No passado mês de setembro decorreu, no Cinema São Jorge, a terceira edição do Motelx, o festival de cinema de terror de Lisboa. Pela primeira vez neste festival, que sempre apostou forte em curtas-metragens portuguesas, houve atribuição de um prémio para melhor curta portuguesa.
O vencedor foi “Sangue Frio”, uma curta original que se debruça sobre a relação de uma mulher com um espantalho. Interpretada por Andresa Soares e Lígia Soares, o filme é realizado por Patrick Mendes.
Nascido em 1981, Patrick concluiu os cursos de montagem e realização na Escola Superior de Teatro e Cinema da Universidade Técnica de Lisboa, em 2004 e 2005.
Realizou as curtas-metragens “Sangue Frio” (2009) e “Synchroton” (2009), e tem trabalhado com realizadores como Eugène Green, João Canijo, Pedro Costa e Werner Schroeter.
O C7nema falou online com o jovem realizador português, no rescaldo do prémio no Motelx.
Qual foi a sensação de vencer o prémio de Melhor Curta no Motelx?
Foi ótimo, ainda por cima porque não estava a contar. Pagou-me o filme, mas o melhor prémio foi ver o meu trabalho reconhecido e levado a sério. Nada pode pagar isso.
Que pensas do festival Motelx e dos demais festivais portugueses? Serão estes os únicos “recintos” onde os jovens cineastas portugueses se podem encontrar com o público?
No mercado das curtas-metragens, não temos grandes hipóteses. Como os filmes não são distribuídos, a única forma de serem vistos em sala é nos festivais. É através deles que se divulga o trabalho dos jovens criadores. Talvez também a “Onda Curta” da RTP… mas quem é que fica acordado até horas insanas para ver isso? Só com insónias.
“Sangue Frio” esteve no IndieLisboa e no Motelx. Planeias mostrar o filme noutros festivais portugueses? Vais apostar em festivais internacionais?
Vou tentando enviar o filme para todos os sítios possíveis. Antes do IndieLisboa, esteve em projeção contínua no Espaço Avenida, numa exposição coletiva ligada às artes plásticas. Já passou também no Étrange Festival, em Lyon, e na Preview Night do Cambridge Super8 Film Festival.
“Sangue Frio” conta a história da estranha relação entre uma mulher e um espantalho. De onde surgiu a ideia?
A ideia surgiu durante a rodagem de uma curta que ainda estou a acabar. Comecei-a antes de Sangue Frio, mas ainda não a concluí.
Quais foram as principais inspirações e influências na conceção de “Sangue Frio”?
Não me inspirei em nada em particular. Simplesmente tive uma vontade enorme de poder mostrar aquele décor.
Para quem ainda não viu “Sangue Frio”, onde poderá encontrá-lo?
O filme vai continuar no circuito de festivais, se for selecionado, pelo menos durante este ano e o próximo. Talvez depois o coloque na internet, mas por agora está fora de questão, pois alguns festivais não aceitam filmes que já estejam online.
A Internet é uma ferramenta útil para jovens cineastas, na procura de colaboradores e na divulgação dos filmes?
Para procurar colaboradores, duvido. Nunca chamaria alguém que não conhecesse ou em quem não confiasse. Para divulgação, sim, embora o filme não tenha sido pensado para um ecrã tão pequeno. Perde muita da força que tem numa projeção em sala.
Ponderas colocar “Sangue Frio” online, gratuitamente no Vimeo ou no YouTube, ou em plataformas pagas?
Somente quando o filme esgotar os dois anos de circuito de festivais. Mas sim, já pensei nisso.
Nos últimos anos, o cinema português apresentou alguns bons resultados comerciais, mas em 2008 e 2009 afastou-se do público. Qual a tua opinião sobre o panorama atual?
Falta cinema de qualidade em Portugal, mas também falta educação por parte do público. Para o público português, o cinema é apenas entretenimento, quando devia ser também um produto artístico que define a nossa cultura. O problema está nos dois lados: o público e o Estado, que alimenta produtos de baixo nível. O panorama é semelhante ao da música.
O que seria necessário para o cinema português se reencontrar com o público?
Duvido que haja resposta. Não será a solução fazer filmes com atores portugueses a falarem inglês. Parece-me um mau princípio fazer filmes em função do público.
Cada vez mais jovens querem trabalhar no audiovisual em Portugal. É uma área de difícil implementação?
Neste momento, com a crise e o mercado saturado, há falta de trabalho em qualquer setor. Se se trabalhar seriamente e se gostar do que se faz, a dificuldade será semelhante a outras profissões. O mundo audiovisual é grande, mas há menos trabalho em certas áreas, porque o mercado é pequeno.
É difícil conciliar o trabalho com projetos pessoais como “Sangue Frio” e “Synchroton”?
Sim. São projetos sem dinheiro, feitos com a disponibilidade dos amigos. Eu compro a película, trato da produção, organizo a pós-produção e pago tudo. Nunca concluí um projeto pessoal “numa assentada”. Pelo meio, trabalho em longas-metragens de outros realizadores – só assim consigo dinheiro para fazer os meus.
Tens outra curta feita este ano, “Synchroton”. Do que trata? Onde a podemos ver?
Conta a história de um engenheiro atómico que vai desinfestar uma casa e descobre fotografias que o remetem ao seu passado. Há uma surpresa no final. Está a ser distribuída por uma agência de curtas, mas só poderá ser vista em festivais para os quais seja selecionada.
Que planos tens para o futuro? Novas curtas? Uma longa?
Quero terminar a curta que comecei antes de Sangue Frio (espero concluí-la em agosto, depois de terminar o trabalho como assistente de realização do João Canijo). Já tenho outra curta escrita, com a qual concorro ao ICA. Tenho duas longas escritas, mas terão de esperar.
Por agora, quero continuar a fazer curtas – dão-me uma liberdade que as longas não permitem, já que aí é preciso assumir compromissos com o público. E quero continuar a trabalhar com outros cineastas, porque é uma aprendizagem muito mais eficaz do que qualquer conservatório de cinema.

