Lá se vão quase dez anos desde que o documentarista José Barahona engatou a prosa com a ficção ao filmar “Estive Em Lisboa E Lembrei De Você”, de Luiz Ruffato, e, nesse hiato, entre muitos projetos e realizações, o realizador cunhou uma elegante reconstituição de época que pede passagem aos brasileiros, na Mostra de São Paulo. A sua narrativa retrocede no tempo até meados do século 19, quando náufragos de um navio negreiro – brancos e negros – vão parar numa ilha perdida no Oceano Atlântico. A luta pela sobrevivência (e, sobretudo, pelo poder) vai inverter os valores morais e sociais vigentes na época.
Nesse estado de isolamento, será possível deixar para trás as relações de subjugação do passado e encontrar uma nova forma de viver em harmonia? É o que uma equipa de personagens encarnado por um elenco inspirado vai comprovar, a partir do argumento assinado por Barahona e José Eduardo Agualusa. Estão em cena Allex Miranda, Anabela Moreira, Roberto Bomtempo, Paulo Azevedo (que protagonizou “Estive…” e volta em possante desempenho) e Miguel Damião, no papel de Fradique Mendes, figura celebrada na literatura de Eça de Queiroz (1845-1900).
Depois de mapear lastros históricos dos povos originários no documentário “Nheenagtu” (2020), Barahona agora esquadrinha os fantasmas coloniais sobre os quais fala ao C7nema na entrevista a seguir.
O que “Sobreviventes” pode carregar de metáfora do Brasil dos tempos de hoje, no seu olhar sobre o passado, e que Portugal ele reflete?
A exploração do homem pelo homem é um problema que ainda hoje está muito presente no Brasil. Então é óbvio que o passado, que se retrata neste filme, pode ser espelhado no presente, de outras formas, mais dissimuladas e encobertas, mas ainda injustas. Essa ficção reflete um Portugal por vezes ainda agarrado a uma visão salazarista da história. É comum ainda tentar-se varrer a realidade da escravatura para debaixo do tapete, tentando assim olhar apenas para os grandes feitos heroicos dos navegadores e heróis portugueses, como contados por Camões, e nem sempre assumindo a responsabilidade de um crime histórico muito grave.
Que luz você e o Hugo Azevedo, o seu fotógrafo, procuraram construir naquela paisagem insular?
Aquilo que nós pretendemos retratar foi, em primeiro lugar, uma ambiência de século XIX não realista, mas que remete para os filmes históricos, clássicos a preto e branco. Por acidente, ao procurar as locações para esse filme tirei uma fotografia em preto e branco com meu telemóvel, e, quando mais tarde fui olhar para ela, imaginei imediatamente que estava no século XIX. Por outro lado, tentamos que o cenário enclausurasse as personagens e que as forças da natureza, o calor, o mar e o vento estivessem presentes através de uma certa crueza da fotografia.
O quanto da sua experiência documental depura a sua incursão na ficção?
Está tudo ligado. Os meus documentários têm muita ficção lá dentro, e os meus filmes de ficção, mesmo “Sobreviventes”, apesar de ser um filme de época, também têm muito documentário lá dentro. Conhecer a realidade brasileira permitiu-me, neste filme e na minha ficção anterior, mergulhar mais fundo nos problemas sociais e políticos no Brasil.
De que maneira a participação no IndieLisboa abriu novos caminhos para o seu diálogo com as plateias portuguesas e o que encontraste naquela seleção?
O IndieLisboa foi muito importante como estreia mundial de “Sobreviventes”. É um dos festivais mais importantes de Portugal e foi muito bom poder mostrar lá o filme. Curiosamente, a seleção deste ano tinha presente alguns outros filmes que exploravam a mesma temática que “Sobreviventes”, o que demonstra que este é um tema que está neste momento em clara discussão em Portugal. O filme foi muito bem recebido e o público demonstrou que achava que o filme era importante para este debate.

Exibições na Mostra
19/10 – 20:20 – CINESYSTEM FREI CANECA 1
26/10 – 14:30 – CINESYSTEM FREI CANECA 4

