A Mais Preciosa Mercadoria: Michel Hazanavicius e como a animação ajuda a transcender o real

Se há coisa que não podemos acusar Michel Hazanavicius é de fazer o mesmo filme vezes sem conta. O responsável por obras tão diferentes como  “O Artista,Godard, o temível,Um príncipe em ApuroseCorta!voltou a dar uma guinada de 180º no processo criativo de fazer cinema, entrando no mundo da animação com “A Mais Preciosa Mercadoria” (La Plus Précieuse des Marchandises), uma adaptação do livro homónimo de Jean-Claude Grumberg, sobre a Shoah e os horrores do Holocausto.

Porém, não esperem ouvir a palavra nazi ou judeu ser mencionada num filme que nos leva a uma floresta. É aí que um pobre lenhador e a esposa vivem entregues ao frio, fome, miséria e guerra. A vida no local é quase insuportável, mas, um dia, a pobre lenhadora encontra um bebé que foi lançado de um dos muitos comboios que, sem cessar, atravessam o local. Protegido a todo custo, esse bebé transforma a vida do casal e de todos aqueles que cruzam o seu caminho.

Michel Hazanavicius

Foi em Paris, em janeiro passado, nas vésperas de Michel Hazanavicius mostrar o filme em Berlim pela primeira, que o C7nema teve a oportunidade de falar com o cineasta sobre este “A Mais Preciosa Mercadoria”. Aqui ficam as suas palavras. 

Qual a maior dificuldade que encontrou no caminho de transformar esta história num filme?

A maior dificuldade foi criar uma certa distância emocional sobre a história. Não pretendia ser particularmente emocional. Mas também não queria ser frio ou pragmático sobre o tópico. Na minha ideia, pretendia que não fosse um filme exclusivamente para crianças, mas, dado o tema, fosse acessível a elas. Tínhamos de contar a verdade e não mentir sobre o que aconteceu e a natureza dos crimes, mas ao mesmo tempo não os queria de alguma forma traumatizar. Acima de tudo, na maioria do tempo, abordamos a escolha que todos temos de ser boas pessoas e justos.

Na verdade, seria muito difícil contar aos miúdos toda a realidade dos campos de concentração. Por isso, não podíamos mentir, mas também não podíamos contar toda a verdade e crueldade. Muitas vezes lançamos sugestões e evocações. A animação é uma ótima ferramenta, pois não está agarrada à necessidade extrema de realismo. Com a animação transcendemos o real. 

Decidiu contar esta história através do cinema de animação. Como foi o seu envolvimento nesse mundo que era de certa forma estranho no seu currículo de realizador?

Não sou desenhador ou animador, mas fui eu que desenhei as personagens. A luz, as cores, os décors, o movimento das personagens, etc, foram trabalhados em conjunto com uma equipa. Foram eles que executaram concretamente essas questões. Queria uma abordagem clássica e simples, para que toda a equipa pudesse desenhar o que eu pretendia. Por exemplo, nos grandes planos do comboio, que traziam questões éticas e morais de como os mostrar, as figuras que vemos estão muito próximas dos meus desenhos originais.

Como foi adaptar o livro ao cinema e que desafios e pretensões tinha nessa transposição das palavras para imagens?

Havia vários aspetos a ter em conta. Por exemplo, o pai era tratado de forma muito mais realista no livro. Mudei um pouco o tom do filme. Ele começa como uma ficção e aos poucos a realidade vai entrando em cena. Com a animação envolvida, mesmo com essa incursão realista, estamos longe do conto original no final do filme. Num livro podemos dizer coisas muito duras que evocam o cruel, mas conseguimos pelas palavras dar de alguma forma uma doçura. É mais complicado fazer isso com as imagens. Por isso, quis fazer um filme classicamente belo, que valoriza as personagens, e tem uma delicadeza espalhada por todos os cantos. Mas, insisto, não queria mentir.

A Mais Preciosa Mercadoria”

O Michel é conhecido por fazer filmes muito diferentes uns dos outros. Veja-se “O Artista”, “Godard, o temível” ou o “Corta!”. O que o move? A intuição?

Não chamaria intuição, mas desejo. Não procuro fazer filmes diferentes apenas porque sim. Como realizador, ajo como o faço como espectador: não quero ver ou fazer o mesmo filme. Por exemplo, adoro comédias, suspense e filmes de todos os feitios. É um desejo de fazer ou ver algo específico que me move para aqui ou para ali.

Este filme contou com a voz do Jean-Louis Trintignant, num dos seus últimos trabalhos no cinema. Como foi trabalhar com ele?

O Jean-Louis Trintignant estava já em condições complicadas. Estava cego e teve de aprender o texto pela leitura. Enviei o guião e foi a mulher dele que o leu e adorou. Falámos muito sobre o filme e visitei-o no Sul de França, onde vivia. Foi muito emocionante trabalhar com ele. A sua voz é muito particular e das mais marcantes do nosso cinema. 

O filme surgiu numa atualidade onde vemos um regresso da extrema-direita em países como Itália, Áustria e até Alemanha, para não falar em França e Hungria. Como vê esse regresso?

Bem, sou realizador, não político, mas parto sempre da ideia do “esperamos sempre o melhor, mas preparamo-nos para o pior”. Quando alguém da minha geração, que nasceu depois da 2ª Guerra Mundial, e foi de alguma forma protegido, vê o estado atual das coisas, claro que sentimos algo diferente no ar. Seja via tecnologia, seja na aparente fadiga da nossa crença na democracia, que, como sabemos, não é o modelo dominante no mundo. 

Que novos projetos tem pela frente?

Agora estou a adaptar um livro – que foi lançado em fevereiro, em França – sobre os combatentes ucranianos que encontrei na frente da guerra contra a Rússia. Depois virá um filme fantástico que se passa na década de 1920.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/xbdf