“Privileges”: luxo, poder e sobrevivência num thriller francês da HBO Max

Já disponível na HBO Max, desde o dia 27 de março, a série francesa Privileges revela ser um thriller elegante, feroz e frenético que mergulha nos bastidores de um hotel parisiense para expor, sem pudor, os mecanismos invisíveis do poder.

Criada, escrita e realizada por Vladimir de Fontenay e Marie Monge, a produção acompanha Adèle Charki (Manon Bresch), uma jovem reclusa em regime de semi-liberdade que aceita um trabalho no luxuoso Hotel Citadel, bem no centro de Paris. À primeira vista, trata-se de uma oportunidade de reintegração e uma forma de sair da prisão durante o dia, mas na prática o que ela encontra pela frente é a porta de entrada num sistema onde nada é dado e tudo se negocia, um pouco como a cadeia onde está inserida.

Sob a autoridade do diretor Édouard Galzain (Melvil Poupaud), o hotel revela-se rapidamente uma verdadeira arena, onde os clientes milionários e os funcionários são submetidos a uma hierarquia rígida e a inúmeros jogos de bastidores. A verdade é que o Citadel funciona como uma máquina de poder onde ninguém está realmente no controle, pois todos, de alguma forma, dependem de alguém.

Privileges

Vivemos num mundo de herdeiros, num mundo onde a mobilidade social está avariada. Portanto, essa fratura entre os dois mundos é extremamente contemporânea e não foi nada suavizada na série”, explicou Vladimir de Fontenay em Paris ao C7nema. “Não queríamos simplesmente opor os bastidores aos clientes. Partimos de arquétipos e oposições imediatas — não porque sejam falsas, mas porque são as que projetamos. Quisemos ver o que acontece quando criamos pontes entre e como esse sistema pode ser mais destrutivo do que parece”.

Manon Bresch é quem dá vida a Ádele, “uma jovem mulher que começa numa lógica simples de sobrevivência — sair, ser livre — e que depois evolui para outra ambição: existir com força, proteger-se, encontrar o seu lugar num sistema com regras duras”, como nos conta Marie Monge. “Vimos muitas atrizes, mas com ela foi imediato: empatia, força interior, ambição. Mas não uma ambição contra os outros — é algo mais íntimo, quase vocacional. E ao mesmo tempo trabalha muito para o coletivo. Fisicamente também era essencial. É uma heroína, no sentido literal. E ela consegue isso: corre, luta, faz acrobacias. Fez metade das suas próprias cenas de ação, tem identidade forte, mas também uma enorme capacidade de adaptação — quase camaleónica. Navega entre mundos com instinto e inteligência estratégica.”

Todos ali lutam pela sobrevivência. Não há coletivo”, explica-nos Manon Brecht, que diz que em França isso cada vez é mais contemporâneo. Tive uma conversa com uma atriz sul-coreana que me disse: “a diferença é que vocês vivem para vocês, nós vivemos para a nação”. Isso fez-me pensar.Vivo essa ambivalência: quero lutar pelos outros, mas também quero a minha vida, o meu sucesso. É algo muito francês, acho eu. Essa tensão entre coletivo e individual. Sabemos que só temos uma vida — e ela também é para nós”.

Quem também é uma figura-chave da série é Édouard Galzain, interpretado com maestria pelo ator Melvil Poupaud, um ator que frequentemente trabalha com François Ozon (Grâce à Dieu; Verão 85; O Tempo que Resta) e que aqui encarna o papel do diretor do hotel, alguém que caminha pelas sombras entre os hóspedes e os funcionários, procurando resolver todas as situações, a qualquer custo. “Como cliente e como ator, viajo bastante e fico muitas vezes em bons hotéis. Mas para este papel passei um dia inteiro com o diretor de um dos maiores “palaces” de Paris”, explicou o ator ao C7nema. “Cheguei às 7 da manhã e fiquei até ao fim do dia: reuniões com os funcionários da limpeza, restauração, gestão de problemas. Havia um chefe de Estado hospedado e o diretor esteve uma hora à espera que ele descesse, como se fosse um qualquer empregado. Percebi que é um trabalho totalmente absorvente. O homem não tinha vida. É preciso uma energia brutal para lidar com tudo aquilo. Fiquei impressionado — era quase como um pequeno presidente. Mas era um tipo muito gentil, que liderava com empatia. Na série é o oposto: a minha personagem é quase um gangster, um tipo com métodos brutais. Não me inspirei diretamente nele, mas ele confirmou que muitas situações da série são reais: animais soltos nos corredores, caprichos de estrelas, futebolistas a destruir quartos. Portanto, há muito realismo”.

Para Melvil Poupaud, os privilégios não existem isoladamente nem por direito próprio, mas são sustentados pelas “pequenas mãos”, por trabalhadores invisíveis que tornam possível esse estatuto. No fundo, todas as classes dependem umas das outras, num sistema em que o poder circula — troca-se, conquista-se, por vezes rouba-se — e onde, muitas vezes, quem realmente o detém não é quem aparenta, o que permite desmontar a ideia de privilégio como algo exclusivo e absoluto.

Já Manon Bresch descreve a Citadelle como uma espécie de prisão dourada pensada como uma arena quase teatral, onde coexistem palco e bastidores, lobby e bastidores, e onde a personagem está permanentemente em performance. Essa lógica ajudou-a a construir o papel como um movimento contínuo, sem pausas — “um tudo ou nada” — à semelhança do teatro, onde, uma vez em cena, não há recuo possível, exigindo uma intensidade constante ao longo dos 70 dias de rodagem.

Quando questionados os realizadores sobre a mudança de tom da série ao longo dos episódios, eles não falam em qualquer ato de rutura, mas sim num movimento natural da própria narrativa: a série mantém sempre o mesmo pacto com o espectador, mesmo quando acelera e se aproxima de um thriller. Ambos procuraram um ritmo frenético, colado às decisões da protagonista, filmando tanto em estúdio — com total controle — como em espaços reais de Paris, com equipas reduzidas e uma energia quase documental. Esse contraste está presente desde o primeiro episódio e acompanha a evolução das personagens, permitindo oscilar entre momentos mais melancólicos e outros mais explosivos. O resultado é um crescendo deliberado: parte-se do quotidiano de servir numa lógica quase social e, progressivamente, empurram-se os limites até a pergunta central — “até onde vai a servidão?” — fazer implodir o próprio sistema, levando a narrativa para fora das paredes do hotel.

E quanto a uma segunda temporada, os atores mostram-se confiantes, mas sabem que enfrentam uma enorme pressão para conseguir o sucesso nesta primeira leva de episódios. “Ou há segunda temporada ou somos cancelados”, diz-nos Melvil, brincando de seguida. “Como diz o Bob Dylan: todos servimos alguém — o diabo ou o senhor” (da canção Gotta Serve Somebody, 1979).

Já Manon acrescenta que existem ideias para continuar a série e deseja regressar para novas aventuras. “Trabalhar com o Melvil foi uma sorte enorme. E outra coisa rara hoje: os criadores da série são também os realizadores. Desenvolveram isto durante anos. Isso é um privilégio verdadeiro”.

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