Sandro Veronesi preside o júri de Küstendorf: a literatura reverencia as curtas-metragens

(Fotos: Divulgação)

Durante a longa conversa que teve com o C7nema, numa mesa do restaurante Visconti, num resort da vila de Mokra Gora, na Sérvia, o escritor italiano Sandro Veronesi interrompia a conversa delicadamente sempre que esbarrava com alguma palavra da sua pátria natal que pudesse ter correspondência com a língua portuguesa. Ao falar do seu novo livro, “Setembro Negro”, o romancista nascido em Florença, há 64 anos travou na palavra nero, a fim de compreender como ela é dita em português. Veronesi ganhou uma das mais disputadas honrarias literárias europeias – o prémio Strega – por “Caos Calmo”, filmado em 2008 com Nanni Moretti como protagonista. Publicou ainda “Profecia” e “XY”, que foram aclamados pela crítica também. Falar sobre a precisão de verbetes e vocábulos atiça a curiosidade do autor de “O Colibri”, filmado em 2022 por Francesca Archibugi. O romancista foi convidado por Emir Kusturica para compor o júri da sua maratona cinematográfica – o Festival de Küstendorf, ao lado da atriz e modelo sérvia Bojana Panić e do realizador e produtor cazaque Muzaffarkhon Erkinov.

O aspeto mais interessante de um festival feito por um criador de obras-primas, como é o caso de Kusturica, é o valor que ele dá às curtas-metragens”, diz Veronesi, a destacar o facto de a competição oficial de Küstendorf se concentrar em pílulas cinematográficas que não passam de 20 minutos.

A tarefa dele, de Bojana e de Erkinov foi julgar uma leva de curtas que andam a brilhar no Velho Mundo. O programa inicial reúne:  “I Promise You Paradise”, de Morad Mostafa; Hikuri, de Sandra Ovilla León; “On The Silk Road”, de Sherzod Nazarov; “Silhouette”, de Savva Dolomanov; “Duck Roast”, de Jelica Jerinic; “Violet Country”, de Mikhail Gorobchuk. O segundo programa inclui “Lemon Tree”, de Rachel Walden; “Short Cut Grass”, de Davi Graso; “Bye, Bye Bowser”, de Jamin Baumgartner; “The Last Shift”, de Askr Unaev; e “9-5”, de Masa Sarovic. Já o último bloco das curtas traz “Highway of a Broken Heart”, de Nikos Kyritsis; “Madden”, de Malin Ingrid Johansson; “mise à nu”, de Simon Maria Kubiena e Lea Marie Lembke; “Shanti”, de Vivek Rai; “Only The Devil Hates Water”, de Lidija Mojsovska; e “The Creature”, de Damian Kosowski. 

As minha expetativas são altas pois por aqui passam curtas que se destacam nos Óscares, reunidos por um cineasta que é expoente de uma produção que pouco conhecíamos, como a sérvia. Este festival prova que o formato curto é cinema dos grandes”, diz Veronesi, que escreveu o guião e uma versão romanceada (já à venda em livro, em Lisboa) de “Comandante”, filme de abertura do Festival de Veneza.

A longa-metragem de Edoardo de Angelis (do premiado “Indivisibili”) recria a II Guerra Mundial sob os códigos de um filão de género que é um imã de sucesso, vide “Crimson Tide -Maré Vermelha” (1995) e “Hunt of The Red October- Caça ao Outubro Vermelho” (1990): os filmes passados num submarino. Mas o seu maior chamariz é a atuação do romano Pierfrancesco Favino. Cabe a ele dar vida ao oficial militar Salvatore Todaro (1908-1942), famoso pelo seu humanismo no mar. 

Pierfrancesco Favino em “Comandante”

Fizemos umas cinco versões, em plena pandemia, quando eu acreditava que uma história com 70 personagens dentro de um submarino jamais pudesse ser contada. Não havia nem onde exibirmos essa narrativa, com os cinemas fechados. Foi quando sugeri ao Edoardo que escrevêssemos um romance a partir do material que tinha, expandindo as situações, de modo a explorar outras personagens. A versão cinematográfica que será vista nasceu de versões de guião derivadas desse romance”, diz Veronesi, que avalia sua relação com a literatura de forma crítica. “Não tenho interesse em inovar nada. Joyce, Proust, Beckett… essa gente enveredou pelo território da invenção. Mas existem excelentes escritores que não renovaram nada, só contaram bem suas histórias. O meu interesse é contar o que sinto da minha forma, preocupado com as palavras precisas”.

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