Entrevista a Viggo Mortensen (Um Método Perigoso)

(Fotos: Divulgação)

Pedia-se um tom freudiano – sério – para escalpelizar as nuances psicanalíticas no final do século XIX, entre Freud e Jung, a propósito do filme A Dangerous Method, de Cronenberg. Mas acabou por ser tornar numa conversa de rédea solta. Onde se falou de tudo. De Freud, da criação das personagens de com Viggo Mortensen. Mas também de bola, de Cristiano e de Mourinho.

Para onde quer que vá, o suave Viggo não vai sozinho. Para além da caneca especial para sorver chá matte, leva também no coração o seu team. Naquela manhã solarenga na ilha do Lido, em Veneza, deu-se até ao trabalho de preparar uma toilette que incluía as cores do San Lorenzo, a equipa de futebol de que é grande aficionado. Na mão, um saco do clube e um pin, na lapela. Algumas horas antes, na conferencia de imprensa, fez-se acompanhar por um peluche do clube, oferecido por um fã. Pode parecer, mas não é para falar de bola que aqui estamos. Ainda que esta lá saltite, de quando em vez, entre a conversa sobre A Dangerous Method. Atentemos então no que diz este homem que investigou tudo o que havia para saber para ser um Sigmund Fred muito convincente.

Diria que o sexo vem sempre à baila quando se trata de Freud?

Não. Acho que não. Talvez por ser numa altura em que não se fala disso, acabou por chamar mais a atenção. Hoje, a forma como as pessoas falam da sua vida, da sua adolescência, acham normal abordar esse tema. Mas no século XIX, em Viena, as jovens da altura não eram autorizadas a falar disso e muito menos saber como era o corpo nu de um homem. Os homens poderiam falar, mas isso acabava aí. 

No filme parece até que esta abordagem ao sexo se devia à obsessão que o Freud tinha pelo sexo…

É uma frase engraçada, mas não sei se era verdade. Ainda que tivesse uma família numerosa. Teve estar relacionado.

Disse um dia que gosta de ocupar os espaços da personagem que não estão no guião. Acha que neste caso, isso também aconteceu?

Sim, mas acho que havia muito mais material para explorar. Mas ainda bem que pude investigar o local onde viveu e ler uma série de livros que poderia ter na sua biblioteca. Gostei muito dessa pesquisa. 

Sentiu que este foi também um Cronenberg diferente daqueles que fez antes?

Sim. Mas percebo agora que nos primeiros dez, quinze minutos de cada um dos três filmes que fiz com ele, fico sempre incomodado e desconfortável. E fico até sem perceber se acredito no que se está a passar. E começa com a Sabina Spielrein (Keira Knightley) num seu estado deplorável. Há quem diga que é exagerado, mas já sofreu desse problema, sabe que pode ser ainda pior. Por isso, não é um excesso da Keira, mas uma grande interpretação. E esse momento antecipa aquilo que vamos ver.

Ainda que aqui não existam cabeças a explodir…

(risos) Sim, mas se formos a ver até existem, mas de modo mais velado. O que acontece é que ele força-nos a olhar para o mundo de acordo com a perspectiva dele. É um verdadeiro autor, ainda que este guião não seja original.

O Freud escrevia muitas cartas. Também escreve cartas ou envia apenas sms?…

Não, escrevo muito. É outra coisa, uma linguagem diferente. Acho mesmo que aprendemos muito a escrever. A mim acontece-me. Por exemplo, eu escrevi todas as cartas dele. Todas as cartas que são lidas no filme foram escritas por mim. 

Foi o mesmo com o guarda-roupa?

Sem dúvida. O Freud poderia ser muito revolucionário – e tinha, de facto, todas essas ideias revolucionárias sobre o sexo, mas era muito antiquado. Ele manteve o mesmo guarda-roupa a vida inteira. E até a sua casa era antiquada, com a excepção do escritório.

A propósito da sua personagem de Freud, gostaria de saber se a arte de representação pode significar também uma espécie de terapia?

Depende da forma como é abordada. Há muitas formas de preparar um papel. Eu gosto de saber o mais possível sobre a personagem.  Meu papel é esse, encontrar coisas e estar preparado. Enquanto actor, procuro olhar para o mundo de ângulos diferentes. E não apenas de um ângulo que se torna necessariamente rígido como tempo. A verdade é que o cinema está muito ligado à psicanálise.

Como adepto do futebol, acha que também aí podemos ter essa dimensão?

(risos)… Depende. Sim, podemos sofrer muito. Mas temos também os momentos de grande alegria.

Como está o seu San Lorenzo?

Está bem, de momento. 

Está actualmente a viver em Madrid?

Sim.

Teve já a oportunidade de ver o Real Madrid?

Muitas vezes, sim. 

Mas continua a preferir o Messi ao Ronaldo…

Prefiro o Real Madrid, apesar dos meus melhores amigos serem do Barcelona. E adoro o Messi, claro. É um génio. Mas o Cristiano Ronaldo tem tudo. Tudo. O problema é que o ego dele não funciona tão bem…

E o Mourinho, o que acha dele?

O Mourinho é o ogre dos treinadores de futebol. 

Ups, acho que não posso publicar isso. Bom, se calhar até posso…

Porquê, é de Portugal?

Sim, sou.

Olha que escrevi muito sobre ele no meu site. Adoro o Real Madrid, mas… Tudo o que o Mourinho faz é premeditado, isso combinado com uma falta de controlo. E nunca sabemos qual o lado que está predominante. Mas acho que o Real Madrid vai encontrar maneira de ganhar o campeonato. Eles têm uma excelente equipa e encontraram o ritmo certo. 

Julgo que também pinta e escreve… 

Tudo depende do que queremos fazer. Ainda que seja sempre um processo esgotante. Só quando encontramos o caminho é que tudo se torna mais claro. Suponho que seja o mesmo quando entrevista alguém e descobre um ponto de vista que irá ser decisivo… É aí que procura mais informação. No meu caso, seja interpretação ou escrita, é sempre um processo que começa por ser desconfortável. Mas uma vez encontrado o fio à meada, tudo se resolve.

Sim, e eu acho que já encontrei o meu…

Artigo originalmente publicado na GQ

 
 
 
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