(esta entrevista contém spoilers sobre o filme)
Quem não conhece Ray Liotta? É um fantástico ator, uma vez mais num papel de duro psicopata no filme de Andrew Dominik que estreia esta semana. Seguramente, um ator para seguir em vários filmes a não perder, como ‘The Place Beyond the Pines’ e ‘The Iceman’, entre outros. Falamos com Ray no festival de Cannes sobre algumas das mais marcantes e violentas cenas do filme. E sobre a crise…
Perdoe-me o ‘spoiler’, mas neste filme o Ray prova que sabe morrer com muito estilo…
Sim, em câmara lenta (risos).
No entanto, para si não foi em câmara lenta. Como foi rodar essa cena?
Essa é uma cena que durou dias a fazer. Tinham o carro colocado numa calha que ia girando. Após a rodagem demorou ainda muito tempo a montar a minha cabeça a entrar pelo vidro dentro. Tinha de sair perfeito.
É uma cena impressionante…
Uma outra cena que também foi um desafio é em que sou violentamente espancado. Com o realismo certo e muitos duplos para vender esse momento com o devido realismo.
Lembra-se de alguma vez, apesar de todos os duplos, já ter apanhado por tabela…?
(risos) Sim, mas desta vez não. Até porque essa cena é brutal.
Chegou alguma vez pensar que esta personagem estaria a pagar pelo passado de outras personagens suas?
Acho que não. Até porque ele nem era assim tão duro como os outros. É claro que já interpretei outros tipos beras, mas não era um tipo assim tão desprezível.
O filme é adaptado de um livro com cerca de 30 anos. No entanto, o Andrew (Dominik) conseguiu dar-lhe um interessante tom de atualidade. Há aquela expressão que diz “A América é um negócio”. Acha que esse é o fim da inocência nos EUA?
Mas esse é um problema que não é exclusivo da América.
Depois há o discurso de Obama em pano de fundo. Sente-se algum descontentamento?
Completamente. Há 1% das pessoas que está a ganhar dinheiro, já não há classe média… Isso é verdade. Agora esta história poderia decorrer durante o período do Reagan, quando muita gente estava bem de finanças. Mas é uma história intemporal.
No caso dos atores também se sente essa crise?
Claro. E quanto maior e melhor é o filme, menos pagam. Por isso temos por vezes de aceitar alguns papéis que de outra forma não pegaríamos. Por mim, tento tomar as melhores decisões em face do material e da minha posição.
Sente que é um pouco ‘type cast’ (contratado para papéis semelhantes) de vilão?
Sim, claro. Apesar de nunca ter participado numa briga.
A sério? Uau. Mas lembra-se de algum papel que tivesse mudado a sua carreira?
A verdade é que se estamos a fazer dinheiro, dão-nos tudo. Quando comecei, era tudo diferente. E eu já ando aqui há 30 anos. É claro que ‘Selvagem e Perigosa’ (do Janathan Demme com a Melanie Griffith, em 1986) foi decisivo.
Como foi trabalhar como Brad Pitt?
Por acaso não chego a ter cenas com ele. É um tipo simpático. Ele mata-me, mas à distância, não chega a sair do carro.
Suavemente…
Isso. Ele é um tipo de não usa o seu estatuto para fazer as coisas. Envolve-se mesmo. É um tipo de arrisca. Não é por causa do dinheiro. E neste filme, é ele o vilão-mor.

