Aplica-se o termo “nordestern” ao faroeste brasileiro, sobretudo aquele realizado numa faixa geográfica de nove estados — Maranhão (MA), Piauí (PI), Ceará (CE), Rio Grande do Norte (RN), Paraíba (PB), Pernambuco (PE), Alagoas (AL), Sergipe (SE) e Bahia (BA) — conhecida pela ação do “banditismo social”. O termo remete-se à atuação de grupos armados durante o Estado Novo (1937–1945), o regime não democrático em que o então presidente Getúlio Vargas (1882–1954) se tornou ditador. As chamadas cangaceiras são a mais famosa manifestação dessa célula reativa ao braço repressor do Estado. É a essa fase histórica que a animação Revoada – Versão Steampunk — uma das mais concorridas atrações da 49.ª Mostra de São Paulo — se refere. A trama decorre numa região semi-desértica do Nordeste brasileiro, a partir da invasão, pelas tropas do governo — a famigerada Volante —, do acampamento do bando liderado por Capitão.
No auge da atividade do seu grupo de “subversivos”, soldados comandados por um vilão chamado Espingarda matam o Capitão e a sua companheira, Maria. Na margem oposta do rio ao acampamento deles está o subgrupo liderado pelo respeitado cangaceiro Lua Nova, que acompanha de longe o massacre e, desde então, jura vingança, ao mesmo tempo que se torna alvo da violenta Volante.
Quem conta essa saga, com ecos de spaghetti western, é o cineasta baiano Ducca Rios. Há quatro anos, brilhou em Annecy com Meu Tio José. O seu regresso ao écran, na Mostra — com projeção agendada para o dia 27, no Reserva Cultural — reafirma a sua vocação autoral de cronista das chagas ditatoriais do seu país.

Na conversa que se segue, Ducca fala ao C7nema sobre a produção animada da Bahia.
Que cangaço inspira o teu Revoada – Versão Steampunk? Que ecos do banditismo social podem ser encontrados no teu guião?
O Revoada – Versão Steampunk é inspirado no filme homónimo do cineasta José Umberto Dias, porém adaptado num novo guião e reimpresso numa estética steampunk (retrofuturismo) nos géneros de ficção científica e western, preservando, no entanto, a tragédia do Cangaço numa saga bastante shakespeariana, e por isso mesmo humanamente crua. Nesse recorte, ao nível profundo… e abaixo da epiderme geek evocada também pelo filme, está o banditismo da cangaceira e do soldado da volante, despidos das referências à cultura pop — não tão abundantes, mas presentes no filme. Este cangaço não é apenas parabólico, mas também enraizado na cultura do Nordeste, nas minhas memórias sobre os feitos de cangaceiros reais como Lampião e Corisco. Este último, inclusive, inspira — com os seus cabelos lisos, loiros e compridos — o design da personagem Lua Nova.
Quanto custa fazer um filme como Revoada – Versão Steampunk em reais (ou euros, caso se converta) e em tempo de trabalho?
O filme foi realizado com recursos da Ancine e da Lei Paulo Gustavo, no valor de R$ 1.250.000,00 — cerca de €370.000,00 — e levou quatro anos a ser produzido, com muito esforço próprio e coragem.
Como se dá a articulação de uma produção animada do Nordeste do Brasil com o resto do mundo? Há já festivais internacionais à vista? Há um distribuidor?
No mundo de hoje, estamos no Nordeste potencialmente tão conectados com o resto do planeta quanto qualquer outro lugar. A produção de Cinema nordestina — e não apenas a de animação — tem sido laureada em Cannes, Annecy, Berlim, Guadalajara e tantos outros espaços preciosos para a sétima arte. No caso de Revoada – Versão Steampunk, após a estreia na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, já teremos, em sequência, a aceitação oficial na competição de outro grande festival fora do Brasil, mas que, a pedido dos organizadores, ainda não pode ser revelado. Esperamos que o filme siga uma bela carreira, tanto nos eventos de distinção quanto no posterior circuito comercial.
Qual é a tua formação como animador e que referências visuais constroem a tua noção de arte?
Aprendi a animar num curso de Joaquim Três Rios, ministrado nos anos 1990, mas sempre me vi como realizador, argumentista e diretor de arte. As minhas referências enquanto artista são muitas, destacando o pintor e animador Chico Liberato, os artistas de banda desenhada Joe Sacco e Moebius, e cineastas como Genddy Tartakowski, Glauber Rocha, Marjane Satrapi, entre outros.

