Estabelecido como realizador depois de lançar Pedro Páramo (2024), feito via Netflix, o diretor de fotografia Rodrigo Prieto reencontra-se com um passado que edificou o seu prestígio como artesão da luz ao acompanhar a carreira mundial da versão restaurada de Amores Perros (2000), que a MUBI traz para o Festival do Rio.
“O nosso maior objetivo na construção daquela narrativa era encontrar uma energia característica do México de 1998 e 1999 que escapasse de parâmetros documentais, ao mesmo tempo que dialogasse com referências artísticas do nosso país, de Arturo Ripstein ao programa de TV Chaves”, disse Prieto ao C7 via Zoom, emocionado ao ouvir que o sorriso do então jovem Gael García Bernal era uma metáfora de esperança num precipício naturalista. “Ninguém queria ver cães a lutar no grande ecrã. Era mais fácil haver adesão a um filme de guerra violento do que a uma rixa de animais. O que procurávamos ali era uma resposta ao desastre que a realidade mexicana apontava naquela época.”
Neste sábado, às 18h30 (23h30 em Lisboa), o cinema Kinoplex São Luiz exibe a longa-metragem que inaugurou o prestígio do realizador Alejandro González Iñárritu, vencedor de dois Óscares de Melhor Realização. A cinefilia carioca terá mais uma oportunidade — nesta segunda-feira, às 16h15, no Estação NET Botafogo 1 — de conferir a versão restaurada em 4K da fita, que teve a sua estreia mundial no Festival de Cannes, em maio passado. Iñárritu e Gael estiveram presentes para celebrar o regresso deste marco hispano-americano ao circuito. Os dois voltaram a trabalhar juntos em Babel (2006), que deu ao cineasta a distinção de Melhor Realização em solo cannoise. Prieto esteve com eles também.
“Tomei conhecimento de Iñárritu através do rádio, ao ouvir a sua voz quando era locutor. Já estava no audiovisual e fazia publicidade quando ele trouxe essa proposta que nos parecia um risco, especialmente num momento politicamente horrível para o México, com muita violência”, contou Prieto. “Trabalhámos com muito cuidado as cores, num desenho que captasse a essência emocional de cada figura em cena. A personagem do Gael é emotiva, mas tem algo de sombrio em si, o que me levou a usar o âmbar.”
No fim da década de 1990, Iñárritu teve 2,4 milhões de dólares para filmar um “filme coral” — termo que designa tramas com vários núcleos narrativos que se cruzam numa unidade temática — estruturado sobre um desastre rodoviário. É um acidente de automóvel que rege o enredo de Amores Perros (no Brasil, Amores Brutos; Em Portugal, Amor Cão). A trama escrita por Guillermo Arriaga apresenta três histórias distintas que se entrelaçam na Cidade do México a partir desse acidente. Numa, Octavio, dono de um cão utilizado em lutas clandestinas, deseja fugir com a cunhada; noutra, Daniel deixa a esposa para viver com uma modelo; na terceira, o mendigo Chivo quer regressar à família. A colisão — no sentido mais trágico do termo — desses vértices gera uma geometria de dor.
A restauração de imagem e som de Amores Perros foi realizada em 2020 pela Criterion Collection, Estudio Mexico Films e Altavista Films. A imagem foi restaurada a partir do negativo original da câmara de 35 mm, digitalizado em resolução 4K de 16 bits. A cor foi supervisionada e aprovada pelo próprio Iñárritu, bem como por Rodrigo Prieto, na Harbor Picture Company, em Santa Monica, Califórnia. A restauração da imagem decorreu na Criterion Collection, em Nova Iorque. A nova mixagem da banda sonora surround 5.1 foi criada na Cinematic Media e na Churubusco, a partir dos troncos da trilha sonora arquivados digitalmente e da cópia master, utilizando o Pro Tools da Avid e o iZotope RX. Novos efeitos sonoros e trabalho de foley dedicado foram adicionados ao longo do filme. A nova banda sonora foi supervisionada e aprovada por Iñárritu e pelo montador e designer de som Martín Hernández, e mixada por Jon Taylor no NBCUniversal StudioPost.
Em 24 de outubro, Amores Perros entra na grelha da MUBI do Brasil.

