Cannes 2026: Um júri politicamente harmonioso

(Fotos: Divulgação)

Praxe oficial dos festivais de maior prestígio do mundo, a conferência de imprensa do júri é um dos rituais que, em Cannes, mais caminham para os rastos da polémica. Em 2026, a Berlinale passou por um turbilhão após o realizador alemão Wim Wenders ter sido mal interpretado no seu empenho em separar política e arte. Perante o impacto verificado em terras alemãs, há três meses, a claque de juradas e jurados da Croisette assumiu essa controvérsia — sobre o quão político o discurso artístico é — com elegância e muito bom humor. Embora o presidente desse coletivo seja o sul-coreano Park Chan-wook (de Oldboy), quem mais brilhou no confronto com a imprensa foi Paul Laverty, o argumentista escocês que se afirmou como o mais recorrente parceiro de Ken Loach na dramaturgia.

“Eu venho de uma geração que estudou grego na escola e, embora não me lembre de muita coisa, sei que as raízes da palavra ‘política’ remetem para o modo como tratamos o povo. A política é parte do ar que respiramos. Quem se diz apolítico está a agir de modo político”, disse Laverty, que, no final da conferência, fez referência ao cartaz oficial do evento, com o rosto de Susan Sarandon e Geena Davis em Thelma & Louise (1992), para aquecer uma polémica global. “Susan, Javier Bardem e Mark Ruffalo foram para uma lista de desagravo em Hollywood por denúncias ao genocídio palestiniano. A minha solidariedade para com eles é total“.

Laverty ainda deixou o que promete ser “a” frase do festival, nesta fase inicial: “Quem controla o poder é que decide como os algoritmos vão afetar as nossas vidas“.

A segunda intervenção marcante do encontro com o júri veio do realizador chileno Diego Céspedes, em resposta ao C7: “Espero que não só os ricos possam fazer cinema. Eu venho de um subúrbio pobre de Santiago e estou aqui a representar a América Latina. Há que olhar sobretudo para as pessoas que são invisíveis“.

Esta intervenção de Céspedes surgiu na sequência de uma pergunta sobre o uso de IA (inteligência artificial) na criação cinematográfica.

A IA está aí. Combatê-la é uma atitude fadada ao fracasso. O que precisamos é saber trabalhar com ela, cientes de que o impulso artístico vem da alma, do espírito“, disse a atriz Demi Moore, que viu a sua carreira reinventar-se em Cannes, em 2024, com o êxito de A Substância.

Perguntas sobre equidade de género nos EUA foram-lhe dirigidas: “Quando estive em Cannes no passado… vim como acompanhante. Agora, de volta, vejo uma cidade cheia de alegria. E quem pode reclamar desta vista? Sobre Hollywood, sim, muita coisa mudou em relação às mulheres, mas é um work in progress… ainda não chegámos lá“.

Além de Demi, o grupo de juradas de Cannes inclui a atriz Ruth Negga e as realizadoras Laura Wandel e Chloé Zhao. “A arte é uma forma de nos conectar com o divino“, disse Zhao.

Ruth, ao seu lado, recordou a sua passagem pelo festival há uma década com Loving, de Jeff Nichols: “A receção calorosa que se sente aqui é única”.

Completam o júri os atores Isaach De Bankolé e Stellan Skarsgård, que fez a plateia rir ao brincar com a sua própria condição de saúde: “Tive um AVC. O meu desafio aqui é dar conta de todos os degraus da escadaria do festival“, disse o ator sueco.

Bankolé usou o microfone para sublinhar a força do seu continente, África: “A política tem, na base, o povo“.

Chan-wook percorreu cada questão espinhosa afirmando a natureza resiliente do cinema: “Uma manifestação artística que carrega um determinado posicionamento político não deve ser vista como inimiga de quem pensa diferente“, disse o realizador por trás de No Other Choice (2025) e Decision to Leave (2022), que lhe valeu o prémio de Realização na Croisette. “Tive filmes premiados aqui várias vezes. Sei o trabalho que é ser presidente do júri, mas aceitei a missão como forma de retribuir a Cannes tudo o que este festival me deu. Nestes anos, a Coreia do Sul fez o seu caminho rumo ao centro do audiovisual, em parte porque este núcleo cultural se expandiu para acolher as mais diversas expressões“.

O Festival de Cannes decorre até 23 de maio.

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