Sean Baker renova o ‘indie’ com “Anora”

(Fotos: Divulgação)

Na véspera de disputar seis Oscars, carregando uma Palma de Ouro e mais 127 prémios no currículo, Anora passou as últimas semanas a arrebatar as láureas sindicais de mais prestígio em Hollywood, como o Producers Guild Award (PGA) e os prémios da Writers Guild of America (WGA) e da Directors Guild (DGA), além dos Independent Spirit Awards. Somadas, todas essas vitórias ampliam o prestígio de Sean Baker como realizador e assinalam uma nova primavera para a seara indie da produção audiovisual dos Estados Unidos. Na recém-encerrada edição n° 75 da Berlinale, o cineasta chegou a ser elogiado pelo presidente do júri do festival alemão, Todd Haynes, como um signo da liberdade criativa que ainda pode existir entre as franjas dos grandes estúdios. “Baker conseguiu fazer uma longa-metragem, “Tangerine“, com um smartphone, numa prova de que, no terreno da independência, ainda há novas avenidas a serem abertas para que as vozes autorais ecoem”, disse Haynes.

Nascido em Summit, New Jersey, há 54 anos, Baker chegou a trabalhar como projecionista antes de se lançar na realização, em 2000, quando estreou com Four Letter Words”. O selo de autoralidade que carrega vem não apenas da sua estética nevrálgica, de planos-sequência trepidantes, mas da sua recorrente imersão no dia a dia dos profissionais do sexo. Abordou a prostituição em Projeto Flórida (uma sensação da Quinzena de Cineastas de Cannes em 2017). Falou de uma estrela pornográfica em busca de um emprego em Red Rocket (2021). Agora, com a sua mais recente produção, que custou US$ 6 milhões e faturou US$ 38 milhões, ele faz de uma stripper de 23 anos, Anora Mikheeva (Ani para os íntimos… e clientes), a sua personagem central. A atuação de Mikey Madison torna Ani uma figura tridimensional nos afetos, nas carências e na coragem de encerar o machismo.   

Na sua cartografia da vida noturna do Brooklyn, ele acompanha as confusões que se passam com Ani depois que ela se envolve com o filho de um oligarca russo, Ivan (Mark Eydelshteyn), que conhece no clube onde faz striptease. Um momento de conto de fadas desenha-se para a jovem quando Ivan propõe que se casem em Las Vegas. Quando a notícia desse matrimónio às cegas chega à Rússia, despertando a fúria da mãe de Ivan, a sua ilusão de uma vida de luxo e riqueza é ameaçada. Em paralelo, um dos prestadores de serviço do ricaço eslavo, o segurança Ivan (Yura Borisov, nomeado ao Oscar de melhor ator secundário), começa a se encantar por ela.

Esse redemoinho de sexo, festas e decepções põe à prova todo o talento de Baker, que conversou com o C7nema durante uma entrevista Zoom organizada pela Golden Globe Foundation. 

Sean Baker durante a projeção de “Anora” na mostra Perlak do Festival de San Sebastián – Alex Abril/ SSIFF

Qual é o olhar de “Anora” sobre o amor?

Engatei um diálogo com as tramas românticas do cinema americano dos anos 1980 para extrair delas uma perspectiva cómica que se relaciona diretamente com a esperança. Acreditar leva as pessoas a um lugar de idealismo. Ani é uma mulher com potencial para amar. Acho curioso que as pessoas falem da fábula de Cinderela ao mencionarem a sua história, pois não foi a associação prévia que fizemos. Ani é uma das pessoas que o chamado “sonho americano” chutou para fora, na lógica da marginalização, da exclusão.  

Qual seria a dimensão política de “Anora” no seu retrato de uma América que exclui?

Utilizei convenções da screwball comedy para entender a juventude de hoje, num estudo de personagens, algo que não se faz mais na dinâmica das franquias que tomou conta do cinema. A comédia dramática ainda é um terreno afeito a esse tipo de verticalização nas inquietudes de um indivíduo como a Ani. O me único alerta em relação a esse conceito de “cinema político” é o facto de se criar sem investir em pregações de ideologias, em fazer do filme uma palestra. Se o meu eixo de ação fosse o documentário, a não ficção, haveria lugar para um tipo de reflexão social diferente do que fiz, mais focado no debate e na análise social. Só que “Anora” relaciona-se com o riso, parte de personagens para criar humor.

O que mais o fascina no universo dos “trabalhadores do sexo”?

Tenho um novo projeto a caminho sobre esse ambiente, onde tenho encontrado relatos de pessoas que lutam para sobreviver e enfrentam as mesmas situações corriqueiras que todos nós encaram no dia a dia, como estender roupa. Nunca entrei nesse universo à procura de horror ou glamour. Fui até lá atrás de pessoas e travei novas amizades. 


É o montador dos seus filmes. Como funciona a sua estrutura de montagem habitual e como ela se aplica a “Anora”?

Quando as filmagens que realizo chegam ao fim, distancio-me radicalmente do que rodei. Distancio-me da narrativa e das suas personagens durante meses, para ter tempo de me dissociar do que filmei. Aí, quando finalmente vou para a ilha de montagem, tenho como encarar o material filmado como se fosse um documentarista a olhar para imagens do real. Monto sempre em ordem cronológica, respeitando a ordem da trama, para entender o ritmo do que se passa com a subjetividade dos indivíduos que retrato.  

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