James Merendino é uma personagem caricata. Uns dias antes da estreia em Portugal de Trespassing (O Mito), o c7nema contactou o realizador para uma entrevista. Pelo meio, ainda lhe demos algumas dicas de filmes europeus para ver, já que está a criar uma distribuidora e pediu sugestões. Depois das dicas, chegaram finalmente as respostas às nossas perguntas. Quanto a Trespassing, encontra-se apenas em exibição no Porto, não se sabendo se chegará a mais localidades.
Nesta conversa, Merendino revelou-se um verdadeiro apaixonado pelo que faz. A forma frontal com que responde diz tudo sobre a sua personalidade. “Sou um lunático”, confessou-nos. Concordamos — e a sua extravagância ajuda a compreender melhor o seu trabalho.
Qual foi a inspiração para criar Trespassing?
O meu principal objetivo era assustar as pessoas. Não sei se consegui, mas acredito que o medo define a vida. Penso que todos têm medo de morrer — eu pelo menos tenho. E estamos todos condenados. Deus foi bastante injusto connosco nesse campo. No fim, tudo se resume à morte.
Sempre gostei de filmes sobre o medo. Sei que o horror é muitas vezes visto como um género menor, mas para mim é o mais próximo da verdade. Funciona como uma vacina: injetamos o susto para que o espectador fique imune. Quando as luzes da sala acendem, percebem que era tudo fingido.
A inspiração direta para Trespassing foi o 11 de Setembro. Ver aquelas imagens, o medo das pessoas… pensei: precisamos de filmes de terror. Disseram-me que era maluco, que o público queria “feel good movies”. Discordei. Como pode alguém envolver-se num filme leve quando o mundo real vive um pesadelo?
Não digo que tenha sido o pior acontecimento da história. O Japão sofreu duas bombas atómicas. Mas o 11 de Setembro foi o horror mais bem fotografado de sempre: céu azul, sol a brilhar, câmaras ligadas. Aquelas imagens eram brutais, ninguém tinha visto algo assim — nem no cinema.
Foi aí que pensei: o que aconteceu aos verdadeiros filmes de terror? Aqueles que assustam mesmo, sem gozar com o género? Queria trazer isso de volta. Para mim, não há bons ou maus filmes, há opiniões boas ou más. Mas o terror estava a ser tratado como pornografia: sempre a repetir fórmulas.
Quis regressar ao estilo dos anos 70: muito sangue, poucas explicações, mais ambiguidade. Terror puro, quase sem diálogos. A primeira cena de Trespassing mostra dois homens num sótão que descobrem um cadáver pregado numa cruz. Um deles enlouquece, acusa o outro, e depois… créditos. Sem explicações. Corte para 20 anos antes. É isso: o medo são as próprias perguntas, não as respostas.
Como escolheste o elenco e como foi trabalhar com eles?
Escolhi os rapazes pessoalmente. Não houve audições, apenas vi os trabalhos anteriores e senti se havia ligação. As raparigas foram escolhidas pelos produtores.
Houve uma tentativa de recriar Texas Chainsaw Massacre?
De certa forma, sim. Quis colocar o horror no seu lugar, tal como Chainsaw fez. Mas queria ir mais longe que Tobe Hooper. O assassino de Trespassing usa máscara, mas nunca o vemos realmente. Para mim, a máscara é um símbolo poderoso: Mike Myers, Jason, Leatherface, o Fantasma da Ópera. Representa o desconhecido.
Acreditas em mitos e maldições?
Não gosto de explicações em filmes de terror. Levanto perguntas, porque são as perguntas que assustam — as respostas aliviam. Mas se tivesse de responder, diria que sim, acredito em maldições. Porque se acreditas nelas, elas existem. Mesmo o nada, se acreditares, passa a existir. O abstrato é tão real como a cor azul para um cego.
Quais são os teus próximos projetos?
Tenho um guião inspirado em Omega Man, mas mais radical. Professores no Colorado refugiam-se num bunker antes de um cometa atingir a Terra. O suposto amigo que o possui não os quer deixar entrar. Logo a partir da primeira cena começa o drama psicológico.
Quando o cometa atinge a Terra, as calotas polares derretem. O Colorado transforma-se numa ilha. Os sobreviventes, expostos à radiação, enlouquecem e parecem leprosos. Formam comunidades organizadas, mas assassinam quem resta.
A história acompanha quatro professores — entre eles um físico pacifista de 30 anos — que armadilharam um edifício para resistir. Cães esfomeados e homens loucos tentam matá-los sem descanso. Não têm paz, nem sequer o direito de odiar a própria vida. Todos os amigos morreram. O mundo acabou.
Quero que seja credível, intenso e sem momentos de descanso. Não é 28 Days Later, nem Night of the Living Dead. Não é cinema de 50 milhões. É mais próximo de Terminator, Omega Man ou Planet of the Apes. Um verdadeiro filme apocalíptico.

