticamente do que estão a ver.

Sobre a questão da violência, chegou a fazer piada nas redes sociais sobre a vitória de “Titane”, em Cannes, há dois anos. Qual é a sua opinião sobre o filme?

Horrendo.

Nos tempos que vivemos e nessa questão da violência, não se sente um Dom Quixote a lutar uma batalha perdida?

A maioria das vezes, as batalhas que valem a pena são aquelas que à partida estão perdidas. 

Nanni Moretti e Margherita Buy em “O Sol do Futuro

Com este filme temos a sensação que regressa um pouco às suas origens como realizador. O que o moveu nessa direção?

O meu último filme, o “Três Andares”, era muito doloroso e não deixava espaço para a ironia, por isso agradava-me a ideia de regressar com um filme que também podia ser uma comédia.

Paralelamente, aquele final com os atores com quem trabalhou ao longo da carreira, parece uma espécie de adeus…

Foi uma conclusão da primeira fase da minha carreira (risos). Agora vou começar uma nova fase que vai durar também 40 anos(risos). Não sei o que virá a seguir, mas vou-me estrear no teatro como encenador com duas peças a partir de uma autora italiana, Natalia Ginzburg.

Já falou da forma de como trabalham as plataformas de streaming, mas o que tem a dizer de cineastas que trabalham para elas, como o Scorsese?

Para mim as plataformas são ótimas para as séries, mas não para o cinema. Os filmes devem ser feitos para o cinema. Até agora consegui encontrar financiamento para os meus filmes, mas se deixar de o conseguir inventarei histórias que possam ser feitas com menos dinheiro, mas para o cinema. 

Quando soube que o Scorsese ia rodar “O Irlandês”para o streaming senti dor como espectador, produtor e realizador. 

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