Apesar de nascida na Escócia, Pollyanna McIntosh cresceu em Portugal e na Colômbia. Começou a trabalhar como actriz no festival de Edimburgo. Aos 16 anos, mudou-se para Londres e começou a trabalhar em cinema independente. O seu primeiro papel foi em “The Acid House”, um filme baseado no conto homónimo de Irvine Welsh (o escritor de «Trainspotting»).
Depois de trabalhar em algumas curtas e filmes de menor protagonismo, interpretou uma mulher selvagem em “Offspring”, de 2009, trabalho independente baseado num livro de Jack Ketchum, que lhe abriu diversas portas.
No ano passado, Lucky McKee (realizador do filme de culto “May”, de 2002) e Jack Ketchum uniram-se para escrever uma sequela de “Offspring” chamada “The Woman” – em formato de livro e de filme em simultâneo.
Convocada a reviver uma personagem tão violenta e complicada, Pollyanna McIntosh aceitou o desafio. “The Woman” foi um sucesso arrasador do cinema indie americano, tendo chocado Sundance e dominado os festivais do cinema fantástico de 2011.
O c7nema já havia falado com Lucky McKee aquando a aparição do filme em Portugal no Motelx. Agora, falamos com a adorável protagonista de tão negra personagem. Pollyanna McIntosh revela também detalhes de alguns novos filmes em que está envolvida e explica que o ‘set’ de “The Woman” era tudo menos negro e inquietante como o filme. Este ano ainda a vamos ver nos filmes indie “Love Eternal” e “The Famous Joe Project”.
O c7nema falou com Pollyanna McIntosh no rescaldo da participação do filme no festival de Sitges. Aqui ficam as suas palavras.
Estás de volta como “The Woman”, poucos anos depois de “Offspring”. Porque decidiste voltar para uma personagem tão atípica e difícil de interpretar?
Boa questão… à qual penso que respondeste por mim. Ela foi alguém que eu gostei de interpretar antes pela oportunidade que me deu de trabalhar o meu lado cru e feroz. Voltar à personagem sempre me interessou, e fazê-lo colaborando com Lucky McKee, cujo trabalho eu acho fascinante, foi perfeito.
“The Woman” tem algumas sequências muito intensas e violentas. Como foi lidar com temas tão negros? E como era o ambiente no set?
O set era um local amigável cheio de gente talentosa totalmente concentrada e uma equipa capaz de fazer tudo com um orçamento mínimo. Eu penso que todos nos inspiramos uns aos outros, desde o incrível departamento de arte até ao trabalho de fotografia do Alex Vendler que apenas recorreu às suas luzes portáteis que tinha em casa. E ao trabalho de Angela Bettis (co-protagonista de “The Woman” e protagonista de “May”) que expôs a fragilidade do coração e da alma humana ali mesmo à nossa frente.
No entanto, existiam pessoas muito divertidas e o nosso dia de folga foi sempre passado em convívio e diversão.
Um “set fechado” (com equipa mínima) e um ambiente de respeito fez com que as cenas onde me pudesse sentir vulnerável fossem seguras e descontraídas. As cenas mais violentas, sinceramente, foram extremamente divertidas para mim.
O Sean Bridger (o patriarca e vilão principal) estava super entusiasmado com as cenas mais agressivas e o Zach Rand (o filho Brian) estava fascinado com os efeitos de maquilhagem.
Por vezes, uma personagem mais obscura afecta-me e torna-se um desafio muito difícil. Mas eu já conhecia a “The Woman” muito bem e voltar a interpretá-la foi muito natural e divertido. As horas fora de personagem para mim foram de meditação a ouvir música porque o Massachusetts rural é um lugar lindo e inspirador.
O Lucky McKee disse-nos numa entrevista que as cenas mais intensas foram mais duras para os actores que para ele, porque ele divertia-se imenso a dirigir violência.
Ah ah, o Lucky é um grande contador de histórias… Bem, quando repetes várias vezes algo muito físico torna-se desgastante por muito divertido que seja tentar e acertar com um “stunt” mais complicado. Foi estranho para mim as cenas mais violentas porque na maioria delas eu estava parada pois a minha personagem passa a maioria do filme amarrada. Quando finalmente vi-me livre e pude actuar fisicamente na violência já estava cheia de vontade de o fazer.
Esperavas que o “The Woman” se tornasse um sucesso indie tão grande?
Todos sabíamos no que nos estávamos a meter e estávamos muito excitados com o projecto. O Lucky pediu a um editor de ‘set’, Zack (que é um grande realizador por si próprio) que fizesse um “reel” demonstrativo do filme semanalmente com uma música do Sean Spillane, por tal toda a gente de produção sabia o que estava a sair dali.
Sabíamos que estávamos a criar algo especial. Mas mesmo assim fico muito tocada quando leio críticas muito positivas do filme ou quando recebo feedback positivo e inspirador de espectadores – especialmente mulheres – que me escrevem ou falam comigo.
Pensas que a violência a que as mulheres são submetidas em “The Woman” é uma realidade actual?
A violência sobre as mulheres varia radicalmente de cultura para cultura. Mas em todas elas existe, ainda, um conceito que as mulheres têm “o seu lugar”. Ser poderosa ainda é uma característica vista como pouco atraente numa mulher nos EUA ainda nos dias de hoje.
O filme explora o conceito de abuso e de violência contra mulheres – e a forma como pode viver inserida no seio familiar. Para mim o filme aborda também o tema do imperialismo, apesar do Lucky certamente discordar e dizer que não é um filme político (nota: na entrevista ao c7nema, e respondendo à mesma pergunta, Lucky McKee afirma “eu não faço política”).
No entanto, para mim, um homem ser capaz de ver as coisas do ponto de vista de uma mulher e abordar a sua história como igual é algo muito político.
Que tipo de preparação fizeste para o filme?
O Jack Ketchum já me havia preparado muito bem para dar vida à personagem quando adaptámos o seu livro em “Offspring”.
O “The Woman” foi escrito como livro e como filme por Lucky McKee e o Hack Ketchum quase ao mesmo tempo, como tal, eu tinha muito por onde recorrer.
No que toca à preparação física, trabalhei para ganhar uma forma física mais selvagem e, claro, deixei crescer loucamente o meu cabelo… em todo o lado. Fui uns dias para um bosque para sentir-me selvagem e testar o meu look não civilizado.
O livro “A Short History of Myht” da Karen Armstrong serviu-me também de grande inspiração. E estudei comportamentos de animais como lobos, macacos e gatos selvagens, e também de índios que vivem em reservas selvagens.
Aceitarias ser “The Woman” uma terceira vez?
Resposta fácil. SIM. Teria que ser uma história radicalmente diferente, mas tenho ampla fé no Ketchum e no Lucky e na sua imaginação.
Fizeste “Offspring” e “The Woman”, mas também “Bats 2” e “Burke and Hare”. Vês-te como uma possível diva do terror?
Ah ah. Também fiz o “Headspace” que é de terror. O “Bats 2” é mais um filme de ficção científica parvo que terror. E o John Landis diz que o “Burke and Hare” não é um filme de terror, é uma comédia romântica. Portanto não me vejo como uma actriz de terror. Este ano vou estar em duas comédias e três filmes dramáticos. Gosto de misturar o que faço.
O que devemos esperar de “Love Eternal” e como foi dar vida à história originalmente escrita por Kei Oishi?
É engraçado porque quando li o argumento do Brendan Muldowney (que é o realizador também) não conhecia o livro do Kei Oishi. O filme tem uma história própria, é uma adaptação muito liberal.
Disseram-me que o livro é mais gráfico e de terror. O argumento do Muldowney não é de terror, tem o lado negro do livro mas é mais um drama sobre amor e perda, a luta de um excluído social por se encontrar com o mundo. É um romance negro ou uma história de amor para solitários.
A minha personagem, Naomi, está de luto mas aparece sempre bem-disposta. Foi um papel muito intenso e adorei trabalhar com uma equipa irlandesa e luxemburguesa.
Quem é a “Nova” de “The Famous Joe Project”?
Nova é uma personagem muito especial para mim. Ela é uma “party girl” viciada em cocaína da Califórnia que não tem ordem na sua vida mas tem um bom coração. No filme, ela lixa tudo e depois redime-se depois de ir para reabilitação.
Foi muito divertido fazer o filme, e toda a gente envolvida nele é de Los Angeles por isso criámos uma grande amizade. O meu amigo Joey Capone é o protagonista e foi excelente trabalhar com ele.
Que papel gostarias de interpretar um dia?
Eu adorava ser a Maggie de Cat em “Cat on a Hot Tin Roff” (Gata em Telhado de Zinco Quente) e qualquer personagem num filme do Pedro Almodóvar. Eu sou fluente em espanhol por isso… porque não? Sr. Almodóvar, estás a ler isto?! Liga-me!!!

