“Cinema, Aspirinas e Urubus” 20 anos depois

(Fotos: Divulgação)

Dizer que Marcelo Gomes é uma presença constante nos maiores festivais do mundo não é exagero — o passaporte comprova e os catálogos confirmam. Vinte anos depois de ter sido premiado em Cannes com Cinema, Aspirinas e Urubus, o realizador pernambucano já passou por Veneza, Toronto e Roterdão, venceu o Festival do Rio com Paloma (2022) e encontrou o seu porto mais fiel na Berlinale. Por lá concorreu ao Urso de Ouro com Joaquim (2017), exibiu documentários como Estou-me a Guardar para Quando o Carnaval Chegar e assinou a ficção ensaística O Homem das Multidões, codirigida com Cao Guimarães.

Este ano, regressou a Berlim com a minissérie Máscaras de Oxigénio (Não) Cairão Automaticamente, codirigida com Carol Minêm e produzida pela Morena Filmes (de Mariza Leão), que passou também pelo Festival de Munique antes de chegar à HBO Max. Em agosto, o Festival de Gramado serviu de pista de descolagem para a pré-estreia dessa história sobre o boom da sida no Brasil, com consultoria da infetologista Marcia Rachid.

Pouco depois, em setembro, Gomes viajou até ao norte de Espanha para lançar Dolores, codirigido com Maria Clara Escobar, nos Horizontes Latinos de San Sebastián. O filme — um melodrama colorido sobre três mulheres de uma família da periferia, em que a matriarca (Carla Ribas) é viciada no jogo — chega agora à Mostra de São Paulo, com exibição no Espaço Petrobras 1.

Em paralelo, Cinema, Aspirinas e Urubus, vencedor do Prémio do Júri no Festival do Rio de 2005, terá uma sessão especial na Mostra, na próxima terça-feira, 21, no Reserva Cultural, numa celebração dos seus 20 anos. A ação decorre em 1942, no sertão nordestino, onde dois homens se cruzam: Johann, um alemão que fugiu da guerra (Peter Ketnath), e Ranulpho, um brasileiro que tenta escapar à seca (João Miguel). De povoado em povoado, projetam filmes para pessoas que nunca tinham visto cinema, vendendo um remédio “milagroso”. Ao atravessar as estradas poeirentas de um sertão arcaico, buscam horizontes novos e descobrem, na diferença, uma amizade improvável que os marcará para sempre.

Gomes fala ao C7nema sobre o que este filme ainda lhe traz de mais vivo.


Neste ano em que apresentaste o documentário Criaturas da Mente (sobre os estudos do neurocientista Sidarta Ribeiro), lançaste uma série na HBO e estreaste Dolores em San Sebastián, o que significa reencontrar Cinema, Aspirinas e Urubus no grande ecrã, duas décadas depois?

É muito emocionante apresentar o filme na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Foi a Mostra que deu imensa visibilidade ao Aspirinas, ao premiá-lo com o troféu Bandeira Paulista há 20 anos. Isso repercutiu fortemente, dentro e fora do Brasil. A longa percorreu o mundo, ganhou prémios e teve uma bela carreira nos cinemas brasileiros — tudo começou ali. Rever o filme agora faz-me perceber o desejo visceral de fazer cinema que já existia nele. Era, sem eu saber, uma homenagem ao próprio cinema e à vontade de contar histórias de modos diferentes, para que a arte permanecesse viva. O Aspirinas preserva o espírito do risco: arriscar faz parte de qualquer trabalho artístico.

Qual foi o maior desafio em 2005 e o que sobrevive no teu olhar hoje?

Foram sete anos à procura de financiamento — esse foi o maior desafio. Eu era um realizador desconhecido, a equipa e os atores também. O título não ajudava: Cinema, Aspirinas e Urubus. Quando finalmente conseguimos o dinheiro, era pouco, mas bastou. Aprendi que só vale a pena filmar o que nos toca o coração, porque o percurso é sempre duro. O filme revelou João Miguel e tantos outros talentos, e apresentou um sertão fotografado como personagem. Queríamos um road movie de ritmo singular, que deixasse espaço à imaginação do espectador. A ideia nasceu de uma história familiar, contada por um tio-avô — falava de alteridade e de amizade, e o sertão era o lugar da minha memória afetiva. Nunca imaginei que essa história iria correr o mundo.

O filme continua a emocionar o público. O que significa esse carinho?

Significa que o projeto era genuíno. Nasceu de um impulso verdadeiro, do coração. O meu cinema assenta nas personagens: são elas que determinam a fotografia, a arte, o ritmo, a montagem e a música. As suas contradições ditam tudo. E é preciso perseverança e amor para sustentar um projeto durante tantos anos.

Quais são os planos para 2026?

Quero filmar novamente com Cao Guimarães, uma ficção científica chamada Cabo dos Prazeres, passada num Brasil futurista. Esperamos rodar a meio do ano; o argumento está em desenvolvimento e a captação, quase concluída. Tenho outros projetos em andamento, mas ainda é cedo para falar deles. E, claro, quero lançar Dolores comercialmente no próximo ano.

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