Entrevista a Maggie Gyllenhaal (‘Nanny McPhee and the Big Bang ‘)

(Fotos: Divulgação)

Mais do que uma entrevista foi uma agradável conversa numa suite do elegante Hotel Claridges, em Londres, com uma actriz no momento mais extraordinário da sua vida e carreira. Vive os efeitos de ter sido recentemente nomeada a um Óscar e, paralelamente, enfrenta o desafio de educar uma menina. Algo que não é fácil, sobretudo quando pode passar alguns meses fora de casa.

Deixe-me dizer-lhe que o seu sotaque britânico é irrepreensível…

Ohh, obrigado. A verdade é que eu tenho passado vários períodos em Londres, em diversos filmes, por isso não foi difícil habituar-me a ele. Sucedeu em Uma Outra Educação (a acompanhar o marido Peter Sarsgaard) e também o novo Batman, O Cavaleiro das Trevas. O sotaque foi fácil, mas tive uma excelente voice coach. Mas tenho um bom ouvido para este sotaque.

Como foi gerir as crianças no filme? A Maggie era como uma segunda mãe ou eles já eram mesmo jovens actores?

Um ou outro já tinha alguma experiência; um deles até faz stand up commedy… Mas os outros eram rapazes normais. A verdade é que trabalhávamos a sério, com coisas muito técnicas.

Como foi para si esta experiência dado que tem uma filha ainda pequenina?

A minha mãe tem-me ajudado muito. Ela e o meu marido estão agora com ela em Nova Iorque. Na altura em que fui fazer o Crazy Heart, o Peter (Sarsgard) tinha uma peça aqui em Londres e eu estava sozinha com a Ramona e a nanny que era uma miúda de 22 anos. Nessa altura percebi logo que necessitava de ajuda.

Acha que agora é mais difícil deixá-la?

Não, pelo contrario. Quando estava no berço era pior, pois tinha de estar sempre perto de mim pois tinha de dar-lhe de mamar. Quer usasse uma bomba ou não. É uma criança que necessita de ter a sua mãe. Mas a Ramona já tem três anos e meio.

E para a mãe, é mais fácil ou mais difícil estar longe dela?

Para mim? É sempre difícil, claro! Mas é mais fácil para ela, à medida que o tempo passa. Mas há sempre uma troca. Será que é melhor trazê-la para Londres, com este tempo incerto? Viajar mais de 10 horas e ter os horários trocados? Só para estar perto de mim? Não sei… É difícil.

Imagino que seja ainda muito cedo para ter em casa o “estado de guerra” que vemos no filme. A Ramona já teve “festa de pijama” com as amiguinhas?

Não, ainda é cedo. Como eu digo, é sempre uma troca. Há sempre um compromisso. Cada mãe tem sempre algo da Sra. Green no sentido de se perder no caos. Mas desde que tenhamos também a outra parte da Sra Green, com mais compaixão, estamos bem. Qualquer mãe que diga que é fácil, não estará a falar verdade.

E para o pai, será  que é assim tão difícil?

Eu dou o exemplo da minha família: a minha avó era médica, a minha mãe é argumentista, uma feminista que acreditava que ambos os pais deveriam partilhar responsabilidades em partes iguais. Acho que tentaram fazer isso. Agora eu acho que isso é impossível. A mãe tem responsabilidades que dificilmente lhe escapam. O meu marido é muito atencioso e participativo, mas na minha experiência é que a mãe tem mais trabalho.

Está  a ver-se com cinco filhos como a Sra. Green?

Cinco filhos?! (risos) Não sei, não acredito. Mas o mais importante é que deveremos conseguir reter os nossos filhos na nossa mente o tempo todo. Se conseguimos reter dois filhos, isso é óptimo. Eu acho que se conseguir treinar a minha mente o suficiente poderei lá chegar. Mas cinco? É-me impossível (risos)…

Gostei imenso dos animais no filme? A sua filha teve oportunidade de os ver?

Ela veio ao set. Sim, foi divertido, porque todos traziam os filhos. A Emma (Thompson) trazia guloseimas e brinquedos, Foi muto divertido. Mas eu trabalhei com os leitõezinhos, isso foi giro.

A Ramona já  tem a noção do que a mãe faz?

Acho que não tem a noção. É muito jovem ainda.

O que vai fazer com esse lado criativo? Irá alimentar a veia artística da família?

Não sei, ela fará o que entender. Ela é muito esperta. É muito rápida. Acho que terá muitas oportunidades. Vejo que o cérebro dela é muito poderoso.

Consegue comparar a sua personagem com a de Crazy Heart (o filme que lhe deu uma nomeação ao Óscar de Melhor Actriz Secundária)?

Por acaso, eu até sou um pouco como a Sra Green. Gosto desses rituais caseiros. Não sei muito bem o que faço para entrar em cada personagem. Acho que me preparo mentalmente e depois deixo-me ir.

Foi muito difícil entrar na personagem de Crazy Heart?

Nem por isso, foi tão difícil como os outro papeis. O que foi espantoso é que senti imensa liberdade. Ao contrário deste em que existe muito rigor, muitos efeitos especiais, temos animais… O timming é muito preciso. Em Crazy Heart era talvez mais emocional. O mais difícil foi o crescente de emoção.

É interessante é que em ambos os filmes lida com crianças, e especialmente para si neste momento. Sentiu essa proximidade?

O que acho é que em Crazy Heart ela começa por estar muito ligada á sua criança e depois passa a estar ligada no Bad Blake (Jeff Bridges que viria a ganhar o Óscar). E sente-se bem com isso. Até que é sobressaltada com o desaparecimento do filho. Até essa altura eu centrava-me muito no Jeff e não no miúdo. Não pensei muito nela como mãe, mas como mulher que precisava de sensualidade na sua vida. A Sra. Green é sempre uma mãe, a mãe que todos conhecemos.

Como se sentiu naquela casa de campo tipicamente britânica? Era capaz de viver assim?

Não sei. Por acaso recentemente tenho sentido essa vontade de construir uma casa, de estar nela, de sentir o meu espaço, pois é algo que nem sempre acontece, com toda esta movimentação entre filmes.

Costuma cozinhar?

Cozinho muito bem. Ambos os meus pais cozinham. Acho que isso é de família.

E o seu irmão  (Jake Gyllanhaal) também?

O Jake? Cozinha muito bem. Aliás, eu acho que ele é tão bom cozinheiro quando é actor.

Uau. Deve ser mesmo bom…

É mesmo bom!

Quais são as especialidades dele?

Ele é capaz de fazer tudo. Ele lê livros de cozinha, é fantástico. Eu sou boa, mas ele é fenomenal.

O que é que ele faz quando quer impressionar os seus convidados?

Tenho treinado em fazer um bom osso bucco. Faço-o no forno, tostado, vinho branco, muito alho e papel de prata. É a receita do livro de cozinha do restaurante River Café em Londres.

Quando encara a sua carreira, percebemos o seu enorme sucesso. Mas o que pensava dela quando estava ainda no início?

Acho que o que eu quero se altera com o tempo. Quando era mais jovem, não queria saber se alguém gostava dos meus filmes…

… como Secretária?

Sim. O que quero dizer é que fazia apenas o que achava interessante.

Mas isso mudou?

Sim, quero que as pessoas vejam os meus filmes.

Óptimo, fico mais descansado… (risos)

Sim, acho que isso vem com a experiência. Acho que também estou mais comportável com o poder em sermos conhecidos. Agora estou mais interessada em desenvolver projectos. Queria abrir portas para quem vê o mundo de forma diferente. Eu tenho esta profissão porque quero afectar as pessoas.


Como foi que recebeu a sua nomeação para o Óscar? Foi um choque? Onde estava?

Eu estava na Califórnia? O Peter estava a trabalhar lá. Foi um choque, sim, mas acho que sabemos quando estamos na “corrida”. Foi óptimo, uma boa surpresa. Senti que me queria divertir. E diverti-me.

O seu agente tem recebido muitos projectos?

Eu tenho recebido algumas propostas, mas não decidi ainda o que vou fazer a seguir. Tenho também interesse em desenvolver projectos. Eu leio muitas coisas que não funcionam…

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