Naomi Kawase e a urgência de falar sobre vida e morte no Japão

(Fotos: Divulgação)

Conhecida pelo seu estilo intimista, poético e de forte conexão com a natureza, Naomi Kawase (Nara, 1969) tem sido uma das raras cineastas japonesas a conseguir singrar numa carreira internacional no cinema e no circuito global dos festivais. 

Explorando temas como o ciclo da vida e da morte, e a ligação entre gerações, os primeiros trabalho da realizadora foram documentários — como Embracing (1992) e a chamada “Trilogia da Avó” (Katatsumori, 1994; See the Heaven, 1995; Sun on the Horizon, 1996).

Transitou para a ficção com Suzaku (1997), vencedor do Caméra d’Or em Cannes, onde se tornou na realizadora mais jovem a receber o prémio. Seguiram-se várias presenças em Festival de Cannes, com títulos como The Mourning Forest (2007), Still the Water (A Quietude da Água, 2014), An (Uma Pastelaria em Tóquio, 2015) e Vision (Visão, 2017).

Em 2020, estreou mundialmente True Mothers (As Verdadeiras Mães) em Toronto/San Sebastián, apesar de fazer parte da seleção oficial de Cannes, num ano em que a pandemia cancelou a forma habitual do certame. Em 2024, apresentou em Locarno o seu mais recente projeto: L’Illusion de Yakushima, protagonizado por Vicky Krieps no papel de Corry, uma coordenadora pediátrica francesa enviada para um hospital no Japão com o objetivo de modernizar o serviço de transplantes — um tema ainda tabu no país.

Em entrevista ao C7nema logo após a estreia mundial do seu filme, Kawase falou da necessidade em abordar duas tristes realidades japonesas: os milhares de desaparecimentos anuais e a resistência cultural à doação de órgãos. É através do olhar de uma estrangeira que a cineasta procura reafirmar o cinema como espaço de encontro num mundo cada vez mais dividido. E lembrou-nos que precisamente no dia da entrevista, há 80 anos, a Segunda Guerra Mundial terminava no Japão.

Naomi Kawase

Por que razão os temas abordados neste filme são tão importantes para si? 

A verdade é que, no Japão, os temas dos transplantes e das pessoas desaparecidas são profundamente sentidos. A situação é muito diferente da que se vive na Europa ou nos EUA, onde não se regista o mesmo fenómeno.

No Japão, por exemplo, cerca de 100 mil pessoas desaparecem todos os anos – um número muito elevado. Além disso, existe no país uma ideia enraizada de uma raça única, um povo homogéneo num espaço geográfico relativamente pequeno, um arquipélago. Por causa disso, há uma forte pressão social para que todos se comportem de uma certa maneira.

Quando alguém sente que está a desviar-se da norma, ou que não consegue cumprir essas expectativas, muitas vezes escolhe simplesmente desaparecer. É por isso que temos este número tão alto de pessoas desaparecidas.

Ao mesmo tempo, no que respeita aos transplantes, o Japão é o país desenvolvido com o menor número de doadores do mundo. Isto acontece também por razões culturais: no Japão, a morte cerebral não é geralmente considerada como morte. 

Há uma citação no filme que aborda exatamente isso…

Exato. Na prática, no sistema médico japonês, a única forma aceite de morte é a morte cardíaca. Assim, se uma criança, infelizmente, estiver em morte cerebral, mas ainda tiver o corpo quente – ou seja, o coração ainda bater –, a decisão de desligar a máquina e permitir a doação de órgãos cabe exclusivamente à família, aos pais. Não é a lei nem o Estado que decide, mas sim os progenitores.

É por isso que o número de doadores é tão baixo. E foi a partir desta realidade que pensei fazer este filme como uma forma de fazer duas coisas com uma só jogada. Por um lado, ajudar os japoneses a perceberem melhor a sua própria realidade; por outro, permitir que o resto do mundo compreenda o que se passa no Japão.

E fiz isso através dos olhos da personagem Kori, a protagonista, que vem de fora do Japão – trazendo assim um novo olhar, uma perspetiva estrangeira. Ao mesmo tempo, ajuda a distribuir o filme internacionalmente. Tenho esperança de que esta visibilidade possa ajudar a melhorar a situação no Japão, criando pontes e conexões. É isso também que o filme pretende: criar conexões, depois de tantas divisões que vivemos no mundo.

Há uma cena em que vários médicos e especialistas estão a falar da questão dos transplantes, expondo aos espectadores a realidade e barreiras japonesas sobre o tema. São atores a fazerem de médicos, ou são realmente médicos?

Quase todos são médicos de verdade. Não havia guião para essas cenas. Eles estavam simplesmente a partilhar as suas opiniões e experiências, a explicar-nos como é pensado o tema dos transplantes no Japão. Foi uma espécie de depoimento direto.

Na verdade, não são só médicos. Há também jornalistas especializados em temas médicos, cirurgiões que realizam operações, pediatras, obstetras, e até membros do Ministério da Saúde do Japão. Também estão médicos das urgências.

O que é interessante é que, na realidade, é muito difícil, em circunstâncias normais, que todos estes profissionais se juntem na mesma sala para conversar livremente. No filme, criei a situação em que a personagem da Corry convida todos, pedindo-lhes que expliquem a situação.

Mas o que eu realmente quis com este filme foi reunir essas pessoas, dar-lhes a oportunidade de falarem entre si, de forma aberta e honesta. E foi exatamente isso que aconteceu durante as filmagens.

Ao longo da sua carreira, tem abordado frequentemente as tradições japonesas que entram em conflito com a modernidade. Há progressos nesse sentido pu o Japão continua muito conservador?

É uma boa pergunta. É difícil dizer se há mesmo progresso. Acho que a forma de pensar mudou muito na geração dos meus filhos. Mas acredito que ainda vai demorar pelo menos dez – talvez trinta anos – até que essas mudanças se traduzam em posições de liderança.

Claro que há progresso, mas a velocidade é extremamente lenta. No Japão, somos um povo com uma forma de pensar nacional muito marcada. Quando alguém se desvia dessa norma, é atacado, criticado, humilhado verbalmente. E muitas vezes, essa pessoa acaba por desaparecer – literalmente.

Essa realidade ainda persiste. E também devemos pensar na posição da mulher no Japão. As oportunidades para as mulheres são as mais baixas entre todos os países desenvolvidos.

Para dar um exemplo: o Japão nunca teve uma mulher como primeira-ministra. A minha cidade natal é Nara – e em Nara, nunca houve uma mulher como vereadora. Não há mulheres em posições de destaque, de liderança. Isso ainda está profundamente arraigado na cultura japonesa.

Mas, comparando com os tempos da minha infância, as coisas mudaram. Ainda assim, acredito que vamos precisar de esperar mais dez, vinte, talvez trinta anos para ver uma mudança real.

Naomi Kawase e Vicky Krieps em Locarno

Relacionado com isso: como é que a senhora consegue financiamento para filmes que desafiam tradições? É mais fácil conseguir apoio na Europa?

Neste caso específico, sim. O parceiro francês – e, por extensão, europeu – mostrou grande interesse no tema. Foi assim que o projeto começou. Mas, como mencionei, todos os profissionais do sistema de saúde japonês sentiam uma necessidade real de poder conversar entre si sobre este assunto.

Estavam à procura de uma oportunidade – e este filme deu-lhes essa oportunidade. Também ajudou a sensibilizar o público japonês para a importância do tema.

Quando falei com a Vicky Krieps, ela disse que a senhora é muito meticulosa com os atores, que quer que eles se tornem as personagens. É assim em todos os seus filmes?

A Vicky é uma atriz maravilhosa. No set, estava completamente imersa na personagem – tanto que as emoções dela eram intensas, estava profundamente triste, deprimida. Foi difícil cuidar dela, porque ela vivia a dor da personagem em cada momento.

Mas a nossa equipa, a equipa Kawase, está habituada a este tipo de envolvimento. Queremos que o filme seja o mais realista possível. Por isso, damos todo o nosso apoio aos atores – porque queremos que eles entreguem tudo, alma e coração.

Não fugimos do desafio. Queremos ir até ao fim. Há um ano, fizemos a primeira rodagem. Hoje, estamos a fazer a antestreia oficial do filme. Sinto que é destino.

E hoje é também o dia em que a Segunda Guerra Mundial terminou no Japão – o 80.º aniversário. Para os japoneses, é um dia profundamente marcante. A guerra criou divisões em todo o mundo. Agora, após a pandemia, temos novas guerras que também criam divisões.

Não acho que tudo isto seja coincidência. Há uma ligação. É por isso que é tão importante que hoje venha do Japão uma mensagem de esperança – uma mensagem que mostre que é possível seguir em frente, construir uma vida, criar esperança.

O filme mostra muitas crianças doentes. Como evitou cair em lugares-comuns ou numa abordagem sensacionalista?

No Japão, há uma forma muito cliché de filmar crianças doentes. Desta vez, quis fazer diferente. Focámo-nos em criar o realismo.

Alugámos um andar inteiro de um hospital. A equipa da direção artística transformou-o. As crianças – atores – vinham todos os dias, vestiam pijamas, usavam soro, gotas nos olhos, e passavam o dia inteiro no set como se estivessem realmente hospitalizadas.

Elas não podiam sair. Tiveram de fazer amizade entre si, dentro desse espaço. Havia também aulas – como na cena em que Corry ensina “bonjour” e as crianças respondem. Havia um professor no local.

Viviam exatamente como se estivessem num hospital real. Queria que sentissem essa realidade, para que a sua atuação fosse o mais autêntica possível.

L’Illusion de Yakushima

O filme tem segmentos em francês. Como foi gerir essa questão linguística?

A Vicky Krieps nasceu no Luxemburgo e viveu parte da vida na França. O francês dela estava um pouco enferrujado – e foi exatamente essa realidade que usámos. Criámos uma regra: ela podia ter um sotaque ligeiro, porque não era francesa de nascença.

Inicialmente, pensei em fazer o filme em inglês, mas no fim entrou uma televisão francesa e precisei de reescrever tudo em francês. Tive de explicar aos atores japoneses que a língua principal ia mudar.

Mas acho que resultou bem. Os japoneses entendem o que Corry diz em francês – é mostrado como algo natural, sem estranheza. Durante o filme, as personagens japonesas vão tendo oportunidades de perceber o francês, e a interação flui de forma suave.

Foi essa a intenção – e a resposta que tivemos foi positiva: ninguém achou estranho.

Agora que filmou em francês, pondera fazer um filme fora do Japão? Em França?

Gostaria de fazer um filme um pouco mais profundo do que os que costumo fazer. Mas, por enquanto, acho que será no Japão – porque é o meu território, é onde me sinto mais enraizada.

No mundo atual, o cinema não se limita às salas de cinema. Existem também as plataformas de streaming. Em termos de receitas, a diferença pode ser mais do que triplicada.

Se um filme não tem distribuição tradicional, mas é lançado diretamente numa plataforma como a Netflix, pode chegar ao mundo inteiro num instante, com grande visibilidade.

Portanto, sim, é algo que estou a considerar. Talvez seja o caminho a seguir. Mas, acima de tudo, quero regressar às minhas raízes – e explorá-las ainda mais.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/wndi

Últimas