Pátria mãe de filmes de culto do cinema latino-americano de língua portuguesa como “Aquarius”, “Boi Neon” e “O Som ao Redor”, Pernambuco hospeda a partir de hoje um dos mais importantes festivais de animação internacional em atividade no setor. Na sua edição de número 13, o Animage reúne 135 filmes, de 45 países, sendo que 28 destas produções são brasileiras. São 7 longas-metragens e 128 curtas-metragens.
O crítico de cinema e cineasta Júlio Cavani é o curador. Ele conta com uma equipa curatorial formada por Chia Beloto, Nara Aragão, Radhi Meron, Pâmela Peregrino, Kalor Pacheco e Paola Becco. A programação concentra-se no Recife, capital do estado, ocupando as salas de projeção do Teatro do Parque, da Fundação Derby e do Cine da UFPE com atrações dos mais variados cantos do planeta, com destaque para Portugal. “Ice Merchants”, o candidato lusitano aos Óscares de 2023, “Ana Morphose”, de João Rodrigues, “O Aparente Caos da Diversidade”, de estudantes da Escola Montemor-o-Novo, e “Os Demónios do Meu Avô”, de Nuno Beato, estão presentes. Destaque da Monstra, em Lisboa, “Bizarros Peixes das Fossas Abissais”, de Marão, egresso de Nilópolis, vai ser projetado lá também, trazendo Natalia Lage, Rodrigo Santoro e Guilherme Briggs no seu elenco de vozes. Merecem destaque “Gromonmon”, de Laurent Pantaléon; “La Grotte Sacrée”, de Cyrille Masso e Daniel Minlo, de Camarões; e “27”, da húngara Flóra Anna Buda, que foi laureado com a Palma de Ouro das curtas de Cannes.
Na entrevista a seguir, Júlio Cavani ressalta a participação lusa no festival e dimensiona as raízes pernambucanas da produção animada brasileira.

O que temos de animação ibérica em 2023 no Animage? De que forma Portugal tem se feito notar no evento?
Estamos cientes do centenário do cinema de animação de Portugal e temos acompanhado, à distância, a programação de ciclos históricos que a Cinemateca Portuguesa tem apresentado em Lisboa. No Animage em 2023, os filmes portugueses merecem atenção especial e demonstram o bom momento vivido pelo país nesse setor. Um deles é “Ice Merchants”, de João Gonzalez, que concorreu ao Oscar de Melhor Curta-Metragem de Animação este ano. Outro é “Os Demónios do Meu Avô”, de Nuno Beato, a primeira longa-metragem portuguesa produzida em stop motion. Ambos são incríveis, impressionantes, deslumbrantes e perfeitos, técnica e artisticamente. Na Mostra Competitiva de Curtas, temos ainda “Ana Morphose”, de João Rodrigues, e “O Aparente Caos da Diversidade”, do Colectivo Fotograma 24. Esses filmes foram selecionados entre os 1.700 inscritos no Animage deste ano, então significa que se destacaram em meio a uma concorrência altíssima.

Qual é o lugar do cinema de animação na produção do Nordeste, em especial do Recife? Qual é o marco zero do setor em Pernambuco?
Lula Gonzaga é o grande pioneiro do cinema de animação em Pernambuco. A sua primeira curta animada foi lançada em 1972: “Vendo Ouvindo”. Em 2023, ele participa do Animage com um novo filme, “Ciranda Feiticeira”. Na década de 1980, também organizou mostras de animação e sempre ofereceu aulas a crianças. A história desse artista ilustra bem como esse setor nasceu e tem sido renovado ao longo das décadas. Atualmente, Pernambuco produz curtas de animação que participam dos maiores festivais de cinema do mundo, lança séries de TV de sucesso nacional e ainda mantém uma originalidade pulsante no trabalho de artistas mais independentes.
Que estéticas e temáticas mais se destacam na produção deste ano?
O mundo da animação vive um novo momento de possibilidades tecnológicas, simbolizadas pela popularização da realidade virtual e das novas formas de inteligência artificial. A programação do ANIMAGE, entretanto, vai em um sentido contrário a esses fenómenos. Os filmes que mais se destacam são os mais artesanais e verdadeiramente humanos.
Para que caminho a produção animada de longas no Brasil tem ido?
O número de filmes com pretensões comerciais tem se multiplicado e os artistas mais autorais, paralelamente, têm conquistado cada vez mais respaldo em premiações e festivais internacionais. Nos últimos anos, a programação do ANIMAGE levou ao público obras geniais, como “Bizarros Peixes das Fossas Abissais”, de Marão; “A Cidade dos Piratas”, de Otto Guerra; e “Perlimps”, de Alê Abreu. Com o retorno de um bom cenário de políticas culturais, tudo isso será ainda mais potencializado.

