Jérôme Reybaud e o choque entre o conformismo e o niilismo em “Un Balcon à Limoges”

(Fotos: Divulgação)

Nascido em Cannes em 1970, Jérôme Reybaud move-se com precisão entre o documentário e a ficção ao longo do seu percurso. Jours de France (2017), a sua primeira longa-metragem, foi apresentada na Semana Internacional da Crítica do Festival de Veneza em 2016, depois de já ter sido selecionado no FID Marseille com o documentário Qui êtes-vous Paul Vecchiali ? (2012). Em 2022, a sua média-metragem Poitiers foi apresentada no Festival de Locarno, consolidando o seu olhar crítico e discreto sobre a sociedade contemporânea.

Agora, baseando-se num caso real, o cineasta trouxe à Suíça, na secção Cineastas do Presente, Un Balcon à Limoges, um filme “delirante” que marca uma nova ruptura do realizador com aquilo que poderiam esperar dele.

Un Balcon à Limoges acompanha Gladys (Fabienne Babe), uma mulher na casa dos cinquenta que vive à margem da sociedade e rejeita as suas convenções. Um dia, por acaso, reencontra Eugénie (Anne-Lise Heimburger), uma antiga colega que se oferece para a ajudar. É daqui que nasce um confronto entre alguém que simboliza o conformismo social e outra, uma verdadeira niilista.

Na conversa a seguir, Jérôme falou-nos das suas inspirações e métodos de trabalho, os quais levaram a criar um dos filmes mais impactantes (e surpreendentes) da edição 2025 do festival.

Anne-Lise Heimburger em “Un Balcon à Limoges

Como nasceu o Un Balcon à Limoges?

Originalmente queria falar de um certo conformismo que observei numa certa parte da população, algo que me pareceu muito visível durante a pandemia da Covid, mas também depois da pandemia — embora não se limite apenas à pandemia. 

Em todas as sociedades, há sempre uma parte da população que quer fazer aquilo que a sociedade diz ser bom fazer. Por exemplo: temos de ajudar os refugiados, então ajudamos os refugiados. Cinco anos depois, pode ser outra coisa. Daqui a cinco anos, será outra causa diferente. Naturalmente, não digo que isso seja mau. Digo apenas que há pessoas que o fazem sem pensar, como pequenos soldados do bem. 

Paralelamente a isto, encontrei pessoas que queriam abandonar completamente a sociedade. Em Paris, há uma mulher que vive no seu carro, na minha rua. São pessoas que rejeitam o sistema bancário, o sistema, coisas assim.

Esses dois extremos fizeram-no pensar…

Sim, que existe uma oposição muito forte entre um extremo de conformismo — “temos de fazer isto, é bom fazer isto” — e um extremo absoluto de “não me importa, que se lixe tudo”. 

Encontrei aqui a ideia, ainda numa forma ainda abstrata. Até que me lembrei de um caso verídico, um facto real, e fiz a ligação entre os dois. A ideia abstrata tornou-se concreta. (…) Na história real, a protagonista tem dois filhos em vez de um. E faz exatamente o que faz no filme. Depois de um ato extremo de violência, ela lava as mãos, vai ao supermercado comprar velas para a festa de aniversário do filho, além de lixívia e sacos de plástico. Volta para casa e prepara a festa de aniversário. Aparecem dez crianças. Isso é real. Há a festa de aniversário… e o corpo da falecida continua lá, no sítio. Tudo isto é verdade, apenas simplifiquei um pouco, reduzi elementos. Interessava-me a personagem da criança — e por isso reduzi a apenas um.

Quando escrevi, pensei: “Estas mulheres são loucas, mas com uma daquelas loucura que adoro, que acho bonita. Acho-as maravilhosas e, ao mesmo tempo, horríveis —  são as duas coisas em simultâneo.” Além disso, pensei: preciso delas, enquanto espectador, e enquanto narrador. Por isso, disse: “Vou introduzir também dois contra-olhares.” Foi aí que surgiu a figura do professor, uma testemunha, do outro lado da rua. E a de uma criança que, para mim, é a personagem mais importante.

Acha que a pandemia acentuou a dinâmica da sociedade e a polarização dos extremos?

Acho que a pandemia, por ter sido um fenómeno global, somada às redes sociais e a tudo isso, tornou o conformismo ainda mais visível. Mas, se pensarmos bem, no século XIX, numa pequena cidade de província, em França ou em Portugal, as ideias dominantes da época eram também impostas, e homens e mulheres — ou parte da população — seguiam-nas cegamente.

A diferença é que, em vez de ir ajudar os refugiados ucranianos, a personagem principal teria ajudado os pobres da sua paróquia. E diria: “É bom ir à missa aos domingos.” 

Chama-me à atenção esta espécie de conformidade, essa repetição automática, sem nunca questionar. É isso que me fascina — ou me assusta um pouco —, o catalogar. Quando houve atentados na França, toda a gente tinha a sua pequena bandeira. Mas vinte anos depois, já não somos Charlie. Porque é que a bandeira desapareceu? Na verdade, substituímos a bandeira do Charlie pela bandeira da vacina,  e depois por outra.

O que me impressiona é que, em qualquer sociedade, sempre haverá uma parte da população que é fundamentalmente conformista, que tem vontade de seguir. Isso não é necessariamente mau — queremos fazer o bem.

Jérôme Reybaud

Na reação a tudo isto, há muitas pessoas que já não acreditam, nem querem acreditar, em nada. Não acreditam nas vacinas, não acreditam que o mundo é redondo.

Sim.

Como vê a propagação destas ideias, especialmente nas redes sociais?

O filme não fala dessa reação. No filme, a reação ao conformismo não é alguém que desenvolve um discurso contrário. A Gladys, a personagem oposta, não responde à Eugénie com: “Tu és conformista.” Responde: “Não me interessa a tua sociedade, eu quero dançar.”  Não há discurso. 

Agora, se me faz esta pergunta, acho que a resposta da sociedade é lógica: quando vamos muito longe num extremo, surge uma reação que vai muito longe no extremo oposto. Por exemplo, se, em França, o governo diz: “Não usem máscara, é perigoso”, e um mês depois diz: “É obrigatório usar máscara”, é normal que, no fim, haja pessoas a dizer que a Terra é plana.

Penso que estas coisas sempre existiram — só que as redes sociais amplificam tudo. É por isso que agora as vemos mais, ouvimo-las mais, somos mais atingidos por elas. 

O filme não se interessa por essa resposta. A resposta ao conformismo, no filme, é um niilismo absoluto. A personagem da Gladys é niilista. Ela não acredita em nada e nem sequer se rebela, porque nem sequer precisa de se rebelar. Ela saíu do mundo. O comboio pode seguir o seu caminho — eu desço.

E como criou a transformação da conformista em alguém capaz de fazer o pior que se pode imaginar? 

Existe um princípio muito conhecido: o inferno está cheio de boas intenções. A Eugénie quer fazer o bem contra a própria vontade da Gladys. Acho isso comovente. Mas, nas nossas sociedades, às vezes é o Estado que diz fazer o bem, mesmo contra o que desejamos. Dizem: “Vocês não percebem, mas isto que estamos a fazer é bom para vocês.” 

Para mim, isso é complicado e, se seguirmos o fio da meada, não me surpreende que este pequeno soldado do conformismo tenha, afinal, uma vontade de impor a sua forma de ser. E, no fim, acho que a personagem Eugénie vê a Gladys como um veneno para a sociedade.

E no que diz respeito ao trabalho com as atrizes, como foi esse processo?”

Com os atores, digo-lhes que posso fazer o que eles quiserem, mas, na verdade, não preciso de ensaiar antecipadamente. Estou à sua disposição, mas em geral trabalham sozinhos nos seus planos. A única coisa que trabalhamos em conjunto é o guarda-roupa. 

Com a Anne-Lise, que faz a Eugénie, fomos a um bairro em Paris, a várias lojas, e experimentamos dezenas de peças. Fizemos um trabalho muito cuidadoso. Era importante, por exemplo, entender como ela ia andar com os sapatos. Se está confortável, se muda a postura, etc. Para mim, dirigir atores é essencialmente escolher os figurinos. E digo “vai para a esquerda, vai para a direita.”

Em relação ao texto, quase nunca tenho nada para fazer. Nada mesmo.

Tem algum novo projeto em vista?

Sim, tenho um novo projeto. Agora vamos procurar o dinheiro, por isso veremos se avança. Não será baseado num caso verídico. Na verdade, tento não fazer duas vezes a mesma coisa. Os três filmes que fiz são bastante diferentes. E acho que este vai surpreender quem viu os meus filmes anteriores.

Será enraizado na sociedade, sobre um tema social bastante quente em França.. Só que não ao nível do “caso verídico”. Veremos…

Link curto do artigo: https://c7nema.net/ux9i

Últimas