Uma das novidades da edição de 2012 do Fantasporto é a publicação da antologia ‘Contos de Ficção Científica’, publicada pela 1001 Mundos (ASA, Grupo Leya).
O Fantasporto 2012 promoveu um Concurso Internacional de Contos de Ficção Científica entrejulho e outubro 2011, a propósito do seu programa autónomo “O FUTURO AGORA. AGORA O FUTURO” e que se enquadra no âmbito da Comemoração Oficial dos 30 anos do filme clássico “Blade Runner” de Ridley Scott. A esse concurso, que teve coordenação de Rogério Ribeiro, concorreram mais de 100 trabalhos, vindos de 4 países e representando 3 continentes. Os contos vencedores vão ser publicados na “Antologia de Contos de Ficção Científica do Fantasporto 2012”, conjuntamente com outros contos de autores convidados nacionais e estrangeiros.
O c7nema falou com o coordenador do projeto, Rogério Ribeiro, responsável também pelo Fórum Fantástico de Lisboa, pelo evento Conversas Imaginárias, assim como júri do Shortcutz Lisboa.
Como surgiu a ideia de fazer esta antologia?
A Antologia surgiu de um irrecusável desafio que a Organização do Fantasporto me dirigiu. Sendo a programação do Fantas multidisciplinar, a ideia inicial foi a de juntar a Literatura à comemoração da temática de Ficção Científica da edição deste ano. Aliás, convém não esquecer que o filme ícone deste Fantas, o Blade Runner, nasceu de um livro de FC, do americano Philip K. Dick.
Mas, depois do desafio feito, e aceite, foi só com o interesse do Pedro Reisinho, editor dacoleção 1001 Mundos, da ASA, que ficou garantido que os nossos esforços se iriam materializar num volume real.
Como funcionou o processo de criação da antologia? Li que tiveram submissões dos 4 cantos do mundo lusófono…
Tenho um especial deleite em me ter “safado” com um projeto nada ortodoxo. A intenção foi garantir a qualidade dos contos e ao mesmo tempo dar espaço a que novos valores fossem revelados. Assim, a preparação da antologia teve duas vertentes: alguns autores de créditos reconhecidos, mesmo que não na FC (embora com ligações variadas à literatura fantástica), foram convidados, e foi lançado um Concurso aberto a todos os interessados. Mesmo os convidados sabiam à partida que os seus contos estavam sujeitos a escrutínio e a possíveis propostas de alteração. Ou seja, ninguém estava aceite por inerência na Antologia, mas apenas se o conto produzido fosse tido como de qualidade.
Felizmente, pude contar com a compreensão dos autores. Mesmo os que não se sentiam tão ligados à FC abraçaram o desafio, com resultados surpreendentes, até para os próprios. E creio que todos ficámos mais satisfeitos com o conteúdo da Antologia depois da passagem por este crivo de exigência.
Do Concurso também surgiram muitas boas surpresas, algumas até que não puderam ser publicadas por razões de limite físico da antologia mas que teria sido bastante interessante editar. E, apesar de não ter sido propositado, foi uma alegria poder incluir contos de Portugal, Brasil e Moçambique. Aliás, apesar de não ter sido possível incluir nenhum conto dessa origem, até de Espanha recebemos submissões!
Verifica-se que o poder do nome Fantasporto é realmente grande, quando se recebem mais de 100 submissões de todo o mundo, e quando surge o interesse da antologia ser publicada também no Brasil.
Muita gente pensa não haver literatura fantástica em Portugal… ‘Contos de Ficção Científica’ surge como uma pequena mostra do universo que existe. Como mentor do Fórum Fantástico de Lisboa, que é preciso para inverter este desconhecimento generalizado?
Hoje é cada vez mais fácil desmentir essa perceção da falta de literatura fantástica portuguesa. Mas sim, concordo que nem sempre é visível. Ou que nem sempre é dada a devida visibilidade à boa literatura fantástica, por entre uma multiplicidade que vai do excelente até ao desnecessariamente deplorável.
Se queres que seja sucinto e objetivo: faltam mais lugares de publicação que questionem os autores sobre as suas obras, e que não se limitem a promover o que lhes cai no colo. Afinal, só assim, com prática e sendo alvos de crítica construtiva é que esses “novos valores” crescerão para serem verdadeiros autores. Mas aí também faltam leitores mais exigentes… é complicado!

