Estreia mundial de “Cinema Kawakeb” no Doclisboa revela a luta por manter viva uma sala de cinema

(Fotos: Divulgação)

O ecrã do Cinema São Jorge, em Lisboa, acolheu na noite de sábado, integrado na Competição Internacional do Doclisboa, a estreia mundial de Cinema Kawakeb, um documentário de Mahmoud Al Massad que acompanha a lenta agonia de uma sala de cinema no centro de Amã, na Jordânia. O desentendimento entre dois irmãos — um com 60% da sala, o outro com 40% — aliado a maus investimentos, impediu a reabertura do espaço no pós-pandemia, deixando quem lá trabalhava, incluindo o projecionista, a servir de segurança até hoje. Pelo meio, o cineasta revela a construção do seu próprio documentário e do ato de fazer cinema, desde a busca de atores ao grito de “ação!”, passando pelos diversos elementos da pós-produção, como a montagem e a correção de cor, num verdadeiro guião passo a passo de como fazer um filme.

Desculpem o atraso, mas fiquei retido no aeroporto à espera das malas”, disse Mahmoud Al Massad ao público presente na sala 3 do cinema lisboeta, que não teve oportunidade de assistir à introdução habitual do filme. O atraso acabou por se tornar uma metáfora perfeita para uma obra feita de esperas, de tempos suspensos e de persistência — tanto dos homens que “defendem” o espaço da pilhagem, como do cineasta que engendrou o filme e demorou cinco anos a completá-lo.

Massad contou que, se ainda estivesse nos seus vinte anos, nunca se teria exposto assim num filme, mas que a ideia surgiu do seu montador e amigo: “Ele quis mostrar a luta que é fazer um documentário.” O resultado é uma obra que se dobra sobre si mesma — um filme dentro de outro filme, onde o processo de filmar é mostrado igualmente como um ato de resistência.

“Fazer cinema não é glamour, nem passadeira vermelha”, disse o realizador. “Um documentário é um verdadeiro desafio. Este projeto demorou-nos uns cinco anos a concretizar. Tinha mais de 200 horas de gravações, imaginem.

O número impressiona, mas o que sobressai é a densidade humana dos homens que vemos num espaço agora moribundo e a ameaça do fim do cinema como espaço de partilha e de encontro social. A dimensão política não fica de fora: a questão palestiniana, que afeta diretamente a Jordânia, tem particular atenção, afastando qualquer investidor da região. “Quanto ao conflito, à questão palestiniana — é algo que vai crescendo devagar, e nem sempre se percebe para onde caminha. Fazemos guerra, depois paz, e voltamos à guerra.” Num momento de desabafo, acrescentou: “Hoje vi uma imagem dos escombros em Gaza — diziam que eram vinte vezes maiores do que as pirâmides. É inacreditável.

Esse olhar desencantado atravessa o filme, mas há nele também ternura. Massad continua a visitar os protagonistas da história — os funcionários e o cliente fiel do cinema que tenta sobreviver. “É estranho, sinto-me ligado a eles. Quando vou ao centro da cidade, tenho sempre de passar por lá. É como se tudo tivesse ficado suspenso.” Este cinema, no fundo, é uma ruína habitada, um organismo que respira enquanto morre.

O realizador contou ainda como a montagem, conduzida durante oito meses, acabou por reinventar o filme: “O montador disse-me logo: ‘Vou tentar uma coisa diferente, mas não prometo nada.’ E assim foi — todos os meses testava novas ideias, até que, no fim, funcionou.” O resultado final mistura o presente da rodagem com a história da própria sala de cinema e dos homens solitários que lá continuam. “Acabámos por não falar apenas de cinema, mas também da memória do próprio cinema”, explicou.

Questionado sobre o estado atual do cinema jordaniano, tanto na produção como na distribuição, Massad foi direto: “Há cinemas em centros comerciais, sim, mas o cinema cultural desapareceu. O último foi construído nos anos 1940.” Ainda assim, há esperança: “Nos últimos dez anos surgiram jovens realizadores com muito talento — filmes independentes que chegaram a Cannes, San Sebastián, Sundance, até aos Óscares. Tudo feito com enorme esforço pessoal.

A sessão terminou com gargalhadas ao recordar o final do filme, em que um momento de tensão se transforma em comédia. “Queríamos algo sério, mas acabou por sair naturalmente cómico — é o nosso humor”, riu-se Massad. “Estávamos a filmar, o tipo estava a conduzir e quase nos matou, e ele só ria e dizia: ‘Não te preocupes, não tenhas medo.’ E eu só pensava: isto é mesmo a vida — e o cinema — na Jordânia.

Cinema Kawakeb é pois uma meditação sobre o que persiste quando tudo parece prestes a desaparecer. Um filme sobre o amor ao cinema — o das películas, dos cartazes, das cadeiras e da tela, mas também das rodagens e produção — feito com as mãos sujas de pó, e de esperança, por entre gatos bebés e lixo acumulado. Tudo apresentado num festival onde o público respondeu com aplausos sentidos.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/wzm5

Últimas