Depois de ter estado em destaque no Festival de San Sebastián (2019) com uma retrospetiva e em Locarno (2023), inserido numa exibição mais ampla dedicada ao cinema mexicano dos anos 1940-60, a Cinemateca Portuguesa vai dedicar, em setembro um ciclo ao mexicano Roberto Gavaldón (1909-1986).
Através da exibição de 22 filmes, distribuídos por 30 sessões, a Cinemateca corrige assim uma longa omissão — até hoje, apenas quatro dos filmes do cineasta tinham sido exibidos no país.
Nascido em Jiménez, México, Roberto Gavaldón construiu um corpo de obra que foi muito além do rótulo de “realizador de melodramas“. Ao longo de cinco décadas, navegou frequentemente entre géneros — do noir ao western, do musical à fábula fantástica — mantendo uma voz autoral onde o melodrama (muitas vezes sombrio) não era apenas uma ferramenta de apelo sentimental, mas uma forma de denunciar as desigualdades, expondo as tiranias cotidianas e os mecanismos sociais que condicionavam o indivíduo.

Amor, inveja, ciúme, cobiça e tragédia permeiam frequentemente o seu cinema, bem como a presença de protagonistas que não conseguem escapar ao destino, nem às assimetrias sociais. Mostrando uma ligação fortíssima a um povo humilde, onde a integração de música popular se sente orgânica, o Gavaldón recorreu frequentemente a tempestades (Sombra Verde, En la palma de tu mano, La Diosa Arrodillada ou La Otra), além de espelhos e sombras (La Otra), como metáfora para o turbilhão emocional em cena.
O ciclo destaca também a relação do realizador com algumas das maiores estrelas do cinema mexicano: María Félix, em La Diosa Arrodillada (1947) ou Camelia (1954); Pedro Armendáriz, em Rosauro Castro e La Escondida (1956); Dolores del Río em La Otra e Deseada (1951); e Cantiflas, em Dom Quixote cabalga de nuevo (1972).
A colaboração com escritores como Gabriel García Márquez e Carlos Fuentes em El Gallo de Oro (1964), o filme inaugural do ciclo, mostra a atenção de Gavaldón com as correntes literárias da América Latina, integrando o realismo mágico e a crítica social.
Em filmes como Rosauro Castro (1950), uma feroz denúncia do caciquismo rural, ou Rosa Blanca (1961), que expõe a exploração petrolífera norte-americana no México, o realizador transforma o conflito pessoal em drama político. Proibido no país, Rosa Blanca teve o seu lançamento adiado até 1972.

Já Macario (1960), um ano antes, baseado numa história de B. Traven – um escritor que também deu a John Huston a sua inspiração para O Tesouro da Sierra Madre –, é uma das suas fábulas sociais e fantásticas mais importantes, com a fome, as desigualdades e a morte em destaque, naquele que seria o primeiro filme mexicano nomeado ao Oscar. Esta década foi aquela em que Gavaldón confrontou principalmente as questões sociais e políticas, com em Días de Otoño, com a dupla de atores de Macario, Ignacio López Tarso e Pina Pellicer. Aí narrava a história de uma mulher abandonada pelo noivo que, por vergonha, diz a todos que casou.
Na década de 1970, Roberto Gavaldón concretizou alguns filmes que mostraram diferentes facetas do seu universo autoral. Na Cinemateca, só um deles será exibido, Dom Quixote cabalga de nuevo (1972) — uma coprodução hispano-mexicana — onde reimagina o clássico de Cervantes com um toque de sátira social.
Seguiram-se La madrastra (1974), onde regressa ao território do melodrama familiar, explorando as tensões domésticas e os segredos reprimidos. Em La playa vacía (1977), inspirado na peça com o mesmo nome, submerge um tom mais introspectivo e lírico, abordando o isolamento, o envelhecimento e o passar do tempo através de uma história no final do verão, quando uma mulher madura, Victoria, teme a solidão do inverno e encontra companhia em Pablo, o jovem do motel.
Roberto continuou a trabalhar até 1979, quando realizou o seu último filme, Cuando tejen las arañas, um drama sobre uma jovem, Laura, e a sua repressão sexual. De classe alta, esta mulher volta do exterior e é abalada por segredos familiares.
O cineasta faleceu na Cidade do México em 1986.
Lista das Sessões
Segunda-feira, 1 de setembro – 16h30 | Sala M. Félix Ribeiro
EL GALLO DE ORO (1964)
Segunda-feira, 1 de setembro – 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
ROSAURO CASTRO (1950)
Terça-feira, 2 de setembro – 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
MIÉRCOLES DE CENIZA (1958)
Quarta-feira, 3 de setembro – 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
LA OTRA (1946)
Quarta-feira, 3 de setembro – 19h30 | Sala Luís de Pina
ROSA BLANCA (1961)
Quinta-feira, 4 de setembro – 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
LA NOCHE AVANZA (1952)
Sexta-feira, 5 de setembro – 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
DIAS DE OTOÑO (1963)
Sábado, 6 de setembro – 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
MACARIO (1960)
Segunda-feira, 8 de setembro – 16h30 | Sala M. Félix Ribeiro
DON QUIJOTE CABALGA DE NUEVO (1972)
Segunda-feira, 8 de setembro – 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
SOMBRA VERDE (1954)
Terça-feira, 9 de setembro – 19h30 | Sala Luís de Pina
LA ESCONDIDA (1956)
Quarta-feira, 10 de setembro – 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
DESEADA (1951)
Quarta-feira, 10 de setembro – 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
AQUÍ ESTÁ HERACLIO BERNAL (1958)
Quinta-feira, 11 de setembro – 19h30 | Sala Luís de Pina
ROSAURO CASTRO (1950)
Sexta-feira, 12 de setembro – 19h30 | Sala Luís de Pina
LA DIOSA ARRODILLADA (1947)
Sábado, 13 de setembro – 19h30 | Sala Luís de Pina
EL REBOZO DE SOLEDAD (1962)
Segunda-feira, 15 de setembro – 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
CAMELIA (1954)
Terça-feira, 16 de setembro – 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
RAYANDO EL SOL (1946)
Quarta-feira, 17 de setembro – 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
LA DIOSA ARRODILLADA (1947)
Quarta-feira, 17 de setembro – 19h30 | Sala Luís de Pina
LA OTRA (1946)
Quinta-feira, 18 de setembro – 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
EL SOCIO (1946)
Sexta-feira, 19 de setembro – 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
LA ESCONDIDA (1956)
Sexta-feira, 19 de setembro – 19h30 | Sala Luís de Pina
LA NOCHE AVANZA (1952)
Quarta-feira, 24 de setembro – 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
FLOR DE MAYO (1959)
Quinta-feira, 25 de setembro – 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
ACUÉRDATE DE VIVIR (1953)
Sexta-feira, 26 de setembro – 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
EL REBOZO DE SOLEDAD (1962)
Sexta-feira, 26 de setembro – 19h30 | Sala Luís de Pina
LA OTRA (1946)
Sexta-feira, 26 de setembro – 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
ROSA BLANCA (1961)
Sábado, 27 de setembro – 19h30 | Sala Luís de Pina
DESEADA (1951)
Terça-feira, 30 de setembro – 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
HAN MATADO A TONGOLELE (1948)

