Nas vésperas de mais uma 8 ½ Festa do Cinema Italiano, o c7nema teve a oportunidade de falar com Stefano Savio, diretor artístico do evento, que nos falou do crescimento do certame nos últimos anos e da programação desta “Festa”.
Aqui ficam as suas palavras
A Mostra tem crescido de ano para ano e isto reflete-se na programação, que este ano está alargada.
A aposta do festival certamente cresce, acreditamos também que para viver precisamos de crescer, é uma questão de sobrevivência. Estamos a alcançar um patamar ainda maior para sobreviver. Apercebemos-nos que o cinema italiano ainda é uma proposta com uma margem de crescimento que também cá em Portugal foi muito importante no passado e queremos que volte a ser novamente importante. O crescimento é uma questão de estruturação também do festival, um festival que começou como um evento, uma mostra, uma aposta para que durante anos se tornasse numa maravilhosa majestade. Uma majestade que tem que ocupar mais tempo durante o ano. Não pode ser um festival de uma semana cá em Lisboa, mas cobrir mais. Neste caso o alargamento da programação não é só em Lisboa, como também no Porto, em Loulé, estamos em Coimbra e no Funchal e estamos a anunciar edições em Luanda e Maputo. Ainda vamos chegar ao Brasil, a Portalegre em julho, a muitos cineclubes durante o ano. Tornamos-nos numa distribuidora de cinema italiano. A ideia é que a Festa do Cinema Italiano vá cobrir uma falha, um vazio no mercado do cinema italiano em Portugal. Falo no cinema italiano, mas acho que muitos outros festivais também poderiam fazer o mesmo, o Francês podia fazer o mesmo, o Alemão podia fazer o mesmo. Voltar a fazer com que o cinema europeu tenha um espaço significativo na proposta cinematográfica portuguesa.
Que novidades da programação destacaria?
Este ano a estrutura mantém-se claramente parecida. Temos uma sessão competitiva, um Panorama, os documentários. Este ano abrimos interesse no cinema infantil, fizemos uma colaboração que depois vai desenvolver-se em muito mais com o Giffoni Film Festival, que é praticamente o Cannes dos festivais de cinema infantil, o maior evento deste género do Mundo. É um festival que decorre no verão em Itália, perto de Nápoles, que se encontram interessados em começar a divulgar a sua programação em todo o Mundo. Já estão em vários continentes e estão muitos interessados em colaborar com vários países lusófonos. Depois abrimos uma janela ao cinema mudo, uma coisa que ainda não tínhamos feito. Temos uma estreia, uma obra muito particular, a exibição do filme reencontrado que se achava perdido de Orson Welles – Too Much Johnson – em colaboração com outro grande festival de cinema que decorre em Itália, o Festival de Cinema Mudo de Pordenone, para que seja exibido na Cinemateca Portuguesa, no Festival, ou no Porto. Outra novidade é que vamos estrear o 3D no São Jorge com a obra-prima, numa cópia restaurada, do Último Imperador de Bertolucci, que será o principal atrativo do festival.
A julgar pela mostra do ano passado, o cinema italiano vive uma fase bastante revigorada. Concorda?
A colheita é boa comparada com a de há dez anos atrás. Começou por ser bom cinema mas depois teve um período nos anos 90, parte dos anos 80, que obteve uma produção mais interna, chamaremos assim, onde alguns autores não tinham destaque a nível internacional, voltamos a ter nos últimos períodos uma pequena Primavera. Penso que tal seja evocador, mas sim, uma pequena Primavera do cinema italiano que ajudou a arrecadar muitos prémios internacionais, algumas vitórias no Festival de Cannes, o Oscar para Sorrentino [A Grande Beleza], o Leão de Ouro do Rosi [Sacro Gra]. O cinema italiano começa também a impor um novo cinema, aquele destaque forte a nível internacional, a partir dos festivais internacionais. Acho que isso é importante. Ainda não há cinema italiano comercial, ainda não existe um star system italiano, uma coisa muito forte no passado mas com calma vamos tendo alguns dos filmes que vão sendo um grande êxito em Itália, que poderão ter uma visibilidade no estrangeiro.
Que pode adiantar sobre o filme perdido de Orson Welles que foi recuperado? Como foi a sua recuperação?
Não sei muito bem, penso que foi restaurado pela Cinemateca Del Friuli com colaboração com o Museu de George Eastman, que é um laboratório cinematográfico dos EUA. Julgavam que a cópia tinha sido destruída num incêndio em Madrid, se não estou enganado, e que voltou a ser redescoberto em Pordenone, uma cidade portuária a norte de Itália, e que foi apresentado no mesmo festival. A obra que voltou à vida estará connosco neste festival como também Lorenzo Cordelli, um dos maiores critico cinematográficos italiano e também director da Cinemateca Del Friuli, será certamente a melhor pessoa para falar sobre isso.
Ainda em termos históricos, escolheu também O Último Tango em Paris. Porquê?
Penso que o cine-jantar é uma boa ocasião para juntar cinema com gastronomia, neste caso juntamos a lenda gastronómica com o erotismo. Tem momentos que ficam, que tem muitas relações com comida e o erotismo no mundo dos filmes italianos. Mesmo que seja falado em francês, é sempre um filme de Bertolucci por isso consideramos um filme italiano. Ainda não desenvolvemos a ementa ligada a este filme, mas sabemos que haverá muita manteiga. A ementa deste jantar ainda é uma surpresa.
E porquê a escolha de Mario Bava como homenageado?
São vários elementos. Este ano é o centenário do seu nascimento, o de Mario Bava. A Cinemateca, que tem uma colaboração forte, há anos que esperava uma forte ocasião para organizar este evento. Mario Bava ainda é um pouco desconhecido a nível internacional no cinema italiano do género do terror. Verdadeiramente é o pai do cinema de Dario Argento e de tudo aquilo que virá a ser o Giallo, aquele género de terror italiano que inspira parte da cinematográfica americana. Mario Bava é certamente um dos primeiros grandes mestres do cinema italiano, considerado um artesão. Possui uma competência estética viva muito importante, a utilização da cor que é distinta no cinema de Mario Bava e alguns elementos estéticos são completamente inovadores naquele período. Foi o pai e os seus filhos que tiveram sucesso nesses termos. É um autor pouco conhecido em Portugal e merece ser descoberto. Temos cá um filme que vai passar no Festival que é Cani Arrabbiati, que é um dos últimos filmes dele. Não é aquele terror tão fantástico, é um thriller mais ligado ao do cinema de Tarantino. É outro tipo de cinema, não é tão fantástico, mas é para mim uma obra intemporal do cinema italiano.
O que se pode dizer dos convidados?
Temos o mais mediático de todos que é o Vinicio Capossela, que é neste momento um dos grandes músicos, um dos mais reconhecidos internacionalmente e apreciado pelos italianos. Vem cá para apresentar um documentário sobre o Rebetiko, um género bastante aparentado com o Fado; uma música popular grega que tem muito de particular e uma importância na sociedade musical, pois tem sido utilizada muitas vezes como protesto da revolução social neste período. Capossela mostrou-se bastante interessado na história deste filme. Em Portugal, tal como na Grécia, partilha-se as mesmas situações sociais e musicais e com as semelhanças que tem com o Fado em Portugal. Pode ser que ele se interessasse em fazer algo sobre o Fado.

